“Você é o que você come”: o ato político por trás de uma garfada

*Laura Machado. Jornalista

Há tempos que a preocupação com aquilo que entra ou deixa de entrar em nosso prato deixou de ser sinônimo de dieta. Fazer a própria comida e carregar sempre a famosa marmita agora é muito mais comum do que se imagina, escolher comidas mais saudáveis também. E se eu disser que o que nós comemos também é político? A palavra política tem origem grega, e pode ser definida como “aquilo que se refere ao público e ao bem da população”, ou seja, tudo aquilo que pode ser considerado como direito de todos nós, é política. E isso vai muito além do lado partidário.

          “Tudo bem, mas onde entra a política na alimentação?” 

Alimentação é um ato político desde o momento em que você escolhe o que vai consumir. Comer de forma mais natural, ingerir mais alimentos orgânicos, é um ato político. E o mais importante de tudo, entender a origem daquilo que você coloca dentro do seu corpo, também é político. Compreender os impactos que a nossa alimentação gera no planeta ainda é um privilégio de uma pequena parte da população, assim como a alimentação saudável.

A agricultura orgânica ainda possui seus produtos com um custo elevado, mas é importante entender que o alto preço se deve à produção em pequena escala, envolvendo muito mais pessoas do que máquinas. Sem contar a falta de incentivo aos pequenos produtores que, não têm os mesmos recursos que grandes latifundiários no país. Com o aumento na demanda por produtos orgânicos, consequentemente os custos de produção e comercialização tendem a diminuir, e de quebra contribui para a maior preservação do meio ambiente.

A destruição da mata nativa ainda é frequente na agricultura e na pecuária, causando danos irreversíveis à natureza, o que é diretamente ligado ao produto final que chega na mesa do brasileiro. De acordo com informações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), retiradas da revista Forbes, em 2017, o Brasil ocupou o 6º lugar no ranking dos países que mais consomem carne no mundo. Vale lembrar que o consumo excessivo de carne significa mais impacto ambiental, o que inclui no pacote: assoreamento, destruição da fauna e flora, desgaste e contaminação do solo. Vale ressaltar que a indústria produtora de carne é a que mais consome água no mundo.

A relação do homem com a natureza ainda é de dominação, e o consumismo é a destruição daquilo que o próprio consumismo construiu. O primeiro passo para uma mudança de cenário é a consciência coletiva, escolher com mais cuidado não só aquilo que vamos comer, mas também o que vestir e usar, é também pensar de maneira sustentável. Lutar por um sistema alimentar mais justo, valorizar o pequeno produtor, diminuir o consumo de carne e até reconhecer os próprios privilégios é agir politicamente, se incomodar é o primeiro passo para a transformação.

(Laura Machado – Jornalista)

 

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