Por Wagner Gomes, advogado

O meu amigo advogado Ronaldo Serra Alves, é um assíduo freguês do Bar do Abreu, desde os tempos do canto da COBAL. Eu, particularmente, a convite do inesquecível Hélio Pennafort, meu parceiro da extinta Rádio Educadora, também me tornei um, e vez por outra lá apareço. O bar tem uma legião de frequentadores fiéis que lhe acompanham onde quer que ele se localize. Atualmente, está situado em uma das salas da famosa Galeria Comercial, da av. FAB. O recinto, propriamente dito, não é nada confortável. Mas possui algo mágico, reunindo pessoas completamente diferentes. Lá podem ser vistos juntos e frequentemente: advogados (as), juízes (as), promotores, jornalistas, delegados de polícia, médicos, dentistas, artistas, músicos, pinguços, jogadores de futebol,noiados, “facadistas”, lésbicas, gays e até foragidos de justiça. Todos deixam do lado de fora do Bar os seus títulos e passam a ser simples frequentadores do Bar do Abreu. No último “réveillon” do ABREU, sentados em uma mesa, eu, Ronaldo Serra, João Lamarão, Evaldy Motta, Luiz Melo, Renivaldo Costa, Fernando Canto, Vicente Cruz, Fernando França, José Caxias, entre outros, comentávamos os acontecimentos e as figuras emblemáticas que fazem o Bar do Abreu. Concluímos: dá uma verdadeira poesia.

E foi pensando nessa poesia, ainda não escrita, que lembrei de uma descrição do “La Rotonde” feita por Ilya Ehrenburg, em suas Memórias – Vol 1 – Infância e Juventude – 1891/1917, demonstrando que determinados bares possuem algo de magia:

– O café parecia-se com centenas de outros. Junto ao balcão de zinco, choferes de táxi, cocheiros e criadas tomavam café ou aperitivos. Atrás havia uma sala escura, impregnada para sempre de fumaça de cigarro, e onde havia dez ou doze mesinhas. A sala enchia-se ao anoitecer; havia barulho permanente: discutia-se pintura, declamavam-se versos, debatia-se o problema de onde conseguir cinco francos, brigava-se, faziam-se as pazes; alguém ficava bêbado e era arrastado para fora. Às duas da madrugada, La Rotonde se fechava por uma hora; de quando em vez,o dono permitia aos velhos frequentadores, se eles se portavam decentemente, passar àquela hora na casa vazia e escura: era uma transgressão das normas policiais; às três, o café reabria e podiam-se continuar as conversas nada alegres. O seu proprietário era Libion, um taverneiro gordo e bonachão, que adquirira um pequeno café; casualmente, La Rotonde se tornara o estado-maior de uns tipos originais, que falavam diferentes línguas. Libion a princípio olhava torto para os seus tão estranhos clientes: ao que parece os tomava por anarquistas. Depois acostumou-se a nós, afeiçoou-se. Libion nunca se seduziu por pinturas, preferia ganhar dinheiro vendendo bebidas, embora que às vezes aceitava um desenho de Modigliani por dez francos: os pires já formavam montanha diante dele, e o coitado não tinha um cêntimo sequer. De quando em vez, Libion punha cinco francos na mão de um poeta ou de um artista dizendo zangado: “Procure uma mulher, pois você está com uns olhos loucos.” Uma guimba apagada enfeitava-lhe invariavelmente o lábio inferior. Andava geralmente sem paletó, mas de colete. A aparência dos visitantes devia também deixar surpreendidos os profanos. Ninguém, por exemplo, é capaz de descrever com precisão como se vestia Modigliani; nos períodos de abundância, usava uma japona de veludo claro e um lenço vermelho no pescoço; mas, quando passava muito tempo bebendo, na indigência e na doença, ficava envolto em trapos de cores vivas. O pintor Fujita andava numa túnica de pano feita à mão. Diego Rivera assombrava a todos com o seu cajado mexicano esculpido. Sua amiga, a pintora Marevna (Vorobiova-Stiélskait) gostava de trajes coloridos e tinha uma voz alta e penetrante. O poeta Max Jacob residia em Montmartre, na outra extremidade de Paris; vinha de dia já em traje de noite, brilhava-lhe o peitilho níveo da camisa e estava sempre de monóculo. Um índio de penacho na cabeça exibia seus trabalhos em pastel. A negra Aicha jogava para trás a cabeça grande, coberta de pixaim negro-azulado, dava gargalhadas tempestuosas; os dentes faiscavam-lhes na penumbra. O escultor Zadkin aparecia em roupa de trabalho, acompanhado de um enorme cão dinamarquês. Seguindo o seu costume, a modelo Margot despia-se; uma vez, ela me disse que o seu sonho era tornar-se rainha; espantei-me, e ela explicou: Bobinho! É que cada um tem vontade de violentar a rainha. Devo confessar que eu não ficava atrás dos demais. Uma vez Alekseis Nicolaiévitch mandou um cartão para o café e escreveu em lugar do meu sobrenome: Au monsier mal coiffé. “Ao senhor mal penteado” e o cartão me foi entregue. Os freqüentadores do La Rotonde permaneciam ignorados além de suas fronteiras. Apollinaire às vezes aparecia na Rotonde e eu traduzia seus versos. Uma vez propôs que se escrevesse um mistério sobre a serpente, a maçã e Picasso: na qualidade de espanhol supersticioso, Pablo não podia sequer ouvir a palavra cobra. A vida no Rotonde era bastante monótona; mas às vezes ocorriam acontecimentos que depois se comentavam durante alguns dias. Kisling e Gottlieb lutaram em duelo, e Diego foi um dos padrinhos. Lembro-me de uma vez em que um pintor sueco estava sentado comigo; a todo momento pedia uma porção dupla de conhaque; sobre a mesinha, ostentava-se todo um poste de pires. O conhaque não impedia de ler com atenção o SvenskaDablat, que lhe escondia o rosto. De repente o jornal caiu, e constatou-se que o sueco morrera. Veio à polícia, e nos dispersamos calados, cada um para sua casa. De uma feita um espanhol enorme ficou furioso, agarrou pela perna uma mesinha de mármore e começou a balançá-la no ar, gritando que ia matar a todos, pois estava enojado da vida. Recuamos para o balcão. Libion tinha um princípio firmemente assentado: nunca chamar a polícia. O espanhol inesperadamente sorriu, pôs a mesinha no lugar e disse: “E agora podemos beber à saúde da vida número dois.” Íamos à  Rotonde, porque sentíamos atraídos uns pelos outros. Não eram os escândalos que nos seduziam; não nos inspirávamos sequer com ousadas teorias estéticas; simplesmente nos arrastávamos uns atrás dos outros: aproximava-nos a sensação de um estado comum de desconforto.

P. S.: Ilya Grigoryevich Ehrenburg (27/01/1891 – 31/08/1967) foi um escritor e jornalista soviético nascido na Ucrânia. O “La Rotonde” foium famoso boteco parisiense.

 

Wagner Gomes