Aos Fatos. Falas de Bolsonaro levaram a queda no isolamento social entre seus apoiadores, aponta estudo

Do site de checagem “Aos Fatos” www.aosfatos.org 

Por Bruno Fávero

28 de abril de 2020, 11h18


Declarações do presidente Jair Bolsonaro levaram a uma queda na adesão de seus apoiadores às medidas de distanciamento social implementadas nos estados para conter o novo coronavírus. A conclusão é de um estudo em andamento assinado por economistas da FGV-SP (Fundação Getulio Vargas) e da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Os pesquisadores usaram dados de localização de celulares para comparar as variações no índice de isolamento em municípios brasileiros pró ou anti-Bolsonaro, classificados de acordo com os resultados das eleições de 2018. Eles descobriram que os níveis de adesão às quarentenas dos dois grupos são parecidos na maior parte do tempo, mas caíram em cidades bolsonaristas depois de duas falas do presidente, em 15 e 24 de março, em que ele criticou enfaticamente medidas de distanciamento.

O estudo ainda não foi publicado em periódicos, o que significa que o material ainda será avaliado por outros acadêmicos.

Em média, a queda apontada foi de um a três pontos percentuais, começando no segundo dia após o discurso presidencial e se mantendo por pelo menos uma semana, como mostra o gráfico abaixo.

Os pontos em laranja representam o nível médio de isolamento das cidades bolsonaristas em comparação às não-bolsonaristas (a linha cinza que os corta é a margem de erro). Se o ponto está em zero no eixo vertical, significa que os dois grupos tiveram o mesmo nível de isolamento; se está abaixo, quer dizer que os municípios pró-Bolsonaro tiveram, em média, menos adesão que o resto.

A classificação dos municípios foi feita de acordo com a proporção de votos obtida por Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018. Já a medida de isolamento se baseou no índice diário compilado pela empresa de tecnologia In Loco, que coleta dados de localização de 60 milhões de smartphones no país (veja mais detalhes sobre a metodologia no fim desta reportagem).

Para Nicolás Ajzenman, professor da FGV-SP e um dos autores do estudo, os dados mostram que discursos de líderes impactam diretamente na forma como as pessoas reagem à pandemia.

“A ideia por trás do artigo é de que líderes – o que eles falam, como eles agem – são importantes. Eles têm poder de convencimento, especialmente entre os seus apoiadores. Não estamos falando que o isolamento social é bom ou ruim, estamos apenas afirmando que, para o bem ou para o mal, o que um líder diz tem influência”, diz.

Mídia. No estudo, os autores também destacam o papel dos meios de comunicação no processo. Os efeitos do discursos de Bolsonaro sobre o isolamento foram significativamente maiores nas cidades com mais acesso à internet e que tinham ao menos uma emissora de televisão.

As conclusões corroboram estudos similares feitos nos EUA que apontam a influência da identidade partidária e da mídia na resposta da população à doença.

Uma pesquisa da Universidade da Pensilvânia, por exemplo, mostrou que a redução de contato social foi mais significativa em estados de maioria democrata (oposição ao presidente Donald Trump) do que em redutos republicanos (governistas).

Outra análise, da Universidade de Chicago, indicou que a incidência de Covid-19 pode ter sido afetada pelo conteúdo de programas jornalísticos. O estudo comparou os efeitos de dois programas de televisão do canal conservador Fox News: em um, o apresentador alertou desde cedo sobre o potencial de dano do novo coronavírus; no outro, minimizou os riscos da doença. O resultado foi que os locais onde a audiência do primeiro programa era mais alta tiveram menos casos da doença do que as regiões onde o segundo era mais popular.

Padrão de comportamento. Desde que a Covid-19 chegou com força ao Brasil e medidas de isolamento social foram adotadas, Bolsonaro tem contrariado recorrentemente as recomendações de especialistas. Segundo levantamento do Aos Fatos, o presidente já deu 193 declarações falsas ou distorcidas sobre a doença desde janeiro.

As falas de 15 e 24 de março, cujos efeitos foram medidos pelo estudo, são exemplos disso. No dia 15, Bolsonaro foi à porta do Planalto e cumprimentou apoiadores que faziam uma manifestação, contrariando as orientações de evitar aglomerações. Mais tarde no mesmo dia, em entrevista para a CNN, afirmou que as medidas de combate à pandemia beiravam à “neurose” e à “histeria”.

Já no dia 24, ele fez um pronunciamento em rede nacional em que minimizou os riscos da doença. Na ocasião, reclamou do fechamento de escolas, comparou a Covid-19 a uma “gripezinha” e previu, sem apresentar evidências, que o contágio seria menos problemático no Brasil porque o país tem clima predominantemente tropical.

Metodologia. Segundo os pesquisadores, esses dois momentos foram selecionados porque combinaram um tom enfático contra o isolamento com uma grande repercussão – ambos foram assunto de capa em todos os principais jornais do país.

Como mencionado, os pesquisadores se basearam no índice compilado da In Locopara medir o isolamento social. A empresa diz que coleta dados de localização anonimizados de 60 milhões de smartphones no país. Em sua metodologia, rompe o isolamento quem sair de um raio de 450 metros da sua casa. O índice de isolamento mostra qual porcentagem da população de uma cidade respeitou esse limite em um determinado dia.

O apoio a Bolsonaro em cada cidade foi determinado de acordo com a proporção de votos que o presidente teve em 2018 registrada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Três definições foram testadas e todas obtiveram resultados semelhantes. No gráfico mostrado nesta matéria, uma cidade pró-Bolsonaro é definida como aquelas em que o presidente teve uma porcentagem de votos maior do que a mediana de seu estado.

Também foram controladas outras variáveis que poderiam interferir nos resultados, como nível de rendimento e de urbanização da cidade de urbanização.

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