Grande Cavendish! O inglês. Grande Cavendish? O carioca.

                                                                                        Alcione Cavalcante – Engenheiro Florestal e articulista do blog.

Cavendish era surdo. Suspeito de ser um bebê vitima de troca, sofria de depressão crônica. A suspeita fundamentava-se no fato do pai ter coabitado com a mãe e com sua melhor amiga, engravidando ambas. Talvez por isso tenha sido um celibatário convicto o que lhe rendeu o apelido de Duque Solteirão.

Herdeiro de vários imóveis urbanos e de pelo menos 80.000 hectares, o Duque, apesar de seu perfil caracterizado pela timidez era bem relacionado. Convivendo com as mais altas autoridades, era comum receber títulos honoríficos, ao mesmo tempo em que em paparicava e era paparicado por artistas e intelectuais da moda e de peso.

Sua ascensão deve-se, além dos seus contatos com a “alta sociedade”, à sua capacidade empreendedora e ao deslumbre motivado pela visão de um exemplar de orquídea numa exposição em Londres. Daí não parou mais. Montou uma das maiores bibliotecas da época, e antecipando-se aos críticos, colecionava originais daquele que viria a ser um dos maiores dramaturgos de todos os tempos William Shakespeare.

Mas sua paixão era mesmo plantas, em especial orquídeas, para as quais construiu um sem número de estufas para cultivá-las, entre as quais a “Grande Estufa”, a maior do mundo, para os padrões da época, com aproximadamente três mil metros quadrados. Essa paixão levava-o a contratar os mais habilidosos operários do reino, entre os quais o jovem Joseph Paxton, que no dizer de alguns era “um gênio em fazer as coisas funcionarem”.

Suas habilidades transitavam entre a botânica, o paisagismo e a engenharia. Estudioso, em homenagem ao Duque Solteirão, Paxton denominou Musa cavendishii uma espécie de banana nanica das mais importantes, tanto que parte das bananeiras britânicas atuais descende em sua maioria do trabalho de Paxton. Além disso, existia até bem pouco tempo na Europa uma variedade popular de morango denominada Joseph Paxton, em tributo a sua capacidade de observação e determinação.

Outro feito, dos mais interessantes de Paxton foi o cultivo, inédito na Inglaterra, de um exemplar da nossa conhecida Vitória-régia em terras pertencentes a Cavendish. Nossa preciosa ninfeia decisivamente passou a exercer grande fascínio sobre a nobreza, o que teria motivado inclusive uma real vista da Rainha Vitória e o Príncipe Albet, às propriedades do então prestigiadíssimo Duque Solteirão.

Uma foto feita da filha de Paxton, vestida de fada sobre uma folha da ninfeia correu o reino, a propriedade do Duque virou atração turística e a Vitória-régia (nome dado em homenagem a Rainha Vitória) popularizou-se na forma de vitrais, lenços, quadros e tudo o mais que as habilidades de artistas e artesão pudessem imaginar. Enquanto muitos percebiam apenas a beleza plástica das fotos da espécie com crianças, Paxton foi além. Observando as folhas concluiu que a capacidade da espécie em suportar peso estava ligada a um conjunto de filamentos, que formavam uma estrutura sem sustentação como, por exemplo, nossas malocas.

Já famoso Paxton foi convidado a projetar o que veio a ser o famoso Palácio de Cristal, concebido para abrigar a Grande Exposição dos Produtos da Indústria de Todas as Nações, realizada no Hyde Park, em Londres, em 1851. O Palácio que possuía um sistema de climatização e irrigação foi inspirado e concebido a partir das suas observações relacionadas à estrutura das folhas da Vitória-Régia, e segundo alguns foi o “primeiro exemplo de uso do ferro na arquitetura, com finalidade tanto estética quanto cultural”, referência e inspiração a muitos projetos nos dias atuais. E melhor de tudo, construído sem fraudes em licitação, sem superfaturamento e sem aditivos turbinados e, pasmem, entregue no prazo.

Tanto o Palácio, quanto a exposição que abrigava eram impressionantes. Aquele pelas inovações, que incluía entre outras, uma grande abóboda de vidro e a exposição pelas orquídeas, diamantes, cerâmicas, mobílias, objetos de arte e utensílios, além de sucesso de público (seis milhões de visitantes), coroando um dos períodos mais importantes da História do Reino Unido.

Grande Cavendish! O inglês surdo, depressivo, solteirão, motivou mentes que produziam frutos e obras que servem de exemplo e inspiração até hoje, tanto na biologia (ver bananas e morangos) quanto na engenharia.

Se o nosso Cavendish, o Carioca, tivesse optado por contratar um Paxton ao invés do Cachoeira ou o Cláudio Abreu, talvez deixasse ao Brasil um legado diferente do que as páginas policiais noticiam diariamente, apesar da frouxidão da CPI. Talvez tivéssemos obras honestamente orçadas e executadas, exemplo para outras construtoras e mesmo outros países. Talvez investisse em plantio de citros irrigados e na inovação agrícola e no paisagismo e mobilidade urbana, em beneficio de todos.

Lamentavelmente, apesar da CPI operar mais para esconder do que para mostrar sua herança será um imenso laranjal de empresas de fachada, orçado em milhões de reais, que através de propinodutos competentemente construídos regam, abastecem e transbordam os bolsos já abarrotados de grandes figuras da nossa República. Grande Cavendish?

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