Por Marco Chagas – Geólogo, Doutor em Desenvolvimento Sustentável

A Eletronorte, em parceria com o Governo do Amapá e tendo como contratada a empresa Hydros, realizou na década de 90 os estudos de inventário do potencial hidrelétrico da bacia do rio Araguari e das sub-bacias do norte do Amapá. Os estudos indicaram a viabilidade de seis aproveitamentos hidrelétricos: 1) Ferreira Gomes; 2) Coaracy Nunes II: 3) Cachoeira Caldeirão; 4) Bambu; 5) Água Branca e; 6) Porto da Serra, totalizando 602 MW de energia (Tabela 1). Nos demais rios foram inventariadas 13 pequenas hidrelétricas, num total de cerca de 63 MW de energia

Tabela 1. Hidrelétricas inventariadas no rio Araguari, Estado do Amapá

Hidrelétrica Ferreira Gomes

153 MW

Hidrelétrica Coaracy Nunes II

104 MW

Hidrelétrica Cachoeira Caldeirão

134 MW

Hidrelétrica Bambu

84 MW

Hidrelétrica Porto da Serra

54 MW

Hidrelétrica Água Branca

73 MW

Total

602 MW

Fonte: Eletronorte (1999)

As hidrelétricas estudadas foram identificadas e ordenadas levando-se em consideração a viabilidade energética e ambiental dos projetos, como por exemplo a distância das Unidades de Conservação. O Amapá apresenta um grande número de Unidades de Conservação em seus domínios, o que implica num cenário de relativo conflito entre as restrições legais impostas por essas áreas e projetos de desenvolvimento, como mineração, hidrelétrica, etc.

Sob essa condição, a hidrelétrica Ferreira Gomes foi a que apresentou menor impacto sobre as Unidades de Conservação, seguido das hidrelétricas Cachoeira Caldeirão e Coaracy Nunes II, esta última trata-se da repotenciliazação da usina homônima operada pela Eletronorte desde 1976.

A integração do Estado do Amapá ao Sistema Interligado Nacional (SIN) pelo Linhão de Tucuruí, previsto para 2013, motivou o setor empresarial a reavaliar a viabilidade dos inventários hidrelétricos identificados com vistas a criar condições legais para a realização de leilão de geração de energia pela ANEEL, como aconteceu com a hidrelétrica Ferreira Gomes vencida pelo Grupo Alupar.

Segundo a lógica de operação em longo prazo, a integração do Amapá ao SIN favorecerá o intercâmbio da energia gerada pelas hidrelétricas a serem construídas com hidrelétricas localizadas em outras regiões, permitindo assim, que no período de baixa geração o Amapá seja suprido por outras unidades do sistema, favorecendo políticas de redução do uso da geração termoelétrica a óleo diesel, o que é positivo para o meio ambiente.

Matriz Energética do Amapá

A matriz energética do Amapá é caracteristicamente hidrotérmica, constituída pela hidrelétrica Coaracy Nunes, a primeira barragem construída na Amazônia, inaugurada em 1976, e um Parque Térmico formado por um conjunto de geradores a diesel instalados na cidade de Santana. A geração térmica a diesel é responsável por 70% da energia gerada no Amapá (Tabela 2).

Tabela 2. Matriz Energética do Amapá

Usina

Localização

Geradores

Tipo

Combustível

Potência Gerada MW)

Termoelétrica Santana

Santana

3 LM2500

4 WARTSILA

SoEnergy*

TG

GD

GD

Óleo diesel

Óleo diesel

Óleo diesel

3 x 18 = 54,0

4 x 15 = 60,0

45,0

Total

159,0

UHE Coaracy Nunes

Ferreira Gomes (Rio Araguari)

3

Kaplan

2 x 24,0

1 x 30,0

Total

78,0

Total Geração

237,0

No processo de geração de energia termoelétrica no Amapá a principal matéria-prima utilizada como combustível é o óleo diesel, cuja queima gera uma série de problemas ao meio ambiente. A quantidade e o tipo de efluentes gerados no processo variam conforme a tecnologia utilizada, mas em geral predominam gases e material particulado.

O consumo de óleo diesel pelo Parque Térmico de Santana é bastante elevado e dispendioso. Estima-se que esse consumo seja da ordem de 600.000 a 1.000.000 litros/dia. Não existe uma análise das emissões de CO2 do Parque Térmico de Santana segundo procedimentos metodológicos definidos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). A Abordagem de referência do IPCC fornece uma estimativa rápida do total de emissões de CO2 a partir do suprimento de combustíveis para o país, mas não detalha as emissões por setor. O Ministério da Ciência e Tecnologia disponibiliza no site relatórios de inventários de emissões antrópicas de gases de efeito estufa provenientes de diferentes fontes energéticas.

Existe ainda muita controvérsia quanto à quantidade de gases-estufa que é trocada entre o sistema Atmosfera-Terra, devido, em suma, às incertezas de natureza metodológica e do conhecimento incompleto sobre o acoplamento entre diferentes componentes dos sistemas.

Entretanto, a opção de tecnologia de geração hídrica em detrimento de fonte térmica a diesel é uma medida importante para reduzir as emissões de gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global (principalmente dióxido de carbono).