Por Heraldo Costa, Juiz de Direito

Os de Calçoene dizem que foi em Amapá, os de Amapá dizem que foi em Calçoene. Eu não afirmo nada, sou neutro.
Mas o certo é que, lá pelos idos dos anos 50, quando por estas paragens governava o Oficial do Exército Brasileiro, politico e estadista, lider escoteiro, Janary Gentil Nunes, ocorreu um ‘causo’ interessante que passo a lhes relatar.
Falando no lendário Janary Nunes, muitos vão lembrar dele como primeiro Governador do Amapá etc e tal, que tomou posse em 25 de janeiro de 1944, com 31 anos de idade, no novo Território Federal do Amapá, criado em 13 de setembro de 1943.
Mas aos menos avisados, informo que sua escolha para vir às terras tucujú não se deu por mero acaso. Ele já conhecia este rincão setentrional e naquele momento era a pessoa mais preparada para vir ser Governador. Como?
Primeiro porque ele era um amazônida, nascido em Alenquer-PA, em 1912. Estudou em Belém o curso secundário, concluindo aos 18 anos, indo cursar a Escola Militar do Realengo no Rio de Janeiro, próximo onde ocorreu a chacina das crianças/alunos no dia 07 de abril de 2011.
Segundo, porque em 1938, já promovido a Major, ele está no comando do Pelotão de Fuzileiros de Oiapoque, nossa fronteira com a Guiana Francesa.
Terceiro, porque durante a Segunda Guerra Mundial, precisamente no período de 1942 até assumir o Governo do Território do Amapá, Janary Nunes assume a Primeira Companhia Independente de Metralhadoras Anti-Aéreas, incumbida de defender a Base Aérea de Belém do Pará.
Ainda, só à título de informação pra estudantada, Janary casou em primeiro matrimônio com Iracema Carvão Nunes (nome da avenida do CA), que faleceu no Amapá, segundo consta vitimada pela malária, um ano e meio depois da chegada. Janary casou, em segundo matrimônio, com a cunhada, Alice Déa Carvão Nunes.
Só pra finalizar, Janary Nunes deixou um legado de obras essenciais para o Amapá. Pra se ter uma idéia, o Hospital Geral que serve à população do Amapá foi construído na gestão dele. E la vai outras realizações: Construiu a Escola Barão do Rio Branco (situado na praça do mesmo nome); o Ginásio de Macapá (hoje Escola Integrada de Macapá), Escola Doméstica (Hoje Escola Estadual Santina Riolli) e o Instituto de Educação do Amapá (IETA) dentre outras.
Macapá começou a perder a feição de vila no Governo dele, pois deu início ao ordenamento urbanístico da Capital. Foi, ainda, no seu governo que foi conseguida a aprovação do projeto de construção da Usina Hidrelétrica que veio depois a ser batizada com o nome do irmão Coaracy Nunes, que foi Deputado Federal.
Após deixar o Governo do Amapá chegou a ser Presidente da Petrobrás e Deputado Federal, findando sua carreira política ao perder a eleição para um jovem de discurso empolgante chamado Antonio Cordeiro Pontes.
Pois bem. Mas não foi pra fazer biografia de Janary Nunes que vim aqui. Bom de biografia e história é o professor Nilson Montoril. Eu só conto ‘causos’.
E foi durante uma das muitas viagens de Janary Nunes ao interior do Amapá que se sucedeu esse.
Ao chegar numa casa, muito pobre, Janary e sua comitiva bateram palmas e lá vem um moleque com ar da esperteza da gente do interior.
– Sim sinhô, quem são vocês?
– Somos da comitiva do Coronel Janary, Governador do Amapá. Apressou-se a responder um dos assessores.
Sem ter entendido nada o moleque responde: – A mamãe num tá, mas se quiser vou chamar. Ela tá lá pra beira do rio lavando roupa.
– Precisa não menino, tem uma água pra nos servir. Disse Janary.
– Não tem. A água do pote a mamãe só vai encher de noite. Mas tem uma gamela cheia de garapa.
– Então pode servir pra gente que tamo com sede.
O moloque correu, pegou uma ‘cuia’ grande no ‘girau’ e começou a servir toda a comitiva com muita presteza.
Depois de todos servidos, Janary vendo a esperteza do menino pergunta se ele estudava, se sabia ler, recebendo respostas negativas.
Já na saída da comitiva, com a ‘cuia’ ainda na mão degustando a garapa, Janary pergunta ao moloque se não seria necessário deixar algum dinheiro pela garapa que foi tomada.
– Precisa não sinhô, a mamãe já tinha mandado eu jogar fora essa garapa pois de manhã um rato caiu dentro dela.
– Moleque sem-vergonha, como é que tu dá uma garapa que rato caiu dentro. Não tô que dou com essa ‘cuia’ na cabeça.
O moleque matreiramente respondeu: – Não faça isso, que essa ‘cuia’ é da mamãe mijar de noite dentro.
Sem outro jeito, toda a comitiva caiu na gargalhada.
Reza a lenda que Janary trouxe esse moleque esperto pra Macapá, providenciando pra que ele estudasse, se formasse e ainda chegou a ser funcionário público.
É só.