Recuperação Ambiental do Lourenço

Por Marco Antonio Chagas – Doutor em desenvolvimento socioambiental pelo NAEA/UFPA e professor da UNIFAP/Curso de Ciências Ambientais.

A região garimpeira do Lourenço está situada em uma área de limites de bacias, sendo a Serra Lombarda o principal divisor de água entre as cabeceiras do alto Araguari (drenam suas águas para o sul) e do rio Oiapoque/Calçoene (drenam suas águas para o norte). Esta característica geográfica coloca a região do Lourenço como de extrema importância para a manutenção da qualidade ambiental das bacias limítrofes.

O Lourenço insere-se no mapa das regiões garimpeiras mais tradicionais da Amazônia, mas ao mesmo tempo também figura entre as áreas mais impactadas. Não existe pesquisa que aponte as reais condições e magnitudes desses impactos, principalmente ao nível espacial da bacia hidrográfica que vem recebendo cargas de poluição há décadas.

As imagens de satélites do Lourenço evidenciam que cursos d´água foram totalmente descaracterizados, não sendo possível identificar seus percursos naturais. Outra feição que chama atenção nas imagens é a mancha de sedimentos nos cursos d´água. A sensação é que os rios estão sendo revirados ou que frequentemente ocorrem enxurradas de sedimentos para os cursos d´água. Alguns deles estão mortos.

Entretanto, o maior impacto ambiental do Lourenço não é visível. A quantidade de mercúrio no meio ambiente é ainda desconhecida, mas a presença é inconteste. Em tempos, determinadas áreas garimpadas no Lourenço o uso do mercúrio era tão intenso que após a retomada ou retrabalhamento dessas áreas os garimpeiros recuperavam mercúrio e não ouro. A contaminação do meio ambiente pelo mercúrio é considerada um dos piores perigos para o homem, principalmente crianças e mulheres em estado de gestação.

Para efeitos comparativos, a produção oficial de ouro na Guiana Francesa, entre 1857 e 1992, estimada em 170 toneladas, ocasionou um despejo no ambiente de 230 toneladas de mercúrio nas fases de lavagem do minério, de manipulação e queima do amálgama. A Diretoria de Saúde e Desenvolvimento Social (DSDS) da Guiana Francesa diagnosticou contaminação mercurial em ecossistemas aquáticos e em cabelos de populações humanas através das cadeias alimentares na região do Alto Maroni e do Alto Oiapoque. A investigação epidemiológica revelou nestas populações concentrações de mercúrio superiores a 10 mg g-1. Estes valores estão na faixa de risco de dano neurológico, principalmente em crianças, segundo a Organização Mundial de Saúde – OMS.

Estimativas sobre o uso do mercúrio para formar o amálgama (Au+Hg), que facilita a apuração do ouro, geralmente citam a proporção de um quilo de ouro para um quilograma de mercúrio. Outros mencionam que a quantidade de mercúrio lançada ao ambiente na forma de rejeito varia conforme as técnicas utilizadas, podendo chegar a três partes de mercúrio para cada parte de ouro produzido.

Estudos no Rio Madeira, Rondônia, reportaram que para cada quilograma de ouro produzido, cerca de 1,3 quilograma de mercúrio são perdidos para o meio ambiente, sendo que 55% a 65% desse mercúrio são lançados na atmosfera e o restante despejado nos cursos d´água.

As tecnologias ambientais para recuperação de áreas mineradas são de alto custo e de alta complexidade. O agravante da existência nos rios da região do Lourenço de mercúrio na forma organometálica, que é altamente neurotóxica, impõem desafios ainda maiores.

As articulações politica para a recuperação ambiental do Lourenço são positivas, mas se não houver planejamento com ações de longo prazo, considero pouco provável a reversão dos danos ambientais do Lourenço.

Sugiro a Cooperativa de Garimpeiros do Lourenço contactar os professores da Universidade Federal Fluminense, Edison Dausacker Bidone e Luiz Drude de Lacerda, pesquisadores com vasta produção científica sobre contaminação e recuperação ambiental de área de garimpo, com experiência no Amapá.

 


  • DR. MARCOS CHAGAS GOSTARIAMOS QUE VC FOSSE SECRETÁRIO DE MEIO AMBIENTE DO MUNICÍPIO DE MACAPÁ. A SEMA E O IMAP NÃO EXISTE. SÃO ÓRGÃOS SEM CAPACIDADE TÉCNICA E MUITO POLITIZADA. APROVEITE O DR. CHAGAS CLÉCIO E RANDOLFE. TEM EXPERIÊNCIA E FORMAÇÃO ADEQUADA PARA GERIR UMA PASTA TÃO IMPORTANTE E TÃO MAL GERIDAS NOS ÚLTIMOS 8 ANOS. VEJA COMO TODOS AS CAPITAIS DO PAÍS AVANÇARAM EM GESTÃO AMBIENTAL, PRINCIPALMENTE DEPOIS DA EDIÇÃO DE LEI COMPLEMENTAR N. 140/2011 (ASSINADA PELA DILMA).

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