Duas décadas de Real

Charles Chelala*

Imaginem uma situação de aumento de preços diários, ao ponto de um quilo de arroz aumentar de $2,00 para $3,60 no mesmo mês. Avaliem a dificuldade de se elaborar um orçamento público, com uma inflação beirando aos 2.000% ao ano. A confusão monetária era tão grande que uma caixa de fósforos poderia ostentar o preço de milhares de cruzeiros (ou cruzados, cruzados-novos, etc.).

Entre os anos de 1980 e 1994 o Brasil conviveu com um dos mais perniciosos males da economia: a inflação persistente e fora de controle. Inflação é a alta generalizada e contínua de preços, que causa diversos impactos indesejados na estrutura econômica, inclusive na distribuição de renda, uma vez que os mais ricos podem defender-se investindo em títulos e em moeda forte, enquanto os mais pobres veem seu poder de compra diminuir sem nada que possam fazer.

As causas clássicas da inflação são o aumento da demanda sem o correspondente da oferta, pressionando a alta de preços; ou o aumento de custos básicos da economia (como petróleo, energia elétrica, salários), que são repassados para os preços. O problema é que o Brasil vivia uma inflação inercial, na qual o movimento altista é retroalimentado preventivamente, contra a inflação futura. Tratava-se de uma espiral ascendente de preços, turbinada pelas diversas formas de indexação existentes à época (dólar, bônus do tesouro nacional, gatilhos salariais). Para enfrentar o “Dragão” foram elaborados cinco pacotes econômicos antes do Plano Real: Cruzado (1986), Bresser (1987), Verão (1989), Collor I (1990) e Collor II (1991). Assim, quando se propôs o Real havia uma grande dose de descrédito. Quais teriam sido, então, os fatores de sucesso do plano?

Primeiramente, é importante relembrar que o Real não foi implantado de supetão, como os demais. Foram três fases: a primeira preparou a economia para o plano com corte de despesas públicas (com o Plano de Ação Imediata), aumento de impostos (com o primeiro imposto do cheque: o IPMF), e diminuição de transferências a entes da federação (Fundo Social de Emergência). A segunda etapa foi decisiva: em 1º de março de 1994, entrou em vigor a Unidade de Referência de Valor – URV, grande responsável pelo êxito do combate à inflação. A engenhosidade da URV foi se cacifar como a única unidade de conta, com paridade fixa ao dólar, à qual eram convertidos todos os preços da economia. Este sistema bimonetário, permitia hiperinflação em uma moeda sem prejudicar a outra moeda virtual (a URV), com isso alcançando a sincronia de preços. A terceira e derradeira etapa foi a transformação da URV em Real em julho de 1994, quando a moeda virtual se tornava a moeda real (com perdão do trocadilho). Estava rompido o espiral da inflação inercial e alcançado a estabilidade.

Claro que tal ajuste não ocorreu sem custos: a âncora cambial (atrelamento à cotação do Dólar), quase quebrou o Brasil em 1999, destroçou nossas contas externas e atrasou em uma década a nossa competitividade. A outra âncora, a monetária (rígido controle dos meios de pagamento em circulação), aumentou exponencialmente nossa dívida pública, passando a exigir esforços insuportáveis para a Nação por meio de superávits primários. Aliás, cabe também recordar que foi durante o Plano Real que a carga tributária deu um salto e que a União aumentou a concentração da receita dos tributos à sua disposição.

Apesar dos pesares, a adoção do Plano Real foi correta, representou uma vitória do país contra um mal persistente e merece ser relembrada como uma bela página da nossa história econômica.

 

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