Mulheres no Vinho

*Por José Bogea. Advogado e Enólogo 

Sommelier Clara Campos Gato, do Amapá

Se hoje todos nós reconhecemos o valor da grandeza e inteligência feminina nos mais diversos seguimentos da sociedade, também lembramos que há curto espaço de tempo o panorama era o inverso. No universo enológico, claro, não é diferente. Se no século XVIII as inovadoras taças de espumantes encomendadas pela rainha francesa Maria Antonieta no formato dos seus seios foi um escalando na corte, atualmente se reconhece a excelência do trabalho desenvolvido exclusivamente pelas mãos de uma mulher.

Os exemplos não são poucos. Até o século XVIII lembramos de revolucionárias como Maria Antonieta e Madame Pompadour. Já no século seguinte uma extraordinária figura marca a expansão dos vinhos espumantes com atuação direta no mercado. A Grande Dama, como ficou conhecida a Madame Clicquot, ficou viúva e foi obrigada a gerir os negócios de lã, serviços bancários e produção de champagne de sua família. Visionária, decidiu focar na exportação dessa bebida ao Império Russo em meio as Guerras Napoleônicas na França, alcançando o enorme sucesso que a marca possui até os dias atuais.

De lá até o ano 2000, ainda que possíveis de contar com facilidade, mais produções de vinhos passaram a ser capitaneadas por mulheres, sempre com grande qualidade e sucesso de crítica. Um ícone do século passado, sem dúvidas, é a comandante da Domaine Leroy, vinícola da Borgonha na França.  Falo de Lalou Bize-Leroy, pioneira e defensora da produção de vinhos biodinâmicos desde os anos 50, quando ainda não se imaginava o sucesso que os vinhos com essa filosofia alcançariam. Madame Leroy chegou a estar a frente da Domaine de La Romanee-Conti, que produz os mais prestigiados vinhos do mundo, e abdicou ao cargo em nome da vinícola da família, que continua administrando até hoje.

A partir de 2000 passamos a vivenciar um imenso boom de garrafas assinadas inteiramente por mulheres. Suzana Barelli, editora da Revista Menu, credita a “invasão feminina” a maior facilidade para se elaborar vinhos, usando tecnologia e menos trabalho braçal, bem como a chegada e consolidação das mulheres no mercado de trabalho.

A certo é que, em meio a tanta produção 100% feminina, destaco as minhas produtoras preferidas, com vinhos muito bem construídos, saborosos e sensuais, que certamente carregam a inteligência de suas criadoras. Vale a pena provar os vinhos espumantes de Filipa Pato (Bairrada/Portugal), Hortência Brandão (Campos de Cima, sul do Brasil) e Vanessa Stefani (Casa Perini, Bento Gonçalveis/Brasil); os tintos de Suzana Balbo (Mendoza/Argentina) e Sara Peres (Mas Martinet, Priorato/Espanha); os brancos de Maria Luz Marin (Vinícola Casa Marin, Casablanca/Chile).

Aproveito e realizo um brinde a todas as mulheres: as que fazem vinhos, as que gostam de vinhos e as demais que ornamentam a nossa existência.

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