Como se fora brincadeira de roda: cultura popular, ancestralidade e tradição das bonecas do Carmo do Macacoari

A pesquisadora Maria das Dores Almeida fez do trabalho de campo do mestrado uma oportunidade para a recuperação da memória afetiva das mulheres da comunidade do Carmo, em Itaubal do Piririm. 

Foto: Rudja Santos

Um roda de mulheres se formava sob a sombra da copa da árvore projetada no chão. O quintal aberto da Paróquia São Benedito era ocupada por uma dúzia de cadeiras espalhadas, que logo mais acomodaria as mesmas mulher que, naquele momento, se alongavam e diziam seus nomes em voz alta. 

“Estamos fazendo um exercício para iniciar a atividade, já te chamo, tá bem?” assenti com a cabeça, enquanto observava de longe o que, aos meu olhos, girava como uma ciranda às 8h da manhã. Conforme a roda se desfazia, elas andavam em minha direção. “É você? Nossa, uma menina”, esboçou  Maria das Dores Almeida ao me ver, já me convidado para que voltássemos a ocupar a sombra. 

Foto: Rudja Santos

Licenciada em economia doméstica,a professora e pesquisadora Maria das Dores encontrou no mestrado em Desenvolvimento Sustentável (UNB) o elo para se aproximar das raízes da infância, no Carmo do Macacoari. Com ações afirmativas validadas, o programa de pós-graduação da Universidade de Brasília destina anualmente 20% das vagas para candidatos negros. 

Durante a pesquisa, uma das minhas entrevistadas, a dona Edmunda, falou muito sobre as bonecas. Faziam muito anos que ela não retornava à comunidade, e um dos motivos para isso foi a produção das bonecas”, recorda ela. Produzidas na pesquisa de campo, o que inicialmente funcionou como metodologia para as entrevistas, ganhou corpo, roupa, rosto e brincadeira. 

A pesquisa inicialmente tinha como objetivo identificar o protagonismo das mulheres dentro da comunidade e como isso se reconstrói no passado e no presente. O pedido para que as 14 interlocutoras levassem objetos da memória da infância para o centro da roda transformou as bonecas de bacaba em representações da ancestralidade do Macacoari. “Quando os pais delas iam apanhar bacaba no mato, elas tiravam a vassoura do tacho e disso elas transformavam criavam bonecas”, explica a pesquisadora. 

Pesquisadora Maria das Dores Almeida. Foto: Rudja Santos

A ideia de Maria das Dores é transformar as bonecas de “munheca de bacaba” em patrimônio cultural do Amapá. “As mulheres com quem conversei são da segunda e terceira geração da comunidade do Carmo, netas e filhas de escravos, como a minha avó, que nasceu logo depois da escravidão. Fazer as bonecas uma forma de guardar esses saberes para que as crianças de hoje compreendam como se brincava no passado” diz Dona Maria, enquanto deita em meu colo todas as bonecas para que eu possa vê-las de perto.  

Com as atividades interrompidas pela pandemia, a pesquisadora iniciou o trabalho de oficinas de formação para crianças da Escola Estadual Ana Claudina Picanço no início do ano, com rodas para a fabricação de bonecas. O projeto chegou a ser apresentado ao IPHAN, mas não pode dar andamento para se tornar patrimônio cultural do Amapá por não ser mais uma prática constante dentro da comunidade.  

Foto: Rudja Santos

“As bonecas foram ganhando o nome das antigas posseiras da comunidade, de pessoas que foram importantes para a trajetória do povo. Quando eu ouvi uma interlocutora dizer ‘‘vocês precisavam conhecer meu pai’, se referindo ao boneco, foi um dos momentos mais lindos da pesquisa para mim”. O processo ritualístico de contar e remontar a memória local entre bonecas e testemunhos encaminha-se agora para virar um livro, sobre a história do Carmo do Macacoari. Essa, que segundo Dona Maria das Dores, ainda não foi contada. E na brincadeira, a vivência se  refaz e o pertencimento se reafirma, num ciclo contínuo como uma ciranda: em roda e em movimento. 

  • Que maravilha! Um resgate de uma cultura que vem trazer à geração atual conhecimentos, práticas ( brincadeiras, artes, criatividade) vivenciadas por seus familiares que lhe antecederam! Isso é importante para manter vivo a história, a identidade de uma comunidade, de sua riqueza cultural, específica.Me sinto privilegiada por ser filha de uma das participantes desta pesquisa Edmunda Brazão Viegas! Só gratidão , afinal este universo faz parte de minha história de vida!

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