Lúcia Hippólito
Em política, dizia o dr. Ulysses Guimarães, só existem dois fatos importantes: o fato novo e o fato consumado.

O fato consumado era a inevitabilidade de uma disputa plebiscitária entre governo e oposição nas eleições de 2010.

Essa era a principal estratégia do presidente Lula para eleger Dilma Rousseff: transformar as eleições presidenciais num plebiscito sobre o seu governo.

Tamanha é a confiança de Lula no próprio taco, que abraçou o projeto: gostou do meu governo? Eleja Dilma.

Não gostou? Eleja Serra (ou Aécio).

E o presidente não tinha a menor dúvida do resultado. A tal ponto que declarou mais de uma vez que seu desejo era liquidar a fatura no primeiro turno.

Pois Lula vai precisar rever seus planos. O fato novo apareceu. E atende pelo nome de Marina Silva.

Convidada a se transferir para o PV e se candidatar à presidência, a doce senadora pelo Acre balançou.

Ainda não se decidiu, mas a notícia foi suficiente para embaralhar inteiramente o jogo para 2010.

Começa que Marina não é a típica oposição a Lula. Bem ao contrário, é sua companheira de militância no PT há muito mais tempo que Dilma Rousseff.

Ministra de Lula durante o primeiro mandato, símbolo mundial da luta em defesa da Amazônia, perdeu a parada para Dilma Rousseff, mas não se tornou uma dissidente raivosa como Heloísa Helena.

Tem mantido posições firmes no Senado, opõe-se à aliança espúria com o pior do PMDB, assinou a carta pelo afastamento de José Sarney.

Está fazendo tudo certo.

Em segundo lugar, Marina tira de Dilma a “candidatura de gênero”. Os marqueteiros terão que mudar a tese de que “o Brasil está maduro para ter uma mulher na presidência”.

Terceiro, uma eventual candidatura Marina Silva traz oxigênio a uma campanha que já estava marcada pela mesmice. Agrega qualidade ao debate. Espanta as teias de aranha.

Serra e Dilma não têm muitas diferenças. Autoritários, carentes de carisma, sabichões, ambos são partidários de uma forte presença do Estado, ambos são críticos da política monetária praticada pelo Banco Central.

O que Serra e Dilma pensam sobre energias alternativas, desenvolvimento sustentável, aquecimento global, economia verde?

Ninguém sabe.

A simples possibilidade de ter Marina Silva na disputa já perturbou articulações para a montagem de palanques estaduais, tornou obsoletas as estratégias urdidas tanto no Planalto quanto nas oposições.

Ciro Gomes já não quer mais concorrer em São Paulo para manter o caráter plebiscitário da eleição presidencial. Já pensa em concorrer à presidência.

Dilma Rousseff faz declarações públicas de apreço a Marina Silva – apreço, diga-se de passagem, que Dilma desprezou quando derrotava seguidas vezes Marina Silva no governo.

Em suma, o Planalto acusou o golpe.

Os próximos passos serão emocionantes.

Uma coisa é certa. O fator Marina Silva injetou oxigênio numa campanha que se anunciava chatíssima e está trazendo de volta o entusiasmo dos jovens pela política.

A coisa promete.