Por Manoel Torres

Manoel Torres, Teko Lemos e presidente França. Outros e tantos carnavais

Com referência a matéria sob o título: “Mas Chuta Mesmo. É Macumba da Braba”, postada neste Blog, de autoria do amigo Alcione Cavalcante, Conselheiro do Piratão, pessoa que muito admiro pela coerência, e sua capacidade demonstrada na solução de conflitos surgidos dentro da escola, quando por várias gestões exerceu com moderação o cargo de presidente da Assembléia Geral da Escola, venho de público corroborar com os seus pontos de vista.

Com referência a alguns comentários que tenho lido, na qualidade de freqüente visitante deste Blog, alguns deles depreciativos a gloriosa história de Piratas da Batucada, venho solicitar a publicação da presente exposição, no sentido de dar conhecimento, principalmente ao público formado por pessoas mais jovens, sobre parte da história do nosso carnaval.

Em primeiro lugar, como meu relato se destina a esse público que acima citei, permitam que me identifique levando em conta minha relação com o carnaval.

Participo de Piratas da Batucada desde o primeiro ano do seu retorno (1973), após uma ausência do carnaval por um período de dez anos, em razão de desentendimento dos diretores daquela época, com o carnavalesco, renomado artista plástico, saudoso R. Peixe, o grande líder da escola nos seus primeiros anos de existência.

Iniciei minha militância nos Piratas da Batucada, na condição de ritmista da sua contagiante bateria nota 10, comandada pelo competente saudoso Luiz do Apito, pai do Carlinhos Bababá, hoje, mestre da bateria de Boêmios do Laguinho, integrante da primeira linha de mestres do nosso carnaval. Carlinhos Bababá foi também, ritmista de Piratas da Batuca, na oportunidade comandada pelo saudoso mestre Monteiro.

A convite do então Presidente Anacleto Ramos, passei a integrar a Diretoria de Piratas da Batucada, no final da década de 70, onde desempenhei várias funções,  sempre com muita dedicação e amor, dentre as quais, a de secretário, presidente da Assembléia Geral, diretor administrativo, diretor geral de evolução e harmonia, membro da comissão de carnaval, conselheiro representante junto a LIESA, e ultimamente na honrosa condição de integrante do quadro de Conselheiros Natos.

Piratas da Batucada foi e será sempre a primeira e única escola da minha paixão durante eu viver.

No meio da comunidade carnavalesca, tenho mantido um comportamento que contribua para a preservação das amizades que conquistei junto a tantas pessoas (carnavalescos) integrantes de outras agremiações, em razão de ter agido sempre com respeito e moderação, mesmo diante de tantas emoções que o carnaval nos proporciona.

Dispenso grande respeito e admiração por todas as escolas, pois considero que cada uma, representa uma partícula importante na composição desse conjunto que tem o objetivo de proporcionar, sempre, uma grande festa a cada desfile do carnaval.

Em razão da minha respeitosa relação dentro do carnaval com os amigos que angariei, recentemente, tive a grande honra de ter meu nome envolvido num movimento liderado pelos amigos de Boêmios do Laguinho, liderado pelo menestrel Francisco Lino, para que viesse a disputar a presidência da Liga das Escolas de Samba, o que não se consumou em razão de manobras que prefiro não revelar no presente momento.

Feitas essas considerações, passo aos fatos. Piratas da Batucada antes de 1986, excetuando-se o ano de 1962, quando sob o comando do carnavalesco artista plástico, o renomado Raimundo Braga de Almeida (R. Peixe), um dos maiores carnavalescos que já tivemos, a escola conquistava 11 troféus, dos 12 disputados.

Piratas da Batucada por algum tempo, participou do carnaval, como simples coadjuvante, já que protagonistas dessa festa eram Boêmios do Laguinho e Maracatu da Favela.

