Inventário das Minhas Grandes Invejas

Renivaldo Costa_

Inveja infinita de quem toca um sax alto durante o ano, e no Carnaval toca em alguma pequena orquestra somente para dar uma força à turma;
Inveja de certos homens que ficam sentados uma manhã inteira, olhando para o tempo, uma tarde inteira, olhando para o vento, e chegam à noite com os olhos ainda virgens;
Inveja de quem sabe contar piadas, como o Paulinho Lopes, mas não passa a noite enchendo os amigos de piadas;
Inveja do Roberto Souza, que consegue beber a noite toda, amanhecer o dia, e não ficar porre;
Inveja de quem não tem medo de altura;
Inveja de quem ganha de presente cadernos de papel reciclado e canetas bico-de-pena;
Inveja de quem tem um Fusca 68 azul e nunca o bateu em um Honda Civic;
Inveja de todos os jogadores de futebol que já entraram no Remo e foram saudados pela torcida do Payssandu, em qualquer época da humanidade;
Inveja de quem nunca foi dono de bar;
Inveja total de quem chuta com as duas pernas e sabe cabecear bem;
Inveja de quem sabe usar a linguagem dos sinais e usa, sem ser surdo-mudo;
Inveja de quem assistiu a um show ao vivo da Elis Regina;
Inveja de quem tem uma casa própria, embora miúda;
Mais inveja ainda de quem tem uma casa própria no Laguinho;
Inveja de quem sabe recitar os próprios poemas para os amigos, e, especialmente, para a mulher que ama;
Inveja de quem recebeu um adiantamento da editora para escrever seu próximo livro, e vai passar seis meses só no fulozô;
Inveja de quem está viajando hoje para Paris e depois Itália;
Inveja de todos os textos de Fernando Canto, o maior escritor do Norte, que escreveu “O bálsamo” e “Equino(cio)”;
Inveja de quem sabe dançar bem e tem disposição para dançar bem, como Caroline;
Inveja de quem tem um programa de rádio, de madrugada, coloca músicas lindas e lê as cartas enviadas pelos desconhecidos;
Inveja de quem conheceu a América Central numa longa viagem, cheia de amigos;
Inveja de quem toma um porre e se lembra de guardar os óculos num lugar seguro;
Inveja de quem não fica nervoso para falar em público;
Inveja de quem passou a tarde hoje num bar, conversando com seu melhor amigo ou amiga;
Inveja de quem anota na agenda a data do aniversário dos melhores amigos, e lembra de telefonar no dia certo;
Inveja de quem tem disposição para fazer seu próprio aniversário;
Inveja de quem tem paciência para escolher e comprar roupas;
Inveja de quem toca “Carinhoso” no sax ou em qualquer instrumento;
Inveja de quem sabe cantar uma música de Lupicínio Rodrigues bem afinado;
Inveja de quem sabe o nome das plantas e flores, como o saudoso Sacaca;
Inveja de quem conheceu Alcy Araújo, Carlos Cordeiro Gomes e Hélio Pennafort, mas no Bar do Abreu;
Inveja de quem tem uma máquina fotográfica manual e tira fotos dos amigos, crianças e velhos há muitos anos;
Inveja de Silvio Leopoldo, pelo “Evocação a Macapá”;
Inveja de quem salta de paraquedas e fica gritando lá do céu um monte de palavrões;
Inveja de quem foi feliz na infância;
Inveja de quem encontrou seu amor tranquilo;
Inveja de quem conviveu muito tempo com os avós;
Inveja de quem sabe recitar os poemas de Manuel Bandeira;
Inveja de quem tomou um porre com Antônio Maria;
Inveja de quem sabe o nome de todas as pontes da BR-156;
Inveja de quem vai passar o sábado inteiro numa rede, lendo algo maravilhoso;
Invejas, simplesmente algumas invejas.

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