Viva o Mercado Central!

*** Por Rubens Gemaque. Engenheiro Agrônomo e Pecuarista

Ah, esse Mercado Central…!!! Quanto bem nos faz!!! Ele nos traz boas lembranças da Macapá de outrora, a mim então, ele mexe fundo nas reminiscências da memória e da alma.
Lá, inicei minha saga laboriosa!!
O Mercado me acolheu ainda muito novinho, primeiro, vendendo sacolas feitas de sacos de cimento, geralmente escondido de meus pais. Depois, dos 11 aos 14 anos, como caixeiro na Mercearia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro localizada na sua lateral sul, de frente para o posto Santo Antônio de propriedade da família Silva e para o Hotel Amazonas da família Salmam. A mercearia, também conhecida por taberna, era o comércio do meu pai, seu Edmundo Gemaque, popularmente conhecido naquele ambiente do mercado por Dedezinho. Ali aprendi, vi e ouvi muitas coisas, e que coisas! Papai também era marchante e tinha alguns boxes de açougue no interior do mercado.

Vivi e conheci as entranhas desse mercado. Conhecia todo mundo por lá. Por algum tempo de minha existência, ele foi o meu universo. Me apaixonei por ele muito cedo, bem no início dos anos 70 e, certamente, também por lá, despertou em mim os primeiros lampejos de paixão… Lá, pra mim, tudo era apaixonante. A arquitetura do prédio, o traçado de vigas de madeira para sustentar o telhado, a obra de carpintaria perfeita e com detalhes requintados de engenharia, sempre me chamou muito a atenção. As vezes ficava a olhar pro seu teto querendo entender o traçado das vigas e ficava a imaginar a trabalheira dos carpinteiros pra construir tudo aquilo com tamanha perfeição. A alegria das pessoas no seu vai e vem sem parar, enfim tudo era apaixonante, muito cheio de vida e charme. Os grandes portões de entrada, os arcos das janelas e entradas laterais, e seus mezaninos internos faziam a imponência do grande prédio, que ao amanhecer de todos os dias, era iluminado pelos raios do sol e de esperança aos que transitavam pelos seus largos corredores internos a comprar de ‘um tudo’ …

A dinâmica econômica do Mercado era pulsante e suas atividades eram bem diversificadas, iam da carne, verduras, ovos, lanchonetes, sapateiros, relojoeiros, farmácia, ervanarias, mercearias e bares. Era bem frequentado!! Era o retrato fiel da Macapá de então.

A mercearia era o ponto de encontro de marchantes, pecuaristas e outros negociantes de passagem por Macapá que geralmente finalizavam suas transações e negócios apreciando uma Cerpa bem gelada no acalorado e folclórico Bar du Pedro. Por lá, diariamente passavam simples e ilustres amapaenses, aos sábados a frequência ficava por conta dos mais abastados, na sua maioria, funcionários públicos de alto calão. Era comum recebermos a visita dos pioneiros e renomados médicos Alberto Lima e Yaci Alcântara que não abriam mão dos sábados para as compras no grande Mercado. Dr Yaci, com mais frequência, era nosso freguês costumaz. Estacionava seu carro bem em frente a mereceria. Sempre sua chegada chamava muito a atenção dos curiosos para o seu Opala Cupê vermelho, último lançamento da Chevrolet, um modelo belíssimo da época. Após suas compras, deixava sob meus cuidados, tudo guardado no grande balcão frigorífico, enquanto ia prosear com os amigos no bar du Pedro. Quando retornava, agradecia sempre dizendo: deixei um caldo de cana pago na garapeira do Brotinho, ou então: tem uma vitamina paga no bar du Pedro pra ti. Aassim ganhei um amigo e um médico por muito tempo. Ah, Mercado Central, que boas lembranças me trazes. Na entrada oriental, de frente para a imponente Fortaleza, ficava o salão Diplomata e o bar du Pedro.
Nesse bar, espaço de acaloradas discussões, certamente se tratou de todos os assuntos polêmicos da vida amapaense. Nos momentos de folga da mercearia eu corria pra lá, para assistir os confrontos de opositores políticos, partidários de Janary e Antônio Pontes, ícones das disputas eleitorais na época e também de torcedores do Remo e Paysandu nas suas intermináveis e inflamadas discussões. Essas discussões me encantavam e pra disfarçar o enxerimento, pedia uma garapa e um pão doce, assim podia acompanhar tudo, presencialmente.

