Dia dos professores: os olhos do afeto

“Minha filha, não é ele ali subindo no ônibus?”, disse minha mãe, depois de atravessar o cruzamento de uma rua agitada cedo da manhã. No banco do carona e com a vista para longe comprometida pela miopia, eu o identifico por conta da bengala. Mas a carona veio tarde e Jodoval já havia embarcado. 

Seguimos o coletivo até a praça, onde eu deduzi que ele iria saltar, afinal, nosso destino era o mesmo. Dessa vez, chegando primeiro. Uma aflição me tomava ao vê-lo atravessando a rua, com uma segurança que nem mesmo eu tenho. Saio do carro e falo um sonoro “Jodoval?”. Ele paralisa assim que sobe a calçada, e eu brigo comigo mentalmente pela abordagem. Estendo a mão até ele delicadamente e digo “sou eu, a Luiza, estava indo encontrar com você, lembra?” entramos no carro juntos. 

O senso  de direção dele é certeiro, a ponto de saber exatamente onde está, seja calculando o trajeto no passo ou nos movimentos do carro. À esquerda da rua larga, um prédio de altos e baixos com uma placa escrito “Centro de Apoio Pedagógico ao Deficiente Visual – CAP” , ele pede para estacionar e avisa que chegamos. Ao som de “do you wanna dance?”, pessoas dançavam no pátio do centro, durante o ensaio para uma apresentação. Jodaval entra na frente  reconhecendo os colegas pela voz e procurando uma sala para conversarmos. 

As lembranças que tenho dele são das tardes no Conselho de Educação, enquanto eu perambulava pela garagem esperando meu pai sair do trabalho e de , vez ou outra, encontrar com ele pelo centro da cidade, enquanto passeava com minha mãe. 

– Tu és filha do Paulo, né?

– Aham, sou sim. 

– Eu lembro de ti naquela cerimônia da UNESCO.

– Sim, era eu mesma! Eu tava representando os alunos, foi meu último dia de aula na escola. 

– Isso! Você fez um discurso bonito, parecido com os que teu pai fazia. 

Sentados de frente um para o outro, eu o observo dobrar a bengala e guardá-la no bolso da calça. Com 43 anos, ele há quase 30 não enxerga mais o mundo com o olhos, mas com o tato e junção de todos os sentidos. 

 

As lentes 

“Desde pequeno, segundo a minha mãe, era visível a minha deficiência, tanto pelo estrabismo quanto pela lente opaca dos olhos”. Nascido em uma família simples onde ele e a irmã apresentavam limitações visuais, o tempo de Jodoval da Costa sempre foi diferente das outras crianças. A dedicação da mãe para que os filhos estudassem fez com que, aos sete anos, ele entrasse na Escola Estadual José de Anchieta, uma das poucas instituições de ensino pública da época preparada para receber alunos com deficiências. 

O ingresso do menino foi marcado por desafios. Ainda sem saber ler e escrever, ele foi direcionado para a turma específica, que atendia os alunos com necessidades especiais. Além das aulas regulares e material didático ampliado, ele fazia atividades de estímulo visual, psicomotoras e testes de cognição. “Os professores me disseram que se eu conseguisse me alfabetizar, no outro ano iria para a turma regular”, e com letras grandes e garrafais, ele assinou o passaporte para a turma da 2° série.

A baixa visão e os óculos de lentes grossas não eram um impedimento para correr, jogar bola e brincar como uma criança comum, ainda que dentro das suas limitações. “No primeiro momento eu lembro de copiar o conteúdo do quadro normalmente, porque eu sentava na primeira cadeira da fila central. Depois tive mais dificuldade e precisava levantar pra ler, memorizar e depois escrever”. Dos dez aos treze anos foi assim, até começar a perder a visão gradativamente. 

“Com treze anos eu parei de estudar, já não enxergava quase nada, e precisei ir para Belém tentar um novo tratamento”, o novo método, aplicado com o auxílio de uma telelupa, era especificamente para recuperar o desempenho da visão para que ele e a irmã pudessem voltar à escola. Foram oito meses longe de Macapá, um ano letivo perdido e uma terapia ocular que funcionou por muito pouco tempo. “No início eu até conseguia ler alguma coisa, tinha perspectiva, mas logo isso se perdeu. Meu problema na verdade era glaucoma, só que nenhum exame de pressão foi feito então não tinham esse diagnóstico. No ano seguinte eu perdi completamente  a visão”. 

Não parar de estudar foi uma determinação fruto do incentivo e da cobrança, tanto dos professores quanto da família. A adaptação para o sistema braille foi feita em meio a resistência, apesar da facilidade, por já ter sido alfabetizado, “eu não aceitava, estava de luto pela minha perda”.

Pergunto qual foi o  momento em que ele começou a desenvolver autonomia para andar só na cidade, ele sorri e diz “a primeira vez que andei sozinho em Macapá foi para encontrar o Paulo lá no Colégio Amapaense, em 2001, quando eu ainda estudava no Anchieta. Eu precisava fazer um trabalho de história, mas não tinha material, coincidentemente, era o mesmo conteúdo que ele tava dando para uma turma lá. Saí da aula e perguntei para os meus professores como chegava lá. Peguei o ônibus e desci perto da Praça da Bandeira. Na volta ele me deu uma carona”, relembra com risada em meio ao meu riso embargado, entregando para ele que dos meus olhos transbordavam águas de saudade.

“Apesar de tudo, o sistema braille me ajudou muito e através dele eu voltei a ter acesso aos conteúdos da escola”. Com todas as dificuldades enfrentadas, ele concluiu o primeiro grau sem muita expectativa do que viria pela frente. O desejo de cursar contabilidade tinha ficado para trás depois do avanço da deficiência, a alternativa era seguir a orientação dos professores e procurar um curso profissionalizante.

