Por João Capiberibe*

Havia algo desconcertante em Francisco das Chagas Bezerra.
De dia, era o homem dos carretos na antiga beira. Corpo curvado pelo trabalho, mãos calejadas, vida enraizada na rotina mais concreta que existe — carregar, entregar, sustentar. Nada que chamasse atenção. Nada que perturbasse a ordem das coisas.
Mas à noite, Chaguinha abria um livro.
E então o mundo mudava de tamanho.
Havia nele essa contradição luminosa: a profunda humildade do cotidiano e, ao cair da tarde, a política, a história, as ideias — discutidas com jovens que poderiam ser seus netos, com a mesma seriedade de quem sabe que as palavras têm peso. Quem o via carregar uma carga pela manhã e debater Marx à noite ficava impactado. Não pela erudição performática, mas pela autenticidade absoluta.
Chaguinha não usava o conhecimento para impressionar. Usava para entender. E para resistir.
Foi essa resistência que o tornou perigoso aos olhos da ditadura.
Em 31 de maio de 1973, quando a polícia chegou antes dele à porta de casa, Chaguinha não correu. Perguntou o motivo da prisão. Ouviu a resposta vaga — “é por esse negócio aí, ordem superior” — e entrou. Por dentro, o medo. Por fora, a dignidade intacta.
Na Fortaleza de São José, amarrado com arame, encapuzado, levado de avião para Belém como se fosse um criminoso de guerra, Chaguinha carregou consigo um segredo: debaixo de um quadro de São Francisco, em seu quarto, estava o programa do Partido Comunista Brasileiro. Os policiais pegaram o quadro. Olharam. “Isso aí não… isso aí é São Francisco.” E seguiram.
O destino havia piscado para ele.
O inquérito foi arquivado. Não havia crime. Nunca houve. Mas o que foi feito ao corpo e à dignidade de um homem não se arquiva tão facilmente.
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No aniversário de 88 anos de Chaguinha, mandei a banda da Polícia Militar fazer uma alvorada em sua porta. Recomendei que tocassem a Internacional Socialista. Na véspera, o comandante me ligou, quase sem graça: não havia conseguido a partitura em nenhuma banda militar do país. Nem uma. A música dos trabalhadores do mundo era desconhecida em todos os quartéis.
A alvorada aconteceu assim mesmo.
E há uma ironia perfeita nisso: o mesmo aparato militar que, décadas antes, havia amarrado seus pulsos com arame, agora tocava para ele — sem conseguir honrá-lo da forma que ele merecia, mas tocando. Era o máximo que a instituição conseguia oferecer. E Chaguinha, certamente, entendeu o gesto por inteiro.
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As fotografias guardam o que as palavras dificilmente alcançam.
Em uma, Janete segura suas mãos. Os dois se olham de frente — ela jovem, ele ancião — como quem retoma uma conversa que o exílio havia interrompido. Há naquele gesto uma cumplicidade que atravessa décadas: a de quem compartilhou o mesmo tempo difícil, cada um à sua maneira, cada um no seu lugar.
Na outra, Chaguinha e eu, num quarto de hospital. Duas cadeiras. Uma mesa de cabeceira. E a conversa — séria, próxima, necessária — de quem sabe que há histórias que precisam ser ditas antes que o tempo feche a janela.

Francisco das Chagas Bezerra não era um símbolo.
Era um homem.
Que trabalhou, leu, pensou, amou e resistiu — sem nunca pedir que alguém soubesse disso.
A história soube assim mesmo.
* Prefeito de Macapá, governador e senador do Amapá. Autor da Lei Complementar nº 131/2009 (Lei da Transparência). Empreendedor da economia da floresta em pé.

