Artigo de Zuenir Ventura no O Globo: “Espíritos de corpo e de porco”

Do  Jornal O Globo: Espírito de corpo indica a defesa intransigente de interesses próprios, às vezes ilegítimos, em detrimento dos alheios, adotada por um grupo ou uma confraria. É o princípio popular do “meu pirão primeiro” ou do “para os amigos tudo, para os inimigos a lei”. É o que baixa sobre o Congresso quando sofre críticas por algum malfeito, como agora na Comissão Parlamentar de Inquérito. Os espíritos de porco são os chatos que se voltam contra esse estado de coisas, os que desafinam o coro dos contentes – no caso, o coro da “tropa do cheque”. Desses chatos, os mais impertinentes são a imprensa e o ministério público. Mas os há também internamente, ainda que em número reduzido. O exemplo mais recente é o da ex-prefeita de SP Luiza Erundina, ao se recusar a ser vice da chapa de Fernando Haddad, que fez aliança com Paulo Maluf, que “representa o atraso e a falta de ética”.

No Senado, Pedro Simon talvez seja o mais antigo espírito de porco. O seu colega Randolfe Rodrigues é o mais novo, junto com o deputado Chico Alencar. Mas desse time quem mais irritou o esprit de corps parlamentar foi o deputado Miro Teixeira. Por causa de uma curiosidade. Ele quis saber se havia algum membro daquela comissão num certo encontro em Paris com Fernando Cavendish, investigado por supostas relações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira e então presidente da Delta, a construtora considerada inidônea pelo governo. Havia dois: o senador Ciro Nogueira e o deputado Maurício Lessa. Eles tinham participado oficialmente de uma assembleia em Uganda e, talvez por achar que o caminho mais rápido de volta de Kampala fosse pela capital francesa, aí ficaram de encontrar suas mulheres. Era a Semana Santa e, depois de uma viagem estafante à África, mereciam se divertir e comer bem (tinham embolsado US$ 1.750 de diárias cada). Ninguém é de ferro.

Não tendo mais como negar, Nogueira acabou confessando que de fato encontrara Cavendish num restaurante chique da exclusivíssima Avenue Montaigne (dessa vez ele estava sem guardanapo na cabeça), mas por acaso. E, apesar da declarada amizade, o senador alegou: “Nós só o cumprimentamos. Foi um encontro totalmente casual.” Seria apenas uma história mal contada, se não houvesse uma agravante: a convocação de Cavendish para depor na CPI foi barrada por 16 votos a 13. Acontece que Lessa não compareceu à votação e Nogueira simplesmente votou contra, ajudando assim o amigo sob suspeição a escapar de uma situação embaraçosa.

Tudo muito natural, tanto quanto o encontro afetuoso entre dois velhos inimigos e agora amigos de infância, Lula e Maluf, na casa deste. Aliás, esse encontro para selar a aliança não poderia se realizar em qualquer lugar fora do Brasil. Como se sabe, o deputado paulista será preso se pisar em outro país.

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