A pandemia em números: a frieza para esconder o sofrimento. Reflexões.

*José Cantuária Barreto – Promotor de Justiça 

 

 No início da pandemia ficávamos chocados com os caminhões transportando mortos na Itália. Tudo parecia surreal com 400, 500, 900 mortos por dia, UTIs lotadas, respiradores e medicamentos em falta e ambulâncias anunciando uma desgraça maior.

Em algum tempo, tudo se acalmou. As mortes reduziram, principalmente na Itália, Espanha e Reino Unido, após terem adotado medidas drásticas para a redução do contágio, enquanto o Brasil enfrentava apenas o início da pandemia com o seu sistema público de saúde imerso no caos, conduzido por um governo central resistente às medidas adotadas no mundo e em rota de colisão com os governos locais.

A fórmula da desgraça não poderia ser mais precisa e o resultado não foi outro: contêineres frigoríficos nas portas dos hospitais, corpos amontoados em salas, mortos ao lado de pacientes doentes em UTIs e centenas de valas abertas às pressas nos cemitérios, inclusive para enterros coletivos.

Um cenário de guerra que prenunciava o horror que jamais imaginávamos viver.

Mas, repentinamente e sem que a pandemia acabasse, as sirenes das ambulâncias silenciaram e, junto com elas, as covas nos cemitérios não foram mais vistas.

UTIs agora têm vagas para os doentes e os contêineres foram retirados das portas dos hospitais e não chocam mais.

Nada mais é novidade e paramos de mostrar até mesmo os que choram as suas perdas. Ficaram as imagens dos mortos no painel do maior jornal do país e homenagens pontuais a profissionais de saúde e a outras pessoas que perderam a batalha para o vírus.

O governo passou a contar os sobreviventes  e os mortos agora são apenas dados em gráficoscoloridos, estatísticas, média móvel. Explicamos a desgraça através de taxas, proporções, mortos por milhão, pois é mais fácil para disfarçar a tragédia, já que os números são menores.

É desconfortável admitir que aprendemos a esconder as mortes nos números e a colocar o sofrimento das famílias na conta corrente comum da pandemia, como se isso fosse possível. É um jogo de faz de conta do sofrimento coletivo, onde todos acreditam que sofrem pelo próximo, mas não se preocupam com nada além das suas próprias vidas. E seguem vivos e atuantes os que desprezam, banalizam a vida, sem o menor pudor, dos idosos, dos portadores de doenças graves, como se não merecessem mais viver.
Os negacionistas, aqueles que sorrindo dizem sentir muito e que afirmam que a morte é parte do processo, ainda estão por todos os lados e ignoram as vidas perdidas de hoje, mais de mil por dia, números maiores que durante o caos na Itália, que tanto nos assombrou.

Já são quase 120 mil mortos e chegaremos a 150 mil ou mais, certamente, numa tragédia lenta e dolorosa que parece não ter fim. Mortos há, por outras causas, que se juntam a tudo isso, mas ninguém se preocupa porque nos acostumamos apenas a contá-los em milhares e a lamentar nos jornais em números redondos que impressionam, como nos 50 e nos 100 milmortos.

Não importa se as mortes estão controladas em alguns estados pelo esforço de um ou outro governante, mas olhando o Brasil, País de dimensões continentais, mantemos uma estabilidade trágica diária. O vírus parece ter contaminado até mesmo a consciência daqueles que antes se importavam, pois ninguém mais se insurge contra nada. Retomamos a vida, a despeito da morte dos outros.

As notícias e torcidas pela recuperação se resumem aos doentes famosos. Os anônimos, a maioria, seguem sofrendo sozinhos e sem torcida, morrendo na solidão dos leitos, sem direito ao velório que anuncia a morte e permite as despedidas pelos que ficam, sem notícias, pois são apenas números.

Aprendemos a testar mais a doença, a atender melhor os pacientes, a comprar respiradores, mas não aprendemos o básico: a nos preocupar com o próximo, com o sofrimento individual, a ter empatia, a compreender que sem o esforço coletivo na prevenção e proteção, continuaremos, às escondidas e em silêncio, a contar corpos, a refrigerá-los, a transportá-los nos veículos fúnebres, sem sirenes, e a enterrá-los nas mesmas valas, que continuam sendo abertas, sob as solitárias lágrimas derramadas por quem perdeu um ente querido.
É o sofrimento e a solidão da dor que nenhum número jamais conseguirá representar.

  • Belo texto meu amigo José Barreto. Mostra o panorama, a realidade que estamos vivendo. Tempo difíceis. Como você diz sabiamente: é preciso cuidar do próximo e não venerar os números. Parabéns meu amigo.

  • Meu colega, você mostrou a visão do que todos estão passando, independente, classe social, de idade, de grau de escolaridade, a pandemia veio mostrar que todos somos iguais para ela. Infelizmente a frieza e o pouco caso de uns atinge a todos da mesma forma. Quando será que conseguiremos maior consciência e empatia para com o próximo!

  • Excelente texto amigo Barreto, o que me dói quando pessoas dizem que a maioria dos mortos eram pessoas com doenças pré existes , como se essas pessoas já merecessem morrer .

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