“Quem nunca viu o Amazonas, Nunca irá entender a vida de um povo. De alma e cor brasileiras, Suas conquistas ribeiras…”

  • Débora Venturini – Produtora Cultural a Assessora de Comunicação 

“Quem nunca viu o Amazonas
Nunca irá entender a vida de um povo
De alma e cor brasileiras
Suas conquistas ribeiras…”

Joãozinho Gomes é mesmo um gênio. Do porte daqueles poetas que a gente aprende a gostar já na escola…e vai nos acompanhando ao longo da vida. Dos melhores. Ah, João, vc me faz chorar com tanta beleza, vc sabe disso. Vc viu. João fala como ninguém de uma cultura que pra mim, paulista, está muito distante. E pra muita gente ainda é mais longe. Mas eu digo, o Amapá é logo ali.
Depois de dois voos, eu desembarquei no aeroporto de Macapá no início desse mês, mas diferente das outras vezes em que lá estive, eu fui pra Santana, pegar um barco, o João Bruno II.

O destino era Laranjal do Jari e o acesso, era o próprio Rio Amazonas. O caminho não seria percorrido de uma só vez, a viagem foi como aquelas que a gente vai parando o tempo inteiro…igual ao ônibus que encosta pra pegar passageiro. Mas era um barco parando pra buscar histórias pelas comunidades ribeirinhas.

O barco grande parava perto dos afluentes e então, com as voadeiras, eu seguia pelos rios, conhecendo profundamente quem de fato é que tem alma e cor brasileiras. E então eu passei a ver o Brasil mais lindo que o Brasil não conhece. Rio Preto, Rio Maracá, Rio Ajuruxi, Rio Ariramba, Rio Cajari e finalmente o Rio Jari. E junto desses rios e de matas que mais parecerem um quadro, fui visitando comunidades como as de São José, São Jorge, Santo Antônio, Maranata, Macedônia, Canaã, São Pedro, Filadelfia, Betel, Santa Ana, Paraíso e depois o Distrito de Jarilândia, Vitória do Jari e finalmente, Laranjal do Jari, meu destino final, “Ai, meu Jari”.

E quantas histórias eu ouvi. A técnica de enfermagem que operava milagres ao socorrer os acidentados ao longo do rio; as mãos pretas do rapaz que colhia açaí de dia e de noite tocava o teclado na igreja; a menina que tinha o sonho de ser doutora; o garoto que só queria uma roça pra poder casar e ter filhos; a mãe que se orgulhava de ter o filho dono do armazém e do baile da comunidade.

E tinha o almoço na panela, jacaré, e tinha panela, quanta panela brilhante numa parede de uma casa linda. Palafitas, construções que de tempos em tempos precisam avançar pela mata porque o rio vem se aproximando. Ouvi o rei da comunidade, que mesmo casado, namorou a cunhada e a sogra; passei na rua que tem nome de…de…bem, deixa pra lá, e ah, soube que lá tinha um barco com nome parecido ao do Titanic, rs…Ai, meu Jari…me surpreendi com o senhor que achou um tesouro português no fundo da casa; entendi a realidade dos jovens através de um jovem vereador, que pouco estudou, mas teve a mãe, líder comunitária, como sua professora de luta.

Conheci como funciona a plantação, o comércio do açaí, que é de lá, o melhor do Brasil, e que se come junto com o peixe e a farinha. E não vem com esse papo de granola não…isso é coisa de paulista. E ainda tem a castanha…Tomei tanto café pra ouvir tudo isso, um melhor que o outro. Um conto mais rico que o outro.

Tinha rede no barco pra dormir, não tinha rede de internet pra se conectar, mas sai com uma rede imensa de pessoas, histórias, lembranças e que já se transformaram em saudade (obrigada equipe linda!! Que gente querida).

A viagem foi uma imersão. Pra pesquisar, entender, construir, contribuir, conectar e emocionar. Não se faz uma viagem dessas e volta a mesma pessoa. Na verdade, eu ainda não sei se voltei. Ainda guardo aqui dentro imagens tão fortes, as vozes ribeirinhas, o cheiro do mato, a beleza do Rio Amazonas, a alegria das crianças nadando…a cultura mais rica, iluminada e perfeita que eu pude sentir, mas no sentido mais profundo que a palavra cultura nos permite entender. Lá, é onde a gente fica à flor da pele, e não se consegue segurar. Sim, eu chorei, de felicidade, de deslumbramento, de gratidão.

E atenção: pra cuidar daquelas bandas de lá, só mesmo alguém muito sensível. Não é pra qualquer um, há de se ter conhecimento de sobra, coragem de um herói, verdade nos olhos e amor que transborde. E ali, naquele barco, estavam pessoas que amam demais esse lugar, que respeitam, que sabem traduzir cada uma daquelas histórias e construir novas, com toda delicadeza. E com toda competência. E eu vi de perto, alguém que estava ali, vivendo cada minuto daquela expedição com vontade. Com verdade.

Obrigada por essa experiência, Clécio Luis Vieira! Vc como ninguém é gente de lá, e é disso que aquelas pessoas precisam! Valorizar, reforçar que aquilo tudo que eu vi é de vcs! #peloamapáinteiro, sua trilha! Vá e abrace isso tudo!

E com o violão do grande Enrico Di Miceli, com as participações de artistas esplêndidos e amados como Fineias Nelluty, Adelson Preto, Brenda Melo, Alan Gomes, Ariel Moura e tantos outros que ali estavam, eu ouço em um coro lindo, já em terra firme, os últimos versos de Jeito Tucujú. A canção, hino perfeito e feito em parceria com Val Milhomem, Joãozinho Gomes, o gênio, diz que quem não conhece o Amazonas, “Não contará nossa história / Por não saber ou por não fazer jus / Não curtirá nossas festas tucujú / Quem avistar o Amazonas nesse momento / E souber transbordar de tanto amor / Esse terá entendido o jeito de ser do povo daqui.” João, vc disse tudo.

Fotos: Gabriel Flores

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