Parem com isso!

Por Eliane Cantanhêde é colunista da Folha desde 1997 e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília.

 

Assim como a violência está endurecendo os corações brasileiros, o câncer do ex-presidente Lula reacende um radicalismo insano, agressivo e burro, como, aliás, todo radicalismo.
Cansados da violência urbana, das balas perdidas, da corrupção policial, os brasileiros estão cada vez mais a favor da pena de morte, da prisão perpétua e da redução da maioridade penal. É incrível, mas 87% (pesquisa CNI-Ibope) são a favor de botar a meninada (negra e pobre, claro) de 16 anos nas cadeias, para tentar compensar crimes hediondos de um ou outro.
Agora, o anúncio de que Lula tem câncer de laringe reavivou num estalar de dedos as reações insanas do final do seu governo e sobretudo da campanha eleitoral de 2010 que deu vitória a Dilma. Novamente, essas reações são principalmente pela internet, uma espécie de selva sem lei em que, entre outras coisas, covardes se escondem atrás do anonimato para passarem por leões e onças ameaçadores.
De um lado, o exército lulista querendo santificar Lula, como se ele não tivesse cometido erros, como se críticas não fossem legítimas e saudáveis e como se 80% de popularidade não bastassem.
De outro, as milícias anti-lulistas enlouqueceram de vez, perderam a decência, a humanidade, a civilidade. Confesso que parei de ler já no início, porque boa coisa não ia dar. Como não deu. A maioria é lixo.
Lula não é santo nem demônio. Tem uma biografia pujante, carisma, inteligência, o dom da comunicação. Seu governo teve méritos e erros. Não adianta querer esconder nem que o Brasil incluiu milhões de pessoas e ele se tornou um líder de envergadura internacional, nem que ele demonstrou excesso de vaidade e vestiu uma armadura para proteger corruptos conhecidos – muitos investigados pela própria Polícia Federal que ele chefiava.
Mas o que importa, neste momento, é o homem Lula, que teve uma notícia assustadora, passa por um tratamento altamente doloroso e está numa fase de incertezas e, evidentemente, de medos.
Política é política, pessoas são pessoas. Não se pode contaminar com a política uma questão pessoal, de saúde, que exige respeito e solidariedade, no mínimo silêncio. Nem para aproveitar o câncer para reforçar o mito, nem para descarregar discordâncias e idiossincrasias.
A Lula, voto de melhoras e de muitos e muitos anos de vida.

  • Capitulos à parte de sua gestão,com erros e acertos,creio já fazerem parte do passado.Hoje Lula é cidadão comum e merece todo respeito e solidariedade neste momento.Torço por sua saúde,que Deus na sua infinita bondade lhe permita vida longa, ao lado dos seus.

  • Texto fantástico. A politica tira de muitos o olhar humano, onde se ver só o inimigo. Muita força para o Lula neste momento dificil, que ele vença a doença, como venceu o preconceito. Pelo o homem, esposo, pai que ele é, vou orar pela sua cura. O politico agora pode esperar!!

  • Lula passou muito tempo com um discurso de operário, cativou muitos e muitos brasileiros e tornou-se presidente da república como uma grande esperança para milhões de brasileiras e brasileiros.
    Quando assumiu virou as costas para alguns “companheiros” históricos (Cristovâo Buarque, Heloisa Helena, Eduardo Suplicy, e até mesmo Marina Silva). Para manter a “governabilidade” aliou-se aos maiores bandidos políticos da história desse país. Com essa trajetória a mitificação veio em vida e ainda no primeiro mandato.
    Vejo essa campanha do tratamento pelo SUS e outros comentários mais, como uma ironia do brasileiro e não como um desejo de que lhe aconteça algo funesto.

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