Lindo texto/homenagem ao Magro(MPB4), feita por Alcione Cavalcante.

Magro

Magro se foi. Provavelmente convidado pelo Criador para dar novo alento aos coros e refinar os arranjos dos clarins celestiais, renovando o estímulo aos anjos, nestes tempos onde até mesmo estes seres divinos parecem reconhecer a incapacidade humana de prover  esperança e na fraternidade.

Magro foi assim um tipo especial de amigo que não conheci pessoalmente. Foi um cúmplice, dos tempos de universidade em Curitiba, em que sua presença se registrava através da voz e dos acordes refinados.  Uma espécie de companheiro, de quem eu ansiava o lançamento do próximo disco (long-play), como quem mirava o retorno a Macapá nas férias.

O MPB4, Magro junto, foi com certeza um dos maiores conjuntos da história da MPB de todos os tempos. Isso muita gente já disse há muito tempo, mas para mim, isso tem importância. Seu trabalho musical, não apenas possibilitou usufruir de momentos de lazer e formatar um gosto musical. Contribuiu no meu caso e de muitos outros jovens universitários, na formação de segmento importante da nossa personalidade e caráter. Quem de nós, à época, não cantarolava, empolgados, versos de Roda Viva do Chico, Amigo é pra Essas Coisas do Sílvio e Aldir e Lamento ( Pixinguinha e Vinícius). Se dedilhasse o violão, então, nem se fala. Sucesso e admiração na hora. Não era pra menos. O arranjo vocal e instrumental, criado pelo Magro, era diferente, revolucionário e evolvente, para as mentes ávidas naqueles tempos sombrios.

Quem viveu aqueles tempos sabe a importância de resistir. Sem falar muito em público, Magro combatia e ensinava a combater, tendo como arma sua voz e seus instrumentos, que poderiam ser um simples atabaque, um vibrafone ou um sofisticado teclado. Resistia ainda, garimpando e polindo obras e talentos, a quem arregimentava para as fileiras da resistência, através da cultura e da música em particular. Destes receberam o toque mágico de sua batuta: o Chico, o Gonzaguinha, Milton, Ivan Lins, Dori Caymmi e muitos outros. Lembramos os arranjos sofisticados elaborados para o disco Construção do Chico, divisor das águas na obra do compositor.

Quando muitos se encolhiam, o Magro e o MPB4 nos suprimiam gravando coisas, que poucos se arvoravam, e aí destacamos as leituras de Evangelho
(Dori Caymmi/Paulo César Pinheiro),  Assim Seja Amém
(Gonzaguinha/Miltinho), Canto dos Homens  (Miltinho / Paulo César Pinheiro), Vai Trabalhar Vagabundo (Chico Buarque), Pesadelo (Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro), que encaravam a fera de frente.

Quando calavam, o magro estava por lá gritando. Lembro do show e posteriormente disco “Banquete dos Mendigos”, em plena vigência dos “anos de chumbo” onde a turma resolveu espetar o establishment. O show, concebido pelo “Maldito” Jards Macalé, foi realizado em 1973, com o pretexto de comemorar os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Na realidade, era um lancinante grito pela liberdade usurpada. Pra lembrar cito o Art. III que estabelece “Todo homem tem direito a vida, a liberdade e à segurança pessoal”. Coisas suprimidas naquele  momento. No evento estava lá com o MPB4 com a música Pesadelo (Miltinho e Paulo Cesar Pinheiro) que plena de confiança dizia “você vem me agarra, alguém vem me solta” e com “Quando o Carnaval Chegar” (alegoria sobre carnaval e democracia do Chico para o filme homônimo de Cacá Diegues)

Quando outros se escondiam, tava lá o Magro com o MPB4 fazendo show e tripudiando da tropa, como no espetáculo Bons Tempos, hein?!, de 1979, com textos do Millôr Fernandes, este um das mais combativos humorista e jornalista do período. No espetáculo, as consagradas, Amigo da Onça (Silvio e Aldir) que dava uma zombadinha na ditadura e Cálice (Chico e Gil), que ficou famosa por sua qualidade e mais ainda pela truculência com que foram tratados os compositores, que tiveram os microfones desligados e a letra censurada (De muito gorda a porca já não anda… De muito usada …..)

É amigo Magrão! Valeu.!Valeu muito, em especial pela companhia proporcionada nas noites frias dos quartos de pensão e república em Curitiba, onde a saudade de Macapá e dos meus  cortava mais fundo que as rajadas do minuano vindo com as frentes frias do sul.

 

 

  • Valeu Alcione, belo e esclarecedor texto sobre os bons que estão indo amiúde. E o pior, parece que sem deixar herdeiros em suas artes.

  • Linda homenagem! Ainda me lembro do Show bons Tempos ao qual assisti no TAIB em São Paulo. O receio que algo pudesse acontecer a qualquer momento; mas não foi algo maravilhoso que marcou minha juventude e marca ainda minha vida. Com razão Aderaldo Gazel, quando diz que os bons estão indo sem deixar herdeiros. Infelizmente enquanto nosso povo ficar encarando a Politica como um Jogo de Futebol apaixonado onde seu time tem de vencer a qualquer custo e esquecer que o objetivo e a NAÇÃO, continuaremos a ter escândalos escabrosos e acobertados por esta politicalha corrupta de todos os partidos. Se algo existiu de bom durante a vigência do Regime Militar, foram as aulas de Educação Moral e Cívica que infelizmente não existem mais, onde aprendemos a ter amor pela Pátria acima de qualquer coisa.

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