A partir de 1986, sob a presidência do jovem Carlos Sérgio, hoje diretor da EMTU, através de seu convite, Raimundo Roberto Monteiro, ligado ao Império Pedreirense, recém chegado de Belém do Pará para residir em Macapá, viria a figurar como o carnavalesco responsável pela produção da escola para o desfile no carnaval de 1986. Iniciando-se aí, uma nova fase para a Escola no carnaval amapaense, passando, também, a protagonista.

Na sua condição de carnavalesco, Roberto Monteiro introduziu profundas novidades nos desfiles de Piratas da Batucada, que logo passariam a influenciar na evolução dos desfiles do nosso carnaval, fato este, reconhecido por carnavalescos das outras escolas concorrentes.  Com a influência que Roberto Monteiro passava a exercer no carnaval amapaense, Monteirinho, como era carinhosamente chamado, foi um dos grandes responsáveis para a fundação da Associação das Escolas de Samba do Amapá, da qual foi seu primeiro presidente, hoje, Liga das Escolas de Samba.

Já em 1986, pelas novidades apresentadas por Piratas da Batucada, indubitavelmente, a escola foi merecedora do título daquele carnaval, o que acabou não acontecendo.

Mas vejamos então, algumas dessas novidades introduzidas nos desfiles de Piratas da Batucada, a partir de 1986, que passo a expor:

1        – Desfile no sentido literal do termo, sem qualquer parada na avenida. Nessa época as apresentações dos quesitos se davam somente em frente ao palanque oficial que até hoje existe na Avenida FAB;

 

 

2        – Exploração de outras cores compatíveis ao desenvolvimento do enredo, sendo que as oficiais da escola são: amarela, vermelha, azul e branca. As escolas quando passaram a desfilar por algum tempo utilizavam somente as suas respectivas cores;

 

3        Comissão de frente formada por lindas mulheres da nossa sociedade, usando pequenas peças, deixando exposta toda a beleza corporal feminina, quando tradicionalmente as comissões eram formadas por pessoas do sexo masculino, trajando o tradicional fraque e cartola;

 

 

4        Comissão de diretores, responsável pela evolução e harmonia da escola durante o desfile, o que não acontecia com as demais escolas, já que as apresentações se concentravam em frente ao palanque oficial.

Um pouco mais tarde, por volta do início da década de 90, seria introduzida a quinta novidade, compreendida no andamento do samba de enredo, que passava ter um andamento mais acelerado visando motivar a empolgação dos brincantes na avenida.

Outro fato influente para o sucesso de Piratas da Batucada, foi o estabelecimento de um intercâmbio com centros produtores de grandes desfiles, casos do Rio de Janeiro e Belém, buscando a acumulação de conhecimento dos militantes produtores de Piratas da Batucada.

Em razão desse intercambio, a escola passaria a ter seus sambas de enredo compostos, inicialmente por compositores do Rio, dentre os quais, Ivo Meirelles da Mangueira, Preto Jóia e Djalma Blanc da Imperatriz.

A partir de 1993, com o enredo “O negro que veio da várzea”, explorando uma lenda indígena sobre o açaí, a escola passava a contar com a parceria dos compositores paraenses, Dio, Magé e Ademar Carneiro, sendo que Ademar Carneiro passaria a ser o intérprete oficial da Escola.

Em 1992, quando a escola apresentou o enredo “Chuva, dádiva da natureza”, Ademar Carneiro gravou o samba em disco vinil, sua primeira participação como intérprete.

Com a participação dessa parceria, Piratas da Batucada conquistou a maioria dos seus títulos.

Outros influentes carnavalescos do Rio de Janeiro vieram a Macapá, patrocinados pelo então patrono da Escola, o influente empresário, Zequinha Gemaque, já falecido.

Pra Macapá vieram Dona Zica e Ivo Meirelles, hoje Presidente da Mangueira, Preto Jóia, cantor e compositor; Luizinho Drumond, presidente de honra da Imperatriz, trazendo em sua companhia diretores de harmonia da Imperatriz; Samuca da Mangueira, autor do enredo “Águas de Menino”, apresentado pela escola no carnaval de 1988.

