Carta do procurador da Fazenda Evandro Gama à presidente do PT

Sra. Nilza Amaral

Ilustríssima Presidente,

Desde a minha adolescência, com a maturidade e o senso de responsabilidade construídos em meio às dificuldades financeiras enfrentadas por minha família, sempre fui um atento observador da nossa cidade de Macapá. Durante a minha adolescência já não aceitava os desmandos políticos e governamentais de nossas autoridades, com os sérios problemas sociais e econômicos deles decorrentes.

Via com tristeza o alto nível de desemprego, o baixo nível de renda do nosso povo e a dependência da nossa cidade e do Estado em relação ao contra-cheque público. Foi essa indignação que me levou à Belém, no Estado do Pará, para continuar os meus estudos e me formar em Direito; depois ao centro financeiro e industrial do país – São Paulo, para assumir o cargo de Procurador da Fazenda Nacional, aprovado mediante concurso público; e, finalmente, à Brasília, o centro político do país, para, no Governo do Presidente Lula, exercer o cargo de Assessor da Casa Civil da Presidência da República e de Ministro da Advocacia-Geral da União. Fui buscar conhecimentos e experiência administrativa para retornar ao meu Estado e à minha cidade de Macapá e poder contribuir, de forma efetiva, para a superação dos problemas sociais que, desde a minha adolescência, provocam a minha indignação como cidadão.

Passados mais de 30 anos, infelizmente tenho muito pouco para comemorar sob o ponto de vista político-administrativo, econômico e social na nossa cidade de Macapá. Sob o aspecto político-administrativo, pode-se afirmar sem medo de errar que se regrediu no tempo. Basta olhar e ver a instabilidade político-administrativa vivenciada atualmente e as prisões ocorridas recentemente, sob a acusação de assalto ao dinheiro público. A dilapidação do dinheiro público e a falta de profissionalização da administração pública viraram a regra, agora também com a desculpa da necessidade do aparelhamento ideológico e da subjugação dos opositores políticos. Quanto ao aspecto econômico, continua a mesma dependência em relação ao contra-cheque público de 30 anos atrás, o que coloca os nossos cidadãos e cidadãs dependentes de políticos inescrupulosos, que não medem esforços para lhes proibir o exercício do segundo bem maior depois da vida: a liberdade de escolha.

E o aspecto social? Este, como resultado da má qualidade dos aspectos político-administrativo e econômico acima citados, só piorou nesses últimos 30 anos. Eu que sempre estudei em colégios públicos em Macapá e tive a honra de chegar ao cargo de Ministro de Estado do meu país, no Governo que mudou a nossa história econômica e social, hoje não sei se as crianças e jovens de Macapá terão a mesma chance que eu tive, tendo-se em vista a péssima qualidade da educação em Macapá e no Estado do Amapá, por culpa dos nossos governantes.

Os números do IBGE de 2010 falam por si. Segundo esse instituto, do universo de 319.028 pessoas com 10 anos ou mais de idade na nossa cidade, 58,91% são sem instrução, ou possuem o ensino fundamental incompleto, ou possuem o ensino fundamental completo e o ensino médio incompleto. Mas não é só isso! No que diz respeito ao atendimento das crianças de 0 a 3 anos de idade, o desastre social é alarmante. Nesse grupo, em 2010, do total de 31.865 crianças apenas 3.506 frequentavam creches. Ou seja, 28.359 crianças não tinham acesso à Educação Infantil em 2010. Neste mesmo ano, do total de 14.936 crianças com 4 ou 5 anos de idade apenas 9.637 tinham acesso à pré-escola. Qual o futuro das nossas crianças e adolescentes se não estão tendo acesso a uma educação de qualidade?

No campo da infraestrutura urbana, não é diferente. Do total de 325.542 pessoas que vivem em 79.109 domicílios permanentes identificados pelo IBGE em Macapá no ano de 2010, só 36,7% tinham suas ruas, avenidas e travessas identificadas (por exemplo, aquelas placas que não vemos nas ruas!); apenas 61,2% tinham suas ruas asfaltadas – ou melhor dizendo, tinham suas ruas com asfalto cheio de buracos; e apenas 33,9% tinham calçada para andarem com segurança, sem precisar disputar espaço com carros e motos. E o respeito às pessoas com necessidades especiais? Pasmem! De 325.542 pessoas só 6.573 (2,3%) têm rampa para cadeirantes nas suas ruas e calçadas (estas quando existem).

