CPI da Covid – Primeira parte.

O ex-Ministro da Saúde Eduardo Pazuello, fez o depoimento mais aguardado da CPI e disse que falas de Bolsonaro não interferiam na compra de vacinas.

 

Desde que a CPI da Covid começou, no dia 27 de abril, a comissão já ouviu mais de dez testemunhas e teve centenas de requerimentos de informações.

Neste tempo, houve diversas revelações sobre ações e omissões do governo federal, testemunhas caindo em contradição, senadores fazendo perguntas com base em notícias falsas, oposição acusando depoente de falar mentiras e até um requerimento de convocação do Presidente da República.

Fizemos uma seleção dos principais momentos da CPI até agora, boa parte da matéria está no site da BBC News Brasil.

Para facilitar a leitura, irei dividir em partes esta matéria.

 

Mandetta criticou Bolsonaro e disse que ‘410 mil vidas’ o ‘separam do presidente’.

Manchete da BBC.

 

Os primeiros a serem ouvidos na CPI, foram os ex-ministros da saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Ambos deixaram o governo em meio à pandemia por discordâncias com o presidente Bolsonaro em relação à condução do combate à covid-19.

Mandetta afirmou à CPI, que o presidente teve uma postura negacionista quanto a gravidade da pandemia e tomou decisões ignorando a ciência e as informações prestadas pelo ministério, mesmo com o alerta de que isso poderia levar a milhares de mortes. Disse também que o presidente tinha um grupo de conselheiros paralelos que o assessoravam em questões relacionadas à pandemia.

O ex-ministro criticou o fato do presidente ter se posicionado contra lockdown e medidas de restrição de circulação. E acrescentou que Bolsonaro preferiu estimular o uso de remédios sem eficácia contra a doença a fazer uma campanha de conscientização da população.

“Hoje, 410 mil vidas me separam do presidente”, disse Mandetta, em referência às mais de 400 mil mortes por covid no país e que hoje somam quase 500 mil mortes.

Mandetta afirmou que não foi diretamente pressionado pelo presidente a tomar medidas contrárias ao que era recomendado pela ciência, mas que foi publicamente confrontado, o “que dava uma informação dúbia à sociedade”.

Imagem: oglobo.com

 

“Sim, a postura (do presidente) trouxe um impacto (negativo). Você tem que ter, na pandemia, uma fala única”, afirmou Mandetta em depoimento à CPI. Imagem do portal oglobo.com

Segundo o ex-ministro, o governo queria mudar a bula da cloroquina para incluir seu uso no tratamento da covid-19, mesmo sem que o remédio tenha eficácia no combate à doença. Essa informação foi depois confirmada pelo presidente da Anvisa, o militar Antonio Barra Torres.

As revelações de Mandetta acabaram sendo base para as principais linhas de investigação dos senadores nos dias seguintes.

O ex-ministro, Nelson Teich, confirmou que saiu do cargo após apenas 29 dias porque não tinha autonomia e porque o presidente insistia no uso da cloroquina e nas críticas às medidas de restrição de circulação.

 

Atual ministro fugiu de perguntas e foi reconvocado.

 Marcelo Queiroga, o atual ministro da saúde, também foi um dos primeiros a dar depoimento, mas não deu todos os esclarecimentos que os senadores esperavam, deixando muitos questionamentos sem resposta, inclusive se recusando diversas vezes a responder se concorda com o presidente quanto ao uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19.

As constantes evasivas fizeram com que os senadores aprovassem, em 19 de maio, a sua reconvocação para a CPI, que ocorreu em 08 de junho.

Neste segundo depoimento de Queiroga à CPI, o ministro justificou a não nomeação da médica infectologista, Dra Luana Araújo, alegando motivos de administração interna, mas não ligando esse fato ao chamado “gabinete paralelo”.

O atual ministro também foi questionado quanto ao fato do presidente da república circular sem fazer o uso de máscara, respondendo que: “não é censor do presidente”.

Mas o maior destaque deste segundo depoimento ficou por conta da discussão do ministro com o senador Otto Alencar (PSD-BA), também médico. O senador, fez questionamentos técnicos sobre as vacinas que estão sendo utilizadas na campanha de imunização do Brasil e acusou o ministro de não ler a bula das vacinas para ter conhecimento dos efeitos colaterais que estas poderiam causar, contraindicações e a forma de aplicação correta, questionando o seu intervalo entre as doses.

Após isso houve um bate-boca entre o senador e o ministro, com a sessão sendo suspensa por 10 minutos. No retorno da sessão, o ministro foi questionado pelo vice-presidente da CPI, o senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP), sobre quando a população brasileira estará totalmente vacinada, apesar de tentar se desviar da pergunta, o ministro afirmou que até o final do ano toda a população maior de 18 anos estará vacinada.

