A Pavulagem da Política Amapaense

*Marco Antonio Chagas. Professor-Doutor da Universidade Federal do Amapá 

“Falar Tucuju: desde o tempo do ronca” é um glossário amapaense publicado em 2006 pelo engenheiro civil João Nobre Lamarão. É um dos meus livros preferidos e sempre está em cima de minha mesa de trabalho. Gosto de ressignificar as verdades acadêmicas, que de alguma forma representam o conhecimento colonial eurocêntrico, e Lamarão preenche “vazios culturais”, como prefaciam os “porretas” Fernando Canto e Gilberto Pinheiro. 

Uma das expressões que mais gosto é “pavulagem”. Lamarão a define como “vaidade, esnobação”. Eu acrescentaria “afirmação cultural”. A cultura da pavulagem é uma forma de afirmação de nossas vaidades ou das coisas que acreditamos como possíveis. 

Se tivesse que dar um exemplo da cultura da pavulagem escolheria o horário da propaganda política. É um momento em que os candidatos exercem a plenitude da criatividade do poema escrito em fantasias imaginadas ao avesso de uma realidade, semelhante a Dom Quixote ao duelar com os moinhos de ventos.

A pavulagem na propaganda política faz fronteira com a “potoca ou a menas verdade”, quando então invade o campo das ilusões autodeclaráveis que nos faz esperançar. São utopias que nos dividem entre o otimista ingênuo e o otimista trágico.

Algumas pavulagens se aproximam do ridículo, como a cena da Saraminda dançando Marabaixo para confundir a negritude amapaense. Mas o tipo mais presente na propaganda política é o “culhudo”, que segundo Lamarão é “aquele que entra sozinho na porrada, batendo espaiado” e “não tem um cu que o periquito roa”.

Não acredito na democracia do “caquiado”, aquela dos trejeitos exagerados que nos faz lembrar uma das máximas da ecologia de saberes tucujus: “cururu não caga trepado”. Enquanto a “fuleragem” do horário político não começa, dá licença que preciso ir à “retrete”. 

Minha homenagem a João Nobre Lamarão, que não o conheci em vida, mas sempre o revivo nas saudades de minhas origens. 

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