Garimpo do Lourenço: as contradições do Estado brasileiro

*Marco Chagas – Professor. Doutor em Gestão Ambiental.

Não poderia deixar de me manifestar sobre a situação dos Garimpos do Amapá, pois iniciei minha vida profissional pela SEMA realizando visitas técnicas periódicas ao Lourenço, Tartarugalzinho, Vila Nova e Amapari. Nessas duas últimas áreas, em 1993, coordenei o diagnóstico dos garimpos e garimpeiros, ultimo projeto executado pelo Governo Federal com objetivo de conhecer a realidade da atividade garimpeira na Amazônia.

Ao longo desses anos de experiências vividas minhas inquietações sobre o garimpo só aumentaram. Apesar das leis, não existe uma lógica para explicar o que significa o trabalho no garimpo, que considero muito pior que a escravidão. O garimpeiro é um pós-escravo que o Estado priva de qualquer política pública. Nos garimpos do Amapá conheci garimpeiros de 20 anos que pareciam ter 50. Jovens, analfabetos e sem outra perspectiva de vida que não seja a apuração do barranco.

Com relação ao Garimpo do Lourenço, é bom lembrar, faz parte da história nacional, tanto pelo pioneirismo da ocupação da fronteira norte do País, quanto pela inspiração poética do romance Saraminda. A primeira condição se refere à defesa do Barão do Rio Branco, em Berna/Suíça, no final do século XIX, que possibilitou a existência do Amapá. A segunda, Saraminda, narra a história da descoberta do ouro de Calçoene e da vida amorosa, mas também desumana, dos garimpeiros que transitam entre o Amapá e a Guiana Francesa.

Pois bem, o Garimpo do Lourenço passou a ser tratado pelo Estado brasileiro como terra sem lei, de destruidores do meio ambiente, a qual prefiro denominar de “realidade fingida”. Para quem conhece a história do Lourenço, sabe que os impactos ambientais causados no Lourenço não se devem somente aos garimpeiros, mas também e, principalmente, a atuação das mineradoras que, entre 1984 e 1994, operaram no Morro do Salamangone e nas bacias dos igarapés Lataia, Mutum e Labourie, tributários que formam as nascentes dos rios Calçoene e Cassiporé.

No Governo Capiberibe, com apoio do MPF e MPE, houve tentativa de organizar os garimpeiros do Lourenço e transformar a região num Polo Joalheiro. A iniciativa era promissora, mas o tempo da política não deixa as coisas acontecerem nesse País. Assim, o Garimpo do Lourenço, uma das mais antigas frentes de mineração artesanal do Brasil, orgulho da ocupação pioneira da fronteira norte brasileira e cenário de Saraminda, agora, sob a ótica contraditória do Estado brasileiro, virou terra de crime e de criminosos.

  • É bom lembrar que quando a Novo Astro saiu do Amapá deixou uma mina implantada com toda a infraestrutura necessária de uma mineradora que foi repassada ao Estado e aí danou-se. Até hoje ainda se encontra mapas de cubagem pregados tapando janelas quebradas. Ora o que não mais servia para a empresa servia sim para o estado. Aí o estado é principal culpado do vem ocorrendo no Lourenço, que entregou na mão dos humildes garimpeiros.

  • Assunto muito polêmico.
    Escravidão? Nem tanto, todos se submetem a condições de vida precária, por livre vontade, na ancia de ficar rico
    (bamburrar), o que é muito difícil acontecer. As autoridade tem que usarem os meios que o curió e o governo federal fez em Serra pelada.
    Melhora, mas não existe organização em garimpo de áreas públicas. (Principalmente sem pessoal qualificado para tratar com o garimpeiro e fiscalizar o garimpo. Nem o barão é tão pouco o sarney não imaginaram o embrólio!

  • Concordo com o Edyr. O garimpeiro é um guerreiro, um lutador que derrama sua última gota de sangue na esperança louca do bamburro. Jamais um escravo! É tão livre, que escolhe morrer nas condições mais desumanas que podem existir, mas não desisti do sonho de encontrar o que procura. Infelizes essas autoridades que acham que trabalham como escravos!

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