Esse procedimento da diretoria de Piratas da Batucada, que passava envolver carnavalescos de outros centros nos seus desfiles, foi muito combatido por integrantes das outras escolas de samba por considerar que a escola deixava de prestigiar a chamada “prata da casa”.

Por outro lado, a participação desses carnavalescos, refletiu na conquista de vários títulos, dentre os quais, um record de pentacampeão (1987-1991). Logo, para a escola o intercâmbio, juntamente com a participação desses carnavalescos, estava dando certo.

Em razão do sucesso, a escola passava a ser denominada de “Piratão”, termo brotado do povão, em razão do sucesso da escola, pelo grande contingente de brincantes e de, no mínimo 6 alegorias que a escola passava a apresentar nos seus desfiles em relação às demais. Não restou outro “remédio” aos responsáveis pelas escolas concorrentes, passaram então, a copiar o procedimento de Piratas da Batucada, já que a escola vinha progressivamente aumentando a dianteira em relação às outras.

Outro grande fato a destacar, foi a utilização pelo carnavalesco Monteiro, da pessoa carismática do principal folião da escola, Manoel Ferreira (o Biroba), como enredo no carnaval de 1987, que deu ao Piratão o primeiro título, já na segunda fase da sua história.

“Biroba, o maquinista do Trem da Alegria”, foi o título do enredo, cujo samba é de autoria do nosso poeta e compositor Fernando Canto e a gravação em disco vinil, de Aureliano Neck. Vale ressaltar, que a escolha da pessoa do Biroba como enredo, além da homenagem, teve outro objetivo estratégico, o de utilizar o carisma do homenageado para o trabalho que visou aglutinar as forças populares do bairro do Trem, em apoio a Piratas da Batucada

O carnaval da escola em 1987 teve a coordenação de uma Junta Governativa, composta pelo próprio Monteiro, Zuza (falecido), Edson Gurjão e este amigo que lhes faz este relato. As forças populares tinham como principais integrantes (AVRA, Trem Desportivo Clube, Ypiranga Clube, MV-13, Grupo de Escoteiros do Mar Marcílio Dias, Associação Solteiros e Casados, blocos carnavalescos, empresários e políticos).

Em face dessa conjunção de forças, vieram os 17 (dezessete) títulos conquistados pela escola. Em conseqüência do sucesso, Piratas da Batucada, é hoje reconhecida como a entidade de maior apelo popular do Estado do Amapá, cuja popularidade, antes concentrada somente no bairro do Trem, expandiu-se por toda a Zona Sul da Cidade, chegando a outros recantos do Estado.

As pessoas que tiverem acesso a asse relato, simpatizantes de outras escolas, peço não o considerar uma peça de auto-exaltação ao Piratão, mesmo porque vivemos um momento bastante conturbado às vésperas do desfile oficial do nosso carnaval, mas tão somente, o interesse em relatar parte da história do nosso carnaval, para o conhecimento das pessoas mais jovens da nossa sociedade, como disse anteriormente.

Em resumo, Piratas da Batucada, foi a escola influenciadora para o sucesso dos desfiles do nosso carnaval, com possibilidade de evoluir ainda mais, desde que os gestores da LIESA, Conselho de representantes e presidentes das escolas, passem a atuar com um pouco mais de profissionalismo, limitando-se a disputa do título, tão somente na avenida.

Finalizo, expressando meu reconhecimento a importância de todas as escolas para o sucesso do carnaval amapaense, ressaltando, entretanto, Boêmios do Laguinho, Maracatu da Favela, Império do Povo, Estilizados juntamente com Piratas da Batucada como integrantes da primeira linha do nosso carnaval, considerado o terceiro do Brasil, e a nossa cidade, vocacionada para a realização dessa festa.

Que tenhamos dois grandes desfiles nos dias 18 e 19 próximos, e que o campeão de cada grupo, seja a escolas que melhor for avaliada pelo corpo de jurados, é o que desejo.

Macapá (AP), 14 de fevereiro de 2012

Manoel Torres