Tenho muitas e boas lembranças do mercado que frequentei e vivenciei. Vivi visceralmente o Mercado Central!! Lá, aprendi a olhar o mundo com os olhos da igualdade e a conviver e respeitar as diferenças…
Ah, esse mercado me ensinou muita coisa, e ainda há de ensinar a muitos dos filhos desta terra que, como eu, muito cedo aprendeu a valorizar nosso patrimônio e nossa cultura.
Estou muito feliz com a iniciativa do prefeito Clécio, com esse advento, também me sinto um pouco reinaugurado…. Eu, que dei meus primeiros passos por lá, me sinto no dever de falar e representar um pouco aqueles que no meu tempo, beberam na fonte do Mercado Central.

Só tenho a agradecer.

VIVA O MERCADO CENTRAL!!!

Foto: Gabriel Flores
  • Excelente a crônica memorial do amigo Gemaque. Concordo que também é uma reinauguração de nossas consciências. Espero que dure um bom tempo e se transforme num lugar bacana pra gente frequentar, sem preocupações com a violência. Grande abraço.

    • Obrigado meu caríssimo amigo Fernando pêlo elogio, ele me enche de entusiasmo e coragem para perseguir com as crônicas que retratem com fidelidade os acontecimentos vivenciados por mim e por nossa geração na Macapá de outrora. Espero em breve nos encontramos no bar du Pedro, desta vez não não para sover o caldo da cana, mas sim uma puro malte para o continuum dessa prosa…
      Um forte abraço, amigo.

  • Parabéns, Gemaque, pelo retrato em preto e branco, desbotado pelo tempo, mas fidelíssimo, do Mercado Central. Uma festa para a minha memória, um encantamento.
    Vivi o mercado de bem antes dos anos 70. Vivi quando tínhamos de chegar quatro, cinco, seis da tarde para entrar na
    fila para comprar carne no outro dia, com o mercado abrindo as cinco da madrugada (naquele tempo cinco da manhã era cinco da madrugada). E o pior, bem sempre conseguia-se comprar carne, que acabava antes de chegar a nossa vez. Aí, como solução, entrava-se em outra fila, na fila da víscera, para ver se conseguia-se um quilo de fígado, uma língua ou qualquer coisa que começavam a vender as quatro da tarde.
    Pode-se dizer: era escasso, trabalhoso, cansativo, comprar carne no Mercado Central, testemunha da nossa luta e das nossas carência.
    Parabéns, Gemaque ! Bem-vindo, Mercado Central, ao nosso convívio, de onde nunca deverias ter ficado muito tempo afastado.

  • Rubens Gemaque , meu companheiro de turma da Agronomia , um homem sensível, muito bom observador , engajado pelos caminhos da fé e da justiça, desde que te conheci . O tempo que te fez , ainda menino, um sábio aprendiz no espaço público do mercado, captando saberes , provando sabores , sorvendo as delicias da vida , te fez também na escola da vida um homem de bem , um profissional respeitado , um pai honrado e um filho muito ilustre desta terra . Que a tua sensatez , o compromisso fraterno e a bondade do teu coração , façam coro à tua verve poética e ecoem, te fazendo sempre muito querido .
    Adorei a crônica !

  • Parabenizo, meu compadre Gemaque, pelo belo testemunho descrito nesse documentário sobre esse imponente patrimônio, não só arquitetônico, mas também como palco das histórias vividas por gerações, principalmente, após sua inauguração nos anos de 1953 até os anos da década de 1970, marcados pelos moradores da Macapá da tranquilidade.
    Esse “ causo “ retrata com fidedignidade de como era a vivência urbana e traz à baila uma PAZ, que guardo com saudossismo.
    Pouquíssimas lembranças tenho do “métier” desse burburinho mercadológico, algumas poucas vezes, quando tinha uma folguinha do trabalho, adentrei nas dependências do mercado.
    É de se lamentar como a história de Macapá não é devidamente tratada, retratada, estudada e resguardada com a importância que faz por merecer.
    Parabenizo a iniciativa da restauração, quando irá retratar com fidelidade a era da criação, pois temos visto, restauração com ares da modernidade, que em nada contribui, ou melhor, destrói a história.
    Exemplificando apenas um desses monumentos, e que há inúmeros, como o Palácio Rui Barbosa, pertencente ao Grêmio do Colégio Amapaense, com sua bela arquitetura fora, simplesmente, destruído como se tudo aquilo pudesse ser descartado como uma sacola de fixo.
    Trazer o MERCADO CENTRAL ao convívio dos amapaenses é reviver um passado, que perpetuará a história de um legado deixado por nossos entes mais queridos.

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