Vivemos em Macapá como viviam as cidades da Europa no início da Revolução Industrial, no século XVIII: com esgoto a céu aberto e acúmulo de lixo. Das 325.542 pessoas que vivem em Macapá, 185.381 pessoas (55,9%) têm a situação indesejável do esgoto a céu aberto nas ruas onde residem e 51.287 pessoas (15,2%) ainda contam, em pleno século XXI, com lixo acumulado nas proximidades de suas residências, sujeitas a toda sorte de doenças, especialmente aquelas provenientes da sujeira, como a dengue.

Ainda segundo o Censo do IBGE de 2010, 63.771 pessoas vivem em Macapá em lugares inapropriados para residência, como as nossas ressacas. O maior aglomerado fica na “Baixada do Japonês”, com 10.508 pessoas ali residentes. O segundo é a “Ressaca do Muca”, onde moram 6.732 pessoas. Abstenho-me de falar da precariedade dos serviços públicos nesses lugares, para não ser repetitivo.

Dessas 63.771 pessoas que vivem nesses lugares insalubres, 35.010 pessoas vivem com uma renda per capita de até ½ salário mínimo. Não se assuste! A situação financeira das famílias no resto da cidade de Macapá não é diferente. Das 325.542 pessoas que residem em Macapá, segundo o IBGE (2010), 45.690 pessoas vivem com até ¼ do salário mínimo; 71.493 se sustentam com uma renda entre ¼ e ½ salário mínimo e 9.172 pessoas não têm qualquer rendimento. O desenvolvimento econômico e social do Brasil ainda não chegou em Macapá!

Esta é uma pequena radiografia da cidade de Macapá, que pede socorro àqueles que a amam. Poderia continuar falando da saúde, do lazer, do turismo inexistente, da falta de habitação, etc., porém os números são parecidos. A verdade é que 30 anos se passaram e pouca coisa mudou.

Como cidadão não gostaria de entregar a minha vida e a vida dos meus filhos, esposa, parentes, amigos e do povo de Macapá na mão de quem não tem condições de ser um bom líder e bom Prefeito. Além de um bom programa de governo, que enfrente os problemas acima apontados e que tire a cidade de Macapá do atraso político, econômico e social, colocando-a no século XXI, no meu entender o futuro Prefeito deverá possuir algumas qualidades:

1ª) ser comprometido e identificado com o povo de Macapá;

2ª) conduzir-se por princípios éticos, como transparência, honestidade e justiça;

3ª) ser um estadista, com capacidade de lidar com o poder – o dele e o dos outros – de forma construtiva e de usá-lo a serviço do todo e não em seu próprio benefício ou do seu grupo mais próximo;

4ª) deverá ser um educador capaz de desenvolver outros líderes, a ponto de, inclusive, tornarem-se melhores do que ele próprio, viabilizando a transição democrática;

5ª) deverá ser integrador e capaz de unir, conectar, harmonizar e parceirizar, a fim de estabelecer a paz e a estabilidade política tão necessárias para o nosso desenvolvimento;

6ª) ser visionário, isto é, que consiga ver oportunidades antes que todos, principalmente em meio às crises, dando direção clara ao processo de evolução de Macapá;

7ª) ser empreendedor, com capacidade para otimizar resultados, com criatividade na arte de fazer acontecer; e

8ª) ser adaptável e flexível, sem preconceitos e dogmas ideológicos, sob pena de não conseguir responder às demandas sociais com efetividade.

Dentro do Partido dos Trabalhadores defendi, juntamente com outros companheiros e companheiras, que o Partido tivesse uma candidatura própria com o objetivo de implantar em Macapá o modo petista de governar e trazer para o nosso município o desenvolvimento econômico, político e social que o Brasil vivencia nos últimos 10 anos. Entretanto, venceu a tese daqueles que defendiam que o maior partido do Brasil deveria, mais uma vez, ser ator coadjuvante e não ator principal da nossa história amapaense.

Sem o PT com candidatura própria à Prefeitura de Macapá, sinceramente, dentre os candidatos a Prefeito de Macapá que apresentam seus nomes para avaliação dos eleitores e eleitoras, o único que, no meu entendimento, possui as qualidades acima e tem condições de implementar um governo que mude a atual e triste realidade de Macapá, colocando-a no século XXI, é o candidato Clécio Luis, do PSOL.

