O necessário movimento de consciência coletiva e os traços de personalidade de quem cumpre/não cumpre as medidas para conter o coronavírus

*Renata Ferraz – Psicóloga Clínica

Considera-se que dentre as característica mais notáveis do ser humano está a sua individualidade, comumente conhecida como o “modo de ser” ou também a personalidade. Algumas teorias sugerem que a personalidade já está praticamente formada desde a infância, entre os seis e sete anos de idade, porém outras defendem que há períodos críticos ao longo da vida que interferem na constituição da mesma, de maneira que pode continuamente ser alterada ao longo da vida.

Regadas de atributos biológicos, psíquicos e sociais, a personalidade se revela na forma de pensar, de se expressar, no tipo de interesse, e na maneira de lidar com situações diversas. Engloba uma mistura de características, atitudes, valores, crenças, que são únicas para cada pessoa. O jeito de andar, de falar, a aparência, o tipo de conversa, todos esses elementos formam a essência do que somos.

Costuma-se, no senso comum, afirmar que o indivíduo possui uma personalidade “forte e/ou fraca”, entretanto tal afirmativa é um erro uma vez que não existem traços psíquicos “certos ou errados”, mas funcionais e disfuncionais provenientes do que a pessoa constrói durante a vida. Nesse sentido, é completamente normal desenvolvermos, adaptarmos e aperfeiçoarmos a nossa personalidade caso necessário. Todavia, quando isso não ocorre, o indivíduo se torna inflexível e mal ajustado em relação ao meio, às pessoas e às circunstâncias pelas quais ele vive, desencadeando assim transtornos emocionais. 

Esta inflexibilidade do “eu” ao meio corrobora para um funcionamento significativamente comprometido e sofrimento subjetivo intenso que resulta em pressão física e psicológica, queda na qualidade de vida, pensamentos negativos, problemas de relacionamento, humor lábil e mudanças repentinas sem explicação de comportamentos. 

Precisamos aceitar que nem sempre temos o controle de tudo, não podemos conter todos os acontecimentos o nosso redor e as inúmeras situações que não cabe a nós decidirmos. Sendo assim, é necessário sermos mais maleáveis e resilientes para lidar com imprevistos que impactam nossas rotinas de vida, evitando sofrimentos e distúrbios psíquicos momentâneos, além de sintomas psicossomáticos persistentes que contribuem para o desenvolvimento de doenças mentais.

Mantermo-nos serenos e positivos num vendaval de informações e emoções são importantes para lidarmos socialmente com o improvável que assola nossa existência. Tal qual se dá neste cenário que envolve a Pandemia pela COVID-19 e seus impactos devastadores para a sociedade mundial. Todos estes acontecimentos que envolvem múltiplos sentimentos, como: medo, incapacidade, ansiedade, perda e vulnerabilidade passam a ser um desafio para nossa saúde mental, pois a forma como cada indivíduo se comportará psicologicamente nesta situação, está relacionada com a sua personalidade e o seu percurso de vida (resultado das suas experiências, histórias e meio sócioafetivo).

 Neste contexto, não podemos descartar a correlação dos traços de personalidade e comportamentos de saúde relacionados a pandemia, dado que os indivíduos que possuem traços disfuncionais do “eu”, normalmente rejeitam as orientações das autoridades de saúde e não cumprem as medidas restritivas de combate a proliferação do vírus, expondo-se constantemente ao risco de infecção. Já os que possuem traços funcionais, adotam facilmente o distanciamento social, de higiene e todos os hábitos de prevenção para proteger a sua saúde e de entes queridos. Portanto, cada indivíduo reage de acordo com sua realidade psicológica, segundo a estrutura psíquica que influencia o seu modo de reação. Aceitar ou negar a gravidade da situação não resolve a problemática, pelo contrário, acirra conflitos interpessoais de amizade, familiares e laborais. 

Vivenciamos no momento uma situação em que coletivamente temos que lidar com a condição humana de fragilidade e finitude. Nunca foi tão necessário um movimento de consciência coletiva que respeite e ajude as pessoas em suas adversidades, compreendendo suas dificuldades internas e/ou externas que impedem a colaboração na realização das medidas restritivas impostas, garantindo assim os melhores caminhos para a superação e enfrentamento do mesmo, visando sempre o bem-estar coletivo. 

Vale acrescentar também, a importância da construção do autoconhecimento neste cenário, pois, em situações de frustrações ou falhas, são os nossos recursos internos que nos ajudam no fortalecimento da nossa autoconfiança para seguirmos em frente, sem ceder a pressão que os obstáculos da vida impõem sobre nós. Uma vez que desenvolvemos tal habilidade, somos capazes de entender nossas características individuais, nossos pontos de melhoria, limitações, medos e anseios, bem como potencializar competências emocionais.

Neste contexto de mudanças é sempre uma boa alternativa buscar assistência psicológica especializada, objetivando minimizar o mal-estar causado pela pandemia, assim como a supressão parcial e/ou total de sintomatologias vivenciadas.

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