
A importância da colaboração entre governos, instituições de pesquisa e comunidades para superar o problema da vassoura-de-bruxa da mandioca foi a tônica do workshop dedicado à emergência sanitária dessa doença, realizado de 24 a 27 deste mês, na sede da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará, em Belém (PA).
O evento foi organizado pelos governos do Brasil e França, uma vez que a enfermidade também atinge o território da Guiana Francesa. No Brasil, a doença foi identificada inicialmente na região do Oiapoque, no Amapá, e rapidamente se espalhou para outras regiões do estado. Segundo os especialistas, trata-se de ameaça à produção da mandioca, com impactos econômicos, sociais e ambientais. Causada pelo fungo Ceratobasidium theobromae (Rhizoctonia theobromae), a doença está relacionada na lista oficial de pragas quarentenárias presentes para o Brasil.
“Nosso principal objetivo hoje aqui é informar e trocar conhecimentos, além de fortalecer as alianças existentes e estabelecer novas parcerias para que os governos possam dar respostas rápidas a emergências sanitárias como essa”, disse a diretora Ana Euler, de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia da Embrapa, na abertura do evento, que teve transmissão no YouTube. .
Embrapa Amapá
Na mesa redonda dedicada à pesquisa e cooperação, Antônio Cláudio Carvalho, chefe-geral da Embrapa Amapá, traçou um retrospecto desde o primeiro contato com o problema que afetava os cultivos de mandioca das populações indígenas, em 2023, na região do Oiapoque, ao estado atual da investigação.
De acordo com Carvalho, a primeira hipótese levantada pelos pesquisadores como causa do fenômeno foi problemas no manejo da cultura, mas logo foi logo descartada, dada a velocidade. “Em dois meses, vimos uma roça ser praticamente dizimada. Algo nunca visto antes”, contou. Pela Embrapa Amapá também participaram a chefe adjunta de Pesquisa e Desenvolvimento, Cristiane Ramos de Jesus, e o analista de transferência de tecnologias, Jackson Araújo dos Santos.
Uma das tentativas para contornar o problema, segundo o pesquisador, foi a introdução de variedades de mandioca melhoradas pela Embrapa e já existentes. “No entanto, esses materiais genéticos também foram praticamente dizimados”, disse.
A esperança atualmente é depositada, curiosamente, em duas variedades de mandioca do próprio território indígena onde a doença surgiu no país. Análises técnicas feitas desde 2023, apontam, de forma preliminar, para que as variedades “Xingu” e “Teré Teré” seriam tolerantes à doença vassoura-de-bruxa da mandioca.
Também integrando a mesa redonda, o chefe-geral da Embrapa Mandioca e Fruticultura, Francisco Laranjeira, abordou a participação da empresa no Centro de Operações de Emergência Agropecuária da Vassoura-de-Bruxa da Mandioca e do plano de prevenção e controle da doença, instituídos pelo Ministério da Agricultura e Pecuária neste mês.
Laranjeira também apresentou levantamentos socioeconômicos com estimativas dos impactos possíveis da doença sobre a cultura da mandioca, em três cenários. “No pior cenário, o prejuízo pode alcançar quase 5 bilhões de reais, se essa doença se disseminar para o resto do Brasil”, afirmou. O gestor também referiu que o avanço da doença pode impactar o custo da cesta básica e elevar a inflação, considerando o consumo dos derivados da mandioca, como farinha, fécula e pão de queijo.
Impactos
Representando o Conselho de Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque, o cacique Edmilson Oliveira participou da primeira mesa redonda, na qual relatou os impactos da doença no campo e na vida das comunidades. De acordo com a liderança, os primeiros sinais da doença surgiram no final de 2022 e começaram a impactar a produção de mandioca a partir de 2023.
“Nossa história sempre dependeu da mandioca. Para nós ela é alimento, tradição, cultura e renda, toda uma estrutura que apoia a soberania dos nossos povos. São mais de duas mil famílias que vivem da roça de mandioca”, afirmou o cacique.
Do lado francês, Bruno Apouyou, vice-presidente do Conselho de Populações Ameríndias e Bushinenge, da Guiana Francesa, falou sobre como as comunidades do vale do rio Maroni têm enfrentado a doença. Segundo ele, na região a mandioca é a principal cultura agrícola para cerca de 100 mil pessoas.
“Queremos que a pesquisa não trabalhe apenas sobre uma variedade de mandioca, mas sobre a grande variedade de mandiocas que utilizamos para criar diversos produtos”, disse o Apouyou, ao ressaltar a importância de preservação do patrimônio genético das comunidades.
Texto: Vinicius Soares Braga (MTb 12.416/RS)
Embrapa Amazônia Oriental (Pará)
