Vilar, do latim Bar do Vila, de volta ao tucupi shot

Após seis meses de portas fechadas, o bar voltou a atividade nesta semana. 

 

O salão vazio, com as mesas escoradas na parede, cheio apenas de silêncio, em que se ouvia apenas o som dos ventiladores circulando o ar abafado das 15h da tarde em Macapá. A última vez em que eu tinha estado ali havia seis meses, no último carnaval antes do mundo fechar. Enquanto atravessava aquele lugar em direção à mesa, a nostalgia me tomava de tal maneira que, sem perceber, soltei um “égua, que saudade de vilar!”

Aline e Manu, proprietárias do bar e amigas que a minha frequência semanal no meio fio me deram, me esperavam sentadas, com a mesma receptividade de sempre. A cerveja, agora, dava lugar à água e a música, à conversa nesse que era o último dia antes do Bar do Vila voltar a ativa. 

Aline e Manu, proprietárias do Bar do Vila.

“Isso aqui nasceu da ideia de criar um espaço diferenciado, não só o novo do mesmo”, me explicaram as meninas sobre a origem do bar. Com a experiência de anos na produção do Vila do Rock que Emanuely Coutinho (31) carrega, somada à potência criativa de Aline Araújo (26), o empreendimento foi se desenhando no dia a dia, de forma modesta, sem a expectativa de que, dois anos depois, ocupasse um lugar de referência cultural na cidade.

“Quando a gente inaugurou, tínhamos um único freezer e foi tudo muito surpreendente, ficamos desesperadas”, contam hoje em tom de risada. Inaugurado em 15 de dezembro de 2018, o bar, ainda sem decoração, disposição de mesas e ambiente arejado, recebeu naquela noite mais de 150 pessoas. “Antes das 22h já tinha acabado toda a nossa cerveja. Demoramos uns 4 meses para nos adaptarmos ao volume de gente. Na nossa cabeça, ficaríamos funcionando por uns 10 meses só, e quando vimos, completamos um ano”. 

Celebrado com euforia e suspiros de alívio, o primeiro ano do Bar do Vila chegou trazendo os frutos de um trabalho diário árduo. “O novo espaço veio focando em um novo público, que é público dos drinks, não só o pessoal que toma o litrão. Era um espaço realmente desconfortável, não tinha mesa, não tinha cadeira. Época de chuva chegava e não tinha tenda. Não tínhamos praticamente nada! Trabalhamos um ano do jeito que dava para construir um espaço mais confortável e apresentar uma carta de drink acessível para as pessoas”. Espaço esse que, horas depois da nossa conversa, recebeu uma família para um ensaio fotográfico. 

Poeta Joãozinho Gomes, Alcilene Cavalcante e a cantora Patrícia Bastos.

Com uma seleção de drinks que vai da tradicional caipirinha à famosa gin tônica, o bar valoriza a produção local em cada detalhe, desde a utilização Gengibirra e frutas sazonais para as bebidas, até a programação repleta de MPA. “Sempre tivemos o cuidado  em valorizar a nossa própria cultura, que é muito apagada, principalmente por falta de espaço, por esse costume de se valorizar só o que vem de fora. Dar oportunidade e fazer com que as pessoas se permitam conhecer e gostar do que é nosso. A primeira vez em que trouxemos a Patrícia Bastos aqui parecia algo muito distante e não, a gente ouve Patrícia desde muito cedo. E perceber que todos esses artistas que nós crescemos ouvindo, hoje, gostam de tocar aqui é muito gratificante”, me conta Aline, enquanto eu observo a pintura de um casal marabaixeiro na parede atrás dela, em um salão que reúne encontros de gerações macapaenses.

Dentre as pinturas nas paredes, a mais direta delas, sem dúvidas, é “Lute como uma mulher!” Ocupar um lugar de destaque como empreendimento feminino em Macapá nem sempre foi algo tranquilo. “A gente sempre escuta ‘Mas quem é um dono?’, e quando falamos que somos nós, as pessoas duvidam. Até para a gente abrir o bar foi difícil. procuramos várias distribuidoras para conseguir material básico e ninguém queria investir. É bem descarado o machismo, principalmente por trabalharmos na noite”. Mas as dificuldades se convertem em potência, na medida em que deixa de ser um bar e se torna um espaço de acolhimento. “Não toleramos nenhum tipo de preconceito e desrespeito aqui! Seja com nosso público ou com nossos colaboradores. A nossa maior preocupação é que as pessoas se sintam bem aqui, seguras e à vontade”, como o tradicional “LOVE” com as cores da bandeira LGBT no corredor do bar.

“Eu sei que existe aquela imagem de tumulto no imaginário das pessoas, mas estamos prezando pelo máximo de segurança possível para o nosso público.” Após seis meses de atividades paradas, as proprietárias, que também são formadas na área da saúde, se planejam para receber os clientes com o máximo de segurança possível. “Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para manter uma ordem. Por exemplo, em relação ao meio fio, que não é de responsabilidade nossa, não poderemos comercializar bebidas mais, para ter controle de consumo. Então só atenderemos da calçada para dentro, nas mesas com comanda.” 

“Nós temos plena consciência de que vivemos uma pandemia, e sem precedentes para uma vacina. Mas chegou um momento em que não conseguimos mais ficar de portas fechadas, por vários motivos. Seis meses de uma empresa fechada, com uma construção em pagamento, é muito difícil.” Com uma agenda reprogramada, os horários foram flexibilizados para atender ao decreto da Prefeitura de Macapá. Agora funcionando das 17h às 23h, de quarta à domingo. 

“Não temos mais feito planos, pela frustração que foi planejar um ano de 2020 incrível para o bar e não poder realizar nada. No momento a nossa preocupação é viver o presente, mas é aquilo, a gente é meio doidinha, se der na telha, a gente faz!’ resume Aline com uma gargalhada por saber que, apesar de tudo, ainda existe nas mão de duas jovens mulheres, a coragem e disposição para realizar coisas incríveis.

 

 

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