*Marileia Maciel
A chegada do primeiro avião em Macapá, na década de 20, foi um acontecimento que gerou grande tumulto entre os moradores que habitavam a frente da cidade, pois juravam ser o fim do mundo. O fato entrou para a história e ainda hoje é cantado no famoso ladrão de marabaixo conhecido como “Vem ver a Irmã Catita”. A correria e gritaria das pretas velhas foram testemunhadas pela menina Josefa Lina da Silva, a Tia Zefa, que gostava de contar essa história. Nesta terça-feira, 23, ela virou passarinho, bateu asas e foi embora, deixando entre os que ficam um sentimento de gratidão por nunca se negar a abrir seu baú com recortes da memória, o que contribuiu imensamente para engrandecer a riqueza cultural do Amapá, desde a criação do Território até o então Estado.


Uns dizem ter vivido 108 anos, outros falam que é 110. A maioria de seus contemporâneos já não vive entre nós, e talvez ela fosse a última da geração, mas suas histórias dão a certeza de seu tempo por aqui. Tia Zefa gostava de refrescar a memória falando do tempo que morava na Vila de São José de Macapá, atrás da Igreja de São José, rodeada de outras famílias de negros, entre eles a parteira Mãe Luzia. Sua lucidez encantava os ouvintes, que escutavam de uma personagem viva, a história sobre a travessia dos negros que moravam no centro de Macapá, para o Laguinho e Favela, nos anos 40. Ela, junto com a família de seu padrinho Julião Ramos, e outras, levaram não só seus pertences, mas suas caixas de marabaixo, a fé, a devoção na Santíssima Trindade e Divino Espírito Santo, e a resistência herdada de seus antepassados, o que ajudou a preservar as tradições.
Ela vem de um tempo que as mulheres casadas carregavam o nome do marido, e Tia Zefa, também era chamada de Zefa do Quinca, seu primeiro esposo, o que ajudava a diferencia-la de outra Zefa da família. Certa vez ela abriu seu baú e nos contou a história da tranca de porta. Ao terminar a construção da casa no Laguinho, o Quinca entregou e ela um pedaço de madeira, que seria usada para trancar a porta, como se estivesse entregando a chave, um gesto entendido que ela seria a dona da casa. E ali, sob este mesmo teto, Tia Zefa construiu sua grande família, com filhos, netos, bisnetos e tataranetos, e recebeu uma legião de amigos e admiradores.
Sua sabedoria secular serviu de fonte de pesquisa, e era comum ser procurada por estudantes, jornalistas, pesquisadores e professores, ávidos por escutar essa tataravó, e ouvi-la tirar um ladrão de marabaixo no improviso. Essa sabedoria, fruto de sua vivência e da maneira de enxergar o mundo, foram inspiração para a composição de ladrões de marabaixo. Um dos mais cantados nas rodas, contam que foi uma situação vivida pela própria Tia Zefa, desiludida, quando presenciou uma traição, e foi acusada de ser a traidora: “Mamãe minha rica mãe, ora veja o mundo como é que está/ Ainda há moça que se ilude, mamãe, por moço desse lugar/ Quem sabe é o Zé Vicente, foi ele quem me avistou/ E ele pra se ver livre, mamãe, pra cima de mim botou”.
E assim, a mãe de família, lavradora, lavadeira, cantadora e compositora de versos de marabaixo, dona de casa, devota de Santa Efigênia, acabou por se tornar tia de todos os amapaenses, que enxergavam por trás de seu porte aparentemente frágil, uma incrível capacidade e força, que a faziam manter enquanto pôde, alguns costumes, como lavar sua própria roupa na mão e varrer a calçada, mesmo com ajudantes para estes serviços, e rezar todos os dias em seu oratório.
De roupa de marabaixo ou vestido estilo boneca, bem passados, cabelos brancos, semblante de paz, olhinhos marejados, ela chegava nas rodas de marabaixo segurando nos braços de sua filha Raimundinha, sempre simpática, e nunca se negou a tirar foto. Assim que era solicitada, levantava, pegava o microfone e inundava o salão com sua voz centenária e cadenciada, acompanhada pelas caixas e pelo coro de pessoas que não se continham e entravam na roda para dançar as histórias cantadas nos ladrões. Esta cena se repetia em cada Ciclo do Marabaixo, Encontro dos Tambores, festas de santo, ou qualquer evento em que era carinhosamente convidada e recebida com honras e respeito.
O Amapá não poupou deferências à Tia Zefa, sempre convidada para eventos e sendo reconhecida por sua importância, como as homenagens prestadas pela Academia do Batuque e Marabaixo, que a imortalizou como acadêmica na cadeira número 3; Confraria Tucuju, que lhe remetia convite especial para as festas de aniversário da cidade; e Memorial Amapá, que concedeu à Tia Zefa a medalha de Notável Edificadora do Amapá.
Ela partiu como foi em vida, silenciosa, sem pressa nem reclamação, e rezando adormeceu. Penso em Tia Zefa chegando ao mundo eterno, conduzida por seres de luz, e na recepção, ao som das caixas, os ladrões de marabaixo mais lindos, entoados pelos parentes que já se foram, em uma roda alegre de boas-vindas. Tia Zefa, foi um prazer viver no seu tempo passado, através de suas histórias, e no presente, e obrigada pelos ensinamentos, minha rica, por sua paciência com as euforias da gengibirra, pelas conversas que tivemos. Siga em paz, passarinho, talvez a gente se reencontre um dia.
Mariléia Maciel



3 Comentários para "Tia Zefa e seu baú centenário de memórias do Território e Estado do Amapá"
Seria interessante, uma pesquisa bem mais profunda, afinal temos fontes que podem contribuir para a realidade da ZEFA DO QUINCAS.
Em primeiro lugar queremos agradecer a vc. Mariléia pelo respeito e carinho que vc tinha por nossa querida mãezinha , e pela belíssima homenagem feita por vc para ela. Sei que ela estar ao lado de nossa pai, Deus todo poderoso, agradecendo essa homenagem sua.
Meus sentimentos, querido