Vejo em Clécio Luis, do PSOL, com o apoio do Senador Randolfe Rodrigues e dos Partidos aliados, a possibilidade de se implantar em Macapá uma nova forma de fazer política – não baseada em famílias, ideologias e práticas ultrapassadas, mas sim centrada no respeito ao ser humano. Vejo na eleição de Clécio Luis a esperança de que daqui há 30 anos poderei ver uma Macapá muito mais acolhedora, bonita e justa com os seus cidadãos e cidadãs amapaenses.

Diante das razões acima, sirvo-me do presente para requerer a V. Sa. licença e afastamento das atividades do Partido dos Trabalhadores, uma vez que não poderei apoiar a candidatura abraçada pelo PT à Prefeitura de Macapá, por contrariar as minhas convicções políticas como cidadão macapaense. Seguirei o meu coração e a minha consciência.

Macapá, 16 de agosto de 2012.

EVANDRO COSTA GAMA

  • Não conheço o cidadão em epigrafe, mas imagino que usou da RAZÃO quando tomou tal decisão. Os argumentos postos a análise de seus interlocutores são absolutamente perfeitos.

  • Sr. Evandro,se existir melhores razões p/sua escolha,elas ainda são futuristas.Tudo o que aqui foi esplanado condiz com a cruel realidade do nosso estado do Amapá.TRISTE,mas é a + pura verdade,o contra-choque(é isto mesmo),é o fator que mais pesa nas escolhas errôneas dos cidadãos e cidadãs amapaenses.A minha escolha bate c/a sua Sr. Evandro,pq vejo em Clécio o candidato que poderá dar um up-grade nesta Macapá.Costumo dizer que sempre fui PSBESTA,mas a escolha de Cristina Almeida(tenho-a como amiga de muito tempo), p/a PMM ao meu ver,foi equivocada.
    Acredito que chegou o momento do povo amapaense fazer uma reflexão do passado e presente e acreditar,acertar na escolha de quem irá fazer oque precisa ser feito, p/melhorar a vida deste povo e desta cidade e não a vida só de “alguns”.TUDO neste estado é de péssima qualidade,ou seja,a vida neste “planeta amapaense”,tá complicada.

  • Peça pra sair do PT antes de dar apoio a qualquer candidato que não seja da base aliada. O Governador já conhece esse tipo de gente, ainda bem que exonerou a tempo da Sec. da Saúde.

  • Diante do exposto, a razão pesou mesmo, um Homem que defende suas convicções sempre será respeitado, tem o meu respeito e meus parabens, precisamos de Homens como o senhor, apesar de não conhe-lo pessoalmente, é de pessoas assim que necessitamos de volta ao nosso querido estado do AMAPÁ.

  • Um bom conselho !!!

    O voto é um instrumento democrático, que define o futuro de um povo. Antes de conferir o seu voto, o eleitor deve pensar na sua família, nos amigos, nas crianças que se espelham nos adultos. O voto é inegociável, não tem preço e por isso, deve ser conferido, isento de pressões ou ofertas que contrariam a legislação eleitoral. A lei pune com até quatro anos de prisão, a quem vende o seu voto. Não caia nessa. Vote com consciência, movido pelo sentimento de brasilidade
    Ruy Guarani (Este sabe das coisas).

  • As decisões de cada ser humano deve ser respeitada, e a do Evandro Gama ainda mais, pela convicção de sua escolha. Ele seria o candidato a representar o PT nessas eleições, o único que teve apoio da deputada Dalva, mas que infelizmente o próprio partido fez questão de limá-lo assim como fez camilo qdo o exonerou do cargo de secretário de saúde. O senhor tem o meu respeito pela atitude e coragem de pedir pra se licenciar dO PT e apoiar o candidato que acha melhor, isso é democracia pra quem sabe o que isso significa. Cada um faz com sua vida o que quer e ninguém tem haver com isso, nem mesmo o Presidente do Diretório municipal do PT O SR. Barcelar que pretende puni-lo por essa decisão, vá enfrente e siga seu coração, o PT precisa de pessoas como o sr. e não de grupos como o da Vice governadora que entregou o PT, ou melhor vendeu o partido ao PSB, e hoje lota os órgãos com cargos e com medo de retaliação aceita as decisões dos capiberibes, esses sim, deveriam pedir pra sair do PT e que nao merecem respeito de ninguém. Parabéns senhor Evandro Gama pela atitude digna e honrosa que tomou.

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