Resumo da CPI – Parte 3 – Contradições marcam o depoimento de Pazuello

Dando continuidade.

Pazuello fez depoimento cheio de contradições

Um dos convocados mais aguardados da CPI, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, frustrou a oposição ao fazer de tudo para proteger o presidente e evitar relacionar Bolsonaro a qualquer decisão sobre a pandemia tomada no ministério da Saúde.

Em dois dias de depoimento, Pazuello afirmou que Bolsonaro nunca lhe deu ordens diretas sobre o que fazer, disse que a responsabilidade pelo colapso da saúde em Manaus foi da secretaria de Saúde local, afirmou que o aplicativo do ministério que recomendava cloroquina foi “hackeado” e que a pasta nunca recomendou o remédio, contradisse a Pfizer e negou que o ministério tenha deixado de responder às ofertas da empresa, reafirmando que havia “problemas jurídicos” que atrapalharam o fechamento do contrato.

Na avaliação do relator, Renan Calheiros (MDB-AL), Pazuello “mentiu muito” ao longo do depoimento. O general, por sua vez, negou que tenha faltado com a verdade.

“Em momento algum o presidente me desautorizou ou me orientou a fazer nada diferente do que eu estava fazendo”, afirmou Pazuello na CPI. Imagem do site gazetadopovo.com

Em outubro do ano passado, no entanto, o general havia gravado um vídeo ao lado de Bolsonaro dizendo que sua relação com o presidente “era simples”. “Um manda e o outro obedece”, disse.

O encontro ocorreu um dia depois de Bolsonaro ter publicamente desautorizado o general sobre a compra da CoronaVac, vacina do Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac. O ministério havia assinado um protocolo de compra após pressão de governadores pedindo por vacinas.

Após o anúncio, porém, Bolsonaro disse: “Já mandei cancelar, o presidente sou eu, não abro mão da minha autoridade”. Sobre isso, Pazuello afirmou à CPI que a fala de Bolsonaro foi “uma posição como agente político na internet” e que isso não interferiu em nada na discussão que havia com o Instituto Butantan. “Uma fala na internet não é uma ordem”, disse Pazuello. “Bolsonaro nunca falou para que eu não comprasse. Ele falou publicamente, mas para o ministério ou para mim, nunca falou”, insistiu.

Sobre Manaus, Pazuello disse que só ficou sabendo da iminência da falta de oxigênio no dia 10 de janeiro. Pazuello disse que no dia 7 de janeiro o secretário de Saúde do Amazonas lhe pediu apoio no transporte de oxigênio de Belém (Pará) para o interior amazonense, mas que nada foi dito nesse sobre risco de falta de oxigênio em Manaus. No entanto, uma comitiva do Ministério da Saúde já havia ido a Manaus em 3 de janeiro para avaliar o estado crítico do sistema de atendimento na cidade. Além disso, um documento de 4 de janeiro produzido pelo Ministério da Saúde e com o nome de Pazuello afirma que “há possibilidade iminente de colapso do sistema de saúde, em 10 dias”, segundo uma reportagem da Agência Pública. Pazuello também negou que tenha recomendado o uso de cloroquina.

Porém, no mesmo vídeo gravado ao lado do presidente em outubro de 2020, Pazuello relata que estava se sentindo melhor da infecção por coronavírus após ter usado o “kit completo” de medicamentos, citando hidroxicloroquina, annita e azitromicina. Bolsonaro questiona Pazuello: “Se algum médico não quiser receitar cloroquina, o que ele (o paciente) faz?”. O general então responde: “Chama outro médico, e se o paciente quiser tomar assina lá o compromisso (reconhecendo os riscos do medicamento) e o médico receita”.

Além das declarações públicas, um dos primeiros atos da gestão Pazuello foi editar, em maio de 2020, uma nota informativa que orientava sobre doses da cloroquina a serem ministradas para pacientes com quadros leves e graves de covid.

O ex-ministro também argumentou que o aplicativo do ministério da saúde que recomendava a cloroquina, o TrateCov, “foi hackeado”. No entanto o TrateCov foi efetivamente colocado pelo ministério no ar para auxiliar médicos em Manaus, com direito a um programa sobre seu uso na TV Brasil.

Os senadores consideraram que o depoimento de Pazuello, apesar de longo, não esclareceu todas as dúvidas sobre a atuação do governo na pandemia e o ministro foi convocado para depor novamente. A data do segundo depoimento ainda não está marcada.

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