O senador Otto Alencar e o ministro Marcelo Queiroga protagonizaram a maior discussão da sessão. Imagem do site horabrasilia.com

 

Presidente da Anvisa confirmou tentativa do governo de mudar bula da cloroquina.

 

O presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antonio Barra Torres, disse em seu depoimento que não houve pressão direta de Bolsonaro sobre a agência para a aprovação da cloroquina para o combate ao coronavírus, mas confirmou que o governo queria mudar a bula da cloroquina e que isso foi levantado em uma reunião de ministros com o presidente, como havia dito o ex-ministro Mandetta.

“Esse documento (uma minuta sobre uma possível mudança) foi comentado pela dra. Nise Yamaguchi, o que provocou uma reação até um pouco deseducada minha”, afirmou Barra Torres. “Só quem pode modificar a bula de um medicamento registrado é a agência reguladora do país (a Anvisa), mas desde que solicitado pelo detentor do registro.”

O presidente da Anvisa, Antonio Barra, disse na CPI que o governo queria modificar a bula da cloroquina. Imagem do site bbc.com

Barra Torres também disse que o governo não interferiu na análise ou nas decisões da Anvisa sobre vacinas. Mas afirmou que a agência “recebeu muito mal” falas de Bolsonaro que criticavam vacinas e colocavam dúvidas sobre sua segurança.

“Misturar política e vacina não é adequado”, disse. “A população não deve se orientar por orientações dessa maneira (do presidente da República), mas pela orientação de órgãos técnicos que estão na linha de frente.”

Militar e indicado por Bolsonaro, Barra Torres chegou a ter a independência questionada após ser fotografado sem máscaras ao lado do presidente durante um ato em favor do governo na frente do Palácio do Planalto, em 15 de março de 2020.

À CPI, disse que se arrependeu do ocorrido e que na época a OMS (Organização Mundial de Saúde) indicava máscaras apenas para profissionais de saúde. “É óbvio, em termos da imagem que passa, hoje vejo que se pensasse mais cinco minutos não teria feito”, afirmou. “Depois disso, nunca mais houve esse comportamento meu.”

 

Pfizer confirmou que governo ignorou ofertas

O ex-presidente da Pfizer no Brasil, atual CEO da empresa na América Latina, Carlos Murillo, deu detalhes da negociação da empresa com o governo federal.

Segundo ele, o governo não respondeu a três ofertas de 70 milhões de doses de vacinas da Pfizer em 2020. Murillo disse que as ofertas, feitas em 14, 18 e 26 de agosto de 2020 foram simplesmente ignoradas.

Murillo afirmou que, se as ofertas tivessem sido aceitas, os primeiros lotes poderiam ter sido entregues ainda em dezembro de 2020. Segundo o executivo, não houve atrasos até agora no cronograma de entrega da empresa. Ou seja, se o governo tivesse aceitado alguma das propostas, as primeiras vacinas da Pfizer teriam chegado ao Brasil ainda em 2020 e a vacinação poderia ter sido iniciada com um pedido de aprovação da Anvisa para uso emergencial do imunizante, como foi feito com a Coronavac, do Instituto Butantã, contratada pelo governo do Estado de São Paulo. O uso destas vacinas se deu a partir do dia 17 de janeiro, após a Anvisa conceder autorização de uso emergencial.

O executivo da Pfizer disse que o governo ignorou diversas ofertas da vacina. Imagem do site bbc.com

Somente em fevereiro, a Anvisa deu aprovação definitiva para a vacina da Pfizer. Com o contrato com a empresa sendo fechado em março. A primeira remessa de cerca de um milhão de doses da vacina da Pfizer/BioNTech chegou ao Brasil no final do último mês de abril.

Os EUA, fecharam o contrato de compra com a Pfizer antes da aprovação das agências regulatórias e começaram a vacinação após aprovação provisória.

Questionado sobre as dificuldades na negociação com o ministério da Saúde, Murillo afirmou que inicialmente “os temas complexos” eram relacionados à questão logística, mas quando a empresa ofereceu um novo método de armazenamento, o ministério apresentou novos entraves, dizendo que era preciso aprovação prévia da Anvisa.

O ex-ministro Eduardo Pazuello afirmou publicamente que o contrato tinha “cláusulas leoninas”.

“As condições que oferecemos para o Brasil são exatamente as mesmas que a Pfizer negociou com 110 países no mundo”, afirmou Murillo.

 

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