 

Do horizonte eu vejo  

“Por indicação dos professores eu fui para o IETA, porque segundo eles o instituto já havia recebido alunos com necessidades especiais e eu teria a possibilidade de conviver com outras pessoas como eu”, mas a busca por uma compatibilidade entre aprendizagem e a sua condição o levou a lugares antes inimagináveis. “Vieram muitas coisas ao mesmo tempo. O curso, o magistério, a integração no movimento estudantil. Toda uma conjuntura que me fez gostar e me identificar com a educação”. 

Estar em um ambiente para a formação de novos docentes foi um caminho para abrir os olhos e a vida para uma nova perspectiva. O acesso à leituras e a entrada no movimento de pessoas com deficiência visual, assim como as entidades representativas, mudou de forma definitiva a maneira como ele se entendia no mundo. O que no passado veio como alternativa, tinha se tornado realização. 

Antes mesmo de concluir o curso, Jodoval passou no concurso para telefonistas no Ministério Público do Amapá, onde trabalhou por 10 anos sem perder o flerte com a educação. “Era um cargo compatível com a minha situação, antes tinha muito isso de ser compatível com a deficiência da pessoa, hoje bem menos”. Em 2005, ele resolveu fazer o concurso para educação especial no quadro estadual e passou, deixando o MP para seguir o que realmente queira. “Apesar do salário menor e das condições de trabalho, em termos de realização pessoal, foi a melhor coisa que fiz!”

“Em 99 eu prestei vestibular para Ciências Sociais na UNIFAP, mas não passei. Aí fui cursar economia no CEAP, mas quando comecei a estudar, a faculdade não tinha estrutura nenhuma, nem recursos. Então abandonei, porque não me sentia bem, era uma formação profissional e eu sentia que não estava sendo bem preparado”. Quase vinte anos se passaram, e o enfrentamento de dificuldades para a inclusão de estudantes com necessidades especiais ainda é uma realidade da educação no Brasil. 

Criada em 2015, a Lei Brasileira de Inclusão n°13.146, é destinada a garantir acessibilidade nos diferentes aspectos sociais, entre eles, a educação inclusiva em todos os  níveis de aprendizado. Possibilitando assim, o desenvolvimento máximo das habilidades intelectuais, físicas e sociais do aluno. Mas a ausência de infraestrutura e capacitação para receber esses perfil de estudantes afeta não só a aprendizagem, mas a sociabilidade com o isolamento dentro e fora de sala de aula. 

Depois de se frustrar com a faculdade, ele conseguiu, ainda no mesmo ano, se inscrever no curso de formação de professores na área de deficiência visual do Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro. “O curso me motivou muito, fiquei hospedado no próprio instituto e tive a oportunidade de conhecer a história do sistema braille, como ele foi criado e chegou até o Brasil, além da construção de referências, porque convivi com grandes professores e estudiosos cegos como eu”, lembra ele, que voltou para casa com o desejo de se dedicar à educação. 

 

Só se vê bem com o coração

         A resignação que carrega desde criança fez Jodoval encarar a educação sempre de maneira positiva. Buscar enxergar o melhor da vida mesmo nas adversidades. “Eu tinha e acho que ainda tenho facilidade em influenciar as pessoas. Isso me ajudou a me destacar, fosse entre colegas cegos ou não que eu convivo normalmente. Esse foi o meu grande impulso!”, definiu ele.

         Pai de três filhos, ele vivenciou a paternidade precocemente, aos 18 anos, quando nasceu Rita, sua primeira filha fruto de um relacionamento conturbado com uma moça também cega. Foi só em 2002, durante o trabalho voluntário no CVV, que ele conheceu Sandra, com quem teve dois filhos, Thiago e Iara. “Eu lembro que depois da adolescência, quando que já tinha superado a perda da visão, ficava pensando sobre como os meus filhos iam me ver”. Mas os olhos do amor são empáticos, e ele me disse que nunca foi questionado por nenhum dos filhos sobre o porquê dos olhos dele serem diferentes. “Andava com eles por todo lugar, fosse no colo ou de mãos dadas, com um filho em uma mão e a bengala em outra. Dava banho, trocava a fralda, uma autonomia e segurança que eles me deram e que me fortalece muito”.

         Prestes a formar em Pedagogia pelo curso EAD da UNIP, ele percebe que o interesse pela educação nunca foi para estar em sala e sim, no envolvimento com a gestão e formação continuada de professores. “A educação me deu muita coisa que eu não esperava, por exemplo, a possibilidade de ser vice-presidente do Conselho Estadual de Educação”, surpreso até hoje com o convite feito pela conselheira Eunice de Paulo, ele acredita que veio pelos anos de trabalho dedicados à educação inclusiva.

         “O que mais me marcou nessa trajetória foi a possibilidade de conviver com as pessoas na mesma condição que eu. Isso me ajudou muito, porque é aquilo, né? Somos o que pensamos que somos, mas mesmo assim precisamos de referências para nos moldar”, uma troca cheia de solidariedade que permitiu um crescimento profissional e refletiu na construção da figura de representatividade que ele tem no Amapá.

         “O que espero é que as pessoas, sobretudo as pessoas com deficiência, que é o segmento do qual eu faço parte e me identifico, possam cada vez mais ter perspectivas para um futuro cheio de possibilidades. Um futuro onde as pessoas se assumam e se aceitem do jeito que são”. Um olhar para o futuro que vem de dentro, com os olhos do afeto. 

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