O custo da Corrupção

Por Charles Chelala. Economista, professor e mestre em Desenvolvimento Regional.

Estamos prestes a completar dois anos da “Operação Mãos Limpas” deflagrada pela Polícia Federal em setembro de 2010, que revelou as ramificações de um poderoso esquema de corrupção instalado no aparelho do Estado amapaense, no maior escândalo da nossa história.

A quadrilha estava disseminada no Executivo Estadual e Municipal; no Tribunal de Contas do Estado e na Assembleia Legislativa, além de corrupção ativa em empresas fornecedoras de bens e serviços para o poder público. Foram conduzidos ao presídio da Papuda, em Brasília, dezenas de autoridades estaduais e municipais, além de agentes privados que teriam desviado algo em torno de dois bilhões de reais, segundo o processo que está prestes a concluir pelo Ministro do STJ, José Otávio de Noronha.

O momento traz à tona uma pergunta: Qual é custo que esta mazela impõe aos cidadãos? Em 2005, o economista Marcos Fernandes, da escola de economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e autor do livro “A Economia Política da Corrupção no Brasil”, fez esta conta e chegou a números impressionantes. Em seu estudo foi comprovado que a cada ano é desviada uma cifra de aproximadamente R$ 380 bilhões, impactando em uma redução do crescimento econômico de até dois pontos percentuais no PIB. Para efeito de comparação, o Produto Interno bruto do Amapá situa-se em R$ 7 bilhões.

No caso específico do Amapá, onde 46% de toda a nossa economia é gerada pela Administração Pública; praticamente 70% dos salários são oriundos das folhas de pagamento de servidores e um em cada três empregados é funcionário público, a situação se agrava. Aqui, o ralo da corrupção causa um impacto devastador na economia local, uma vez que os gastos públicos são os principais responsáveis pelo dinamismo das demais atividades.

Além de desvios de recursos, a corrupção afeta de maneira profunda o ambiente de negócios, inibindo decisões de investimentos privados, pois a base institucional não inspira credibilidade. Assim, as empresas optam por carrear suas inversões financeiras para outros lugares onde há maior estabilidade.

A corrupção é um problema nacional, talvez o maior deles a ser enfrentado pela sociedade. Na minha visão otimista, estamos vencendo-o, ainda que lentamente. As operações da Polícia Federal, a atuação decidida do Ministério Público Federal e Estaduais são exemplos desta afirmação. O julgamento do esquema do “mensalão” e a condenação de políticos e empresários importantes pela mais alta corte do país acalenta esta sensação de avanço. A recente decisão judicial que condenou o Ex-Senador Luiz Estevão a devolver meio bilhão de reais aos cofres públicos, e sua aceitação em fazê-lo, é outro exemplo notável.

As eleições que se aproximam talvez sejam um bom momento de prosseguir na assepsia cada vez mais necessária à política no Brasil e no Amapá.

  • Comentei ontem que as pessoas deveriam ler esta matéria que eu vi no Corrêa Neto.òtima p/reflexão em tempos de eleições,mudanças é a dica p/quem deseja.

  • Prezado Professor e economista Charles,parabéns pelo artigo. Outro fator silencioso que contribui decisivamente para que os recursos públicos caiam ralo no do desperdício,é o não cumprimento por parte de alguns governos estaduais e municipais de uma ferramenta poderosa de planejamento público: Os Planos Plurianuais. Se eles fossem cumpridos, os erros administrativos em curso poderiam perfeitamente serem corrigidos. Mas….

  • Ontem o CQC simulou a contratação de pessoas do povo para participar de esquemas de corrupção jnto com supostos candidatos, para ver a índole do povo. Fiquei assustado, dos 5 entrevistados, 4 toparam aceitar porque viram oportunidade de levar vantagem de ordem pessoal. Então, a corrupção neste país esta arraigada na cultura do povo, por conta da impunidade, porque o mau exemplo vem de cima para baixo. Hoje os candidatos que são maos limpas, viram alvo dos demais, que se unem para não dar brecha para que pessoa séria entre na política. Realmente é decepcionante!

