Consciência social e amparo ao bem-estar mental dos profissionais de saúde. Seguir com as medidas restritivas e reconhecer a gravidade da pandemia é parte disso

*Renata Ferraz – Psicologa Clínica

Diante da crise sanitária que assola o mundo provocada pelo coronavírus, cada vez mais a sociedade têm sido impulsionada pelos noticiários mundiais a reconhecer a importância do trabalho dos profissionais de saúde que simbolicamente vêm assumido a imagem de “heróis”, devido ao esforço sobre humano que fazem para salvarem vidas. Diante desse cenário caótico que o mundo está passando, este profissional se tornou peça insubstituível para o combate à COVID 19, assim como, os seus conhecimentos e suas intervenções. O reconhecimento da função social desses agentes é tão necessário quanto é a certeza de que a maioria de nós em algum momento estará em suas mãos.

Os profissionais da saúde sempre foram conhecidos por uma rotina de trabalho árduo e estressante de contínua pressão para reduzir o sofrimento e salvar vidas. Mas, diante de um problema de dimensões globais, não estavam preparados para o enfrentamento de um vírus desconhecido que evolui rapidamente para a forma mais grave da doença que tem como consequência  o quantitativo exacerbado de mortalidade que temos presenciado e acompanhado nos boletins da pandemia, além de hospitais lotados a beira de um colapso, falta de equipamentos de proteção individual, sobrecarga de trabalho, equipe reduzida, plantões exaustivos, medo da contaminação, óbitos entre seus colegas de trabalho e familiares entre muitos outros fatores.

A realidade pesada em cada plantão ou horas exaustivas de trabalho fazem emergir experiências e aprendizagens subjetivas significativas, marcadas pela doação e esforço profissional que garanta uma qualidade assistencial eficaz com diagnósticos precoces que combatam a proliferação do vírus e o avanço da doença. Ter que decidir sobre a vida ou a morte de um paciente diante da gravidade do quadro clínico, da probabilidade de sobrevivência e a falta de recursos hospitalares para todos os usuários do SUS, é algo que nenhum profissional quer vivenciar, pois contradiz o sentido de sua atuação. A escolha pela finitude corrobora para uma vulnerabilidade psíquica, confundida na maioria das vezes por muitos, com uma possível inabilidade em lidar com a situação. 

Não devemos estigmatizar o sofrimento emocional (sensação de impotência) diante de tantas perdas provocadas pelo vírus, desqualificando o profissional na sua função laboral e no seu processo de elaboração/aceitação do luto. A polemização entre a fragilidade emocional e o fracasso profissional enfatizam a criação de “bloqueios” psicológicos internos para defrontar com o limite da vida humana, apresentando um comportamento imparcial, simbolizado pela “frieza circunstancial”, numa tentativa de autoproteção frente a esta realidade aversiva.

Perante a complexidade da ação cuidadora dos profissionais de saúde, faz-se necessário o reconhecimento de suas potencialidades e limitações, visto que todos temos limites que precisam ser superados, já que não somos onipotentes e infalíveis. Por isso é tão importante cuidar de quem nos cuida!!

Assim, se faz necessário compreender que o amparo à saúde mental dos profissionais que estão na “linha de frente” da saúde é responsabilidade de todos, incitando na sociedade uma consciência mais solidária, reconhecendo-os como um “bem público”, garantindo sua essencialidade laboral. Nesse momento de fragilidade emocional e física pelas quais esses profissionais passam, pode e deve ser diminuída através de expressões de gratidão que reforcem o desprendimento e o sentimento de compaixão diante da dor alheia. Essas atitudes de acolhimento desencadeiam alguns mecanismos que contribuem para a estabilização e manutenção do bem-estar psíquico. 

A sociedade e a opinião pública devem deixar de “romantizar” o trabalho dos profissionais da saúde, eles não são míticos “super-heróis” de jaleco e com superpoderes. São humanos, são homens e mulheres, pessoas que possuem famílias e amigos que os amam, que sentem dores físicas e emocionais, que adoecem e têm medo. Antes de criamos uma imagem de “seres superiores” devemos lutar por políticas públicas que assegurem sua valorização no exercício real de suas profissões. 

Homenagens e aplausos nas janelas aos protagonistas da saúde são respeitosos e merecidos, porém ineficazes para efetivar a implementação e promoção de ações e políticas que propiciem reconhecimento, segurança e cuidado com estes trabalhadores que tanto se dedicam em levar uma melhor qualidade de vida aos que sofrem nos leitos dos hospitais sucateados e sem condições de trabalho. Ou explorados por carga horárias extenuantes e exaustivas nos hospitais privados.

É um momento de unirmos forças, de sermos coesos em ações e mobilizações sociais de conscientização de todos os setores da sociedade para manter os cumprimentos das medidas restritivas, reconhecendo e aceitando a gravidade da situação que assola o mundo, respeitando as recomendações e determinações da saúde pública, protegendo as vidas de nossos “heroicos” profissionais da saúde e suas práticas assistencias que nos mantêm vivos.  

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