* Texto do jornalista e escritor Elton Tavares
Os tambores do Marabaixo soaram alto no Carnaval de Salvador. O ritmo, nascido nas margens dos rios amazônicos e moldado pela resistência de um povo, atravessou fronteiras e aterrissou no circuito Barra-Ondina, um dos corações da festa baiana. No palco do camarote de Carlinhos Brown, nos dias 2 e 3 de março de 2025, o Amapá mostrou ao mundo sua identidade afro-amazônica.


O Marabaixo, mais do que música, carrega a força da ancestralidade. A delegação amapaense levou essa essência para um espaço reservado a convidados e à imprensa nacional e internacional. E a recepção não poderia ter sido melhor: o próprio Carlinhos Brown, gênio criativo e ativista da cultura, aceitou o título de Embaixador do Marabaixo. Um gesto que ampliou o alcance desse patrimônio imaterial e fortaleceu os laços entre Amapá e Bahia.
Essa conexão se intensificou com a expedição de Brown ao Amapá. Da viagem, nasceram vivências e imagens que deram forma à exposição fotográfica “Amazônia Negra: Expedição Amapá”. A mostra, instalada no camarote, capturou os elos profundos entre as culturas afro-indígenas do Norte e do Nordeste. Um reencontro histórico registrado em cada fotografia.
O palco do camarote testemunhou uma descarga de musicalidade amapaense. Patrícia Bastos, voz premiada e potente, encabeçou o elenco ao lado de Finéias Nelluty, Brenda Melo, Jhimmy Feiches, João Amorim, Silmara Lobato e Enrico Di Miceli. Marabaixo, Batuque, Zouk e Kasekó se entrelaçaram. A dançadeira Mery Baraká traduziu no corpo a linguagem ancestral da manifestação, enquanto Nena Silva e Ismael Biluca, percussionistas do Quilombo do Curiaú, deram vida às batidas que contam histórias de resistência.
A presença do Amapá no Carnaval de Salvador não foi apenas um show. Foi estratégia, projeção, um grito de identidade. Um dos maiores palcos do mundo abriu espaço para uma cultura que merece reconhecimento global. Mais do que uma apresentação, um reencontro. Porque quando o Marabaixo ecoa, seja nos quilombos ou em Salvador, carrega o orgulho e a potência de um povo que se recusa a ser esquecido.