    • Verdade,a corrupção passou a fazer parte da cultura brasileira,maioria quer levar vantagens.Os exs. se vê toda hs nos meios de comunicações e vindo dos + altos escalões.O ensino (escolar) neste país ficou em último plano,pq p/entrar na politica e se eleger,basta saber rabiscar o nome,fato.O povo não quer mais saber de perder tempo estudando p/conseguir emprego de qualidade p/ganhar pouco,pois tem o de péssima que ganha muito,basta ser um politico corrupto.

  • Excelente matéria, devemos levar ao conhecimento do público mal informado. Pois acredito que haverá politicos honestos em que vale apena brigar em mante-los no poder. E não esses que estão aí, quer um exemplos, destre os vereadores da atual legislatura, desses você ouviu falar em algum projeto que beneficiasse a população durante esses quatro anos?

  • A corrupção faz parte da nossa história, desde os degredados para cá pela Coroa. No serviço público, quase todo mundo só quer se dar bem, desde os cargos mais humildes que se valem de pequenas coisas, como a utilização de equipamentos, papel etcpara interesses pessoais, até os chefões que se apropriam de verba pública. É por isso que, em público, todo mundo condena a corrupção, mas, no privado, a maioria vende seu voto para manter no póder o corrupto que lhe favorece. O estado democrático de direito que passamos a conhecer a partir de 1988 está mudando essa situação, com definição de novos conceitos, conforme bem avaliou a excelente matéria.

    • Evaldy, será que a piada do velho ZÉ TRINDADE, comico brasileiro, virou realidade, quando dizia: ‘NA MINHA GESTÃO COMO PREFEITO, TODOS TERÃO QUE LIMPAR. OS SERVENTES VÃO LIMPAR OS PRÉDIOS, OS FUNCIONÁRIOS VÃO LIMPAR OS MATERIAIS E O PREFEITO VAI LIMPAR O COFRE!” Isto é, operação limpeza. Tomada que não pegue.

  • Eu já ia votar no representae dos caras da PAPUDA. Ainda bem que tú me lembrastes da Mãos limpas. Vou rever.
    Muleke que é muito esquecido

  • Excelente artigo, mas acho que quando se fala em Operações da Polícia federal não podemos esquecer de todas as outras, desde a “Operação Pororoca” que prendeu empresários, jornalistas, políticos advogados etc. Não podemos deixar que nenhuma delas caia no esquecimento, não podemos esquecer que todas as pessoas que foram presas continuam por aí, como se nada tivesse acontecido, fazendo uso do dinheiro público que roubaram. Acho que quando se fala apenas da “operação mãos limpas” e não se cita as outras, alem de se estar omitindo uma parte dessa nossa história abominável, está se correndo o risco de trilhar pelos caminhos da parcialidade. Aliás, tem muita gente envolvida em uma dessas operações que agora aponta o dedo para o outro. O Amapá tem que ser passado a limpo de maneira geral, não dá pra ficar denunciando e relembrando só o que interessa a um determinado grupo. Acredito até que essa não tenha sido a intençao do autor do artigo. Mas nunca é demais lembrar, não é mesmo?

  • Concordo com a Carla. O artigo do economista e professor Charles Chelala, às vésperas das eleições municipais, nos serve como uma valiosa peça para reflexão, quanto a escolha dos nossos candidatos a Prefeito e Vereador. O Amapá, guardadas as devidas proporções, é hoje o Estado da Federação com o maior índice de comentários jocosos (negativos) na mídia nacional, decorrente da grande currupção instalada nas instituições públicas (Assembléia, TCE, Governos Estadual e Municipal) do que decorreram as sucessivas operações da Polícia Federal, nesses últimos anos.

  • penso que tratar do custo da corrupção na modalidade cotidiana de macapá-ap, onde as mídias que se utilizam dos frutos dessa corrupção tentam assassinar-nos de cara limpa, nossas mentes, imprime-nos um alento, porém alguns poucos poderam sorvê-la, pois falta-nos elementos para este tipo de leitura: a educação, nunca vai estar ao alcance de todos.sempre existirão os sobrantes da sociedade que mesmo com graduação completa ,no máximo serão absorvidos por esses corruptos.

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