História do Amapá – A República do Cunani (ou Counani)

Hoje, 23 de Julho, seria comemorado o aniversário de criação da República Independente da Guiana, ou República de Cunani, surgida no Amapá. Foi fundada em 23 de Julho de 1886 pelos habitantes de onde hoje são os municípios de Oiapoque e Calçoene, com alguns aventureiros franceses e escravos fugitivos em uma  área de 350.000 km2, disputada entre a França e o Brasil. Essa república, presidida por Jules Gros, não foi reconhecida pela França ou pelo Brasil. Ela foi declarada independente em 1904, sob o nome de Estado Livre de Cunani, antes de desaparecer completamente em 1912.

 

Mapa da localização da República Cunani.

 

 

 

Primeira República (1886-1887)

A região entre os rios Oiapoque e Araguari era contestada pela França, principalmente após a descoberta de minas de ouro na região.

Enquanto o Império do Brasil e a França não chegavam a um acordo sobre a disputa territorial na região, aventureiros e comerciantes de várias nacionalidades passam a explorá-la e ali fundaram, em 1886, a República de Cunani, exatamente na região contestada pela França. A capital era a Vila de Cunani, que na época era habitada por 300 pessoas. O termo cunani vem do tupi: era como os índios chamavam o tucunaré.

Os comerciantes escolheram como chefe do novo estado, o francês Jules Gros, integrante da Sociedade de Geografia Comercial de Paris e que foi nomeado presidente vitalício de Cunani. O governo de Cunani, assim como seus ministérios, funcionava em Paris, capital da França. O governo emitiu selos e cunhou moedas – hoje raridades, procuradas por colecionadores. Foram criados também a bandeira, o brasão da república e até a condecoração Ordem da Cavalaria Estrela de Cunani, para premiar os simpáticos à causa. A concessão de tal ordem era vendida, sob a justificativa de arrecadar fundos para a nova república, o que rendeu bons proventos financeiros a Jules Gros. Todavia, sem conseguir se organizar burocraticamente, Gros tentou obter o apoio do governo francês, que resolveu acabar com a aventura de Gros. A Primeira República de Cunani foi extinta pelo  governo francês, em 2 de setembro de 1887.

 

 

Jules Gros- Fundador e Presidente da Primeira República do Cunani.

 

 

 

 

 

 

Bandeira da Primeira República do Cunani.

A bandeira destaca que a República seria um pedaço da França em meio ao verde da região amazônica.

 

 

 

 

Moedas da República, imagem do livro “Os selos postais da República do Cunani” de Wolfgang Baldus.

A Segunda República (1887-1891)

Mesmo após o governo francês extinguir a República, Gros insistia em se considerar Presidente da República e  em janeiro de 1888, entrou em contato com empresários ingleses, e junto a Alexander McDonald, fundou um sindicato que previa a exploração do território de Cunani por 99 anos para a extração dos principais recursos. Graças ao dinheiro do sindicato.

Mas rapidamente Gros se desiludiu, não encontrando em Cunani a abundância em recursos que esperava. MacDonald rapidamente percebeu que a França nunca reconheceu a República de Cunani. Gros voltou para a França, onde morreu em 1891, ainda convencido de que era o Presidente da República de Cunani. A descoberta de ouro em 1895 na região de Calçoene reacendeu o conflito franco-brasileiro. Francisco Xavier da Veiga Cabral, conhecido como Cabralzinho, segundo chefe do triunvirato brasileiro, reivindica o disputado território de Cunani. A França e o Brasil recorreram à arbitragem da Suíça pela convenção de 10 de abril de 1895. Onde o Brasil então anexou o território oficialmente, graças ao trabalho diplomático do Barão do Rio Branco. A fronteira entre o Brasil e o território francês foi definido no rio Oiapoque.

A Terceira República (1892-1911)

Entre 1904 e 1912, houve outra tentativa de separação, desta vez promovida pelo francês naturalizado brasileiro Adolph Brezet, que criou o Estado Livre do Cunani. Começou a encaminhar ofícios à região de Cunani, comunicando uma nova proclamação, e as nomeações de Félix Antonio de Souza, Antonio Napoleão da Costa e João Lopes Pereira para seu ministério.

O plano de Brezet foi imediatamente denunciado por Daniel Ferreira dos Santos ao governo brasileiro, que rapidamente sufocou o movimento, enviando força policial à região. Todos os envolvidos foram presos, com a exceção de Brezet, que, como Jules Gros, dirigia seu movimento, de Paris. Depois das prisões em Cunani, Brezet se recolheu e nunca mais se ouviu falar dele. Sobre essa iniciativa separatista, escreveu o Barão do Rio Branco, encarregado de defender os interesses do Brasil na disputa pelo território contra a França:

O “Estado Livre” de que se trata só existe nas ridículas publicações que fazem em Paris um embusteiro e desequilibrado de nome A. Brezet e os seus sócios, totalmente desconhecidos no território que dizem ter organizado e estar governando. O assento desse intitulado governo está em uns aposentos da Avenida Villiers, n. 70, em Paris. É uma república de comédia, como a primeira intitulada de Cunani, a qual só funcionou em Vanves, nos arredores de Paris, com a única diferença de que a atual empresa é mais prática, pois tem por fim extorquir dinheiro pela venda de condecorações da “Ordem da Estrela de Cunani” e por meio de um empréstimo que procura levantar, explorando a gente crédula ou ignorante. Consta que, ultimamente, a polícia francesa tomou providências para evitar que se aumentasse em França o número das vítimas desses ousados cavalheiros de indústria e de alguns homens de boa-fé que a eles se reuniram.”

Bandeira do Estado Livre do Cunani:

  • Hoje apenas uma Vila Quilombola encravada no Parna Cabo Orange, acessada por uma Ponte Pênsil, que atravessa o Rio Cunani, balançado-se languidamente, vive da pesca e extrativismo de açaí, diga-se de passagem um dos melhores da Amazônia.
    Tem uma Igrejinha, cujo santo venerado é São Benedito, que é mantida impecável pela população, rezando a lenda que o sino é ainda da primeira República do Cunani.
    Vive à luz de velas, ou quase isso, alimentada por um pequeno grupo gerador que a ilumina, quando tem óleo diesel para funcionar e por poucas horas. Tem aproximadamente 20 pequenas construções, dentro de um polígono contestado pelo ICMBio, que teima em retirar os moradores, transferindo-os para o outro lado do Rio Cunani, como se fosse possível mudar a história de lugar, simplesmente.
    Nesse cenário o Programa Luz para Todos-PLpT, tenta chegar com energia elétrica para esses nosso irmãos históricos. Entretanto ha mais de dois anos se espera a Licença Ambiental emitida pelo IBAMA/ICMBio, e nada. Pergunto: é justa essa irracional preocupação com a biodiversidade, desse ecossistema abrangido pela PARNA CABO ORANGE, excluindo a história e seus descendentes?

  • O sino que está no campanário da igrejinha tem o selo informando que foi fundido e Nantes (França) na época da republiqueta de Jules Gros. Estive no local e subir lá para ver o tal sino de perto.

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