Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

“Bem-aventurados aqueles que conseguem fazer-me reviver, escutando as lembranças do meu passado, sem dizer-me: já o sabemos.

Bem-aventurados aqueles que não se apressam a corrigir logo o que eu faço como se quisessem dizer-me que eu não sei fazer mais nada certo.

Bem-aventurados aqueles que sabem doar-me um pouco do seu tempo precioso e, quando me encontram, param para cumprimentar-me.

Bem-aventurados aqueles que me comunicam as suas alegrias, porque ainda acreditam que eu possa compreendê-los.

Bem-aventurados aqueles que me oferecem flores, pensando que não sou tão velho de buscar somente os espinhos.

Bem-aventurados aqueles que me ajudam a pensar, a crer, a esperar e de boa vontade param para rezar comigo.

Bem-aventurados aqueles que respeitam o meu passo cansado e não vão sempre à frente obrigando-me a andar mais de pressa.

“Bem-aventurado aquele que não reclama dizendo que estou ficando surdo, mas que levanta a voz e nunca a abaixa, na minha presença, para que eu não escute”.

Encontrei essas bem-aventuranças do idoso e achei interessante apresentá-las no dia no qual o próprio Jesus proclama as suas Bem-aventuranças, conforme o evangelho de Mateus. Não é nenhuma concorrência e menos ainda uma tentativa de diminuir o quanto Jesus falou. Ao contrário, achei-as bonitas e tocantes e pensei que podiam nos ajudar a exemplificar as infinitas aplicações ou exemplificações que as próprias bem-aventuranças de Jesus nos oferecem. Lendo as bem-aventuranças do idoso podemos entender como deve sentir-se triste uma pessoa que, pelas limitações da idade, experimenta, aos poucos, o que pode significar ficar às margens da vida. Contudo se encontrar alguém que com carinho e paciência ainda lhe dá atenção e a faz sentir viva e útil, evidentemente, deve ficar muito feliz.

Poderíamos, portanto, pensar que a pessoa idosa proclame “felizes” e bem-aventurados os que contribuem para ela ficar mais feliz. É verdade. No entanto a mensagem do idoso vai bem mais longe. Quem pratica o bem não somente alegra a vida dos outros como também fica feliz. Aqui está o segredo das bem-aventuranças que Jesus nos propõe como estilo da vida cristã: buscar e encontrar a felicidade – que aliada ao sentido e à realização da nossa vida – faz felizes os outros. Por exemplo, escolher ser pobres ou buscar menos a nossa riqueza e vantagem pessoal pode nos ajudar a não trabalhar só por dinheiro, mas também pela alegria de contribuir com uma sociedade mais justa e fraterna. Em lugar de ficarmos escravos ou obcecados pela busca do dinheiro, do poder e do sucesso, deveríamos agradecer por conseguir ser mais livres, menos egoístas e interesseiros, e assim podermos doar um pouco mais de nós mesmos aos outros e ao próprio Deus. Da mesma maneira podemos entender as bem-aventuranças dos que tem fome e sede de justiça e os construtores de paz. Devemos reconhecer que os bens da justiça e da paz nunca podem ser bens exclusivamente individuais, sempre nos obrigam a fazer referência aos outros. Com efeito, posso pensar de viver em paz isolando-me do mundo, mas nunca será uma paz verdadeira se não houver justiça e uma busca contínua do bem comum, da fraternidade, da convivência pacífica. Assim entendemos que buscar a paz e a justiça, junto aos nossos irmãos, por mais fadigoso e desafiador que seja, é o único caminho para alcançar algo de permanente e duradouro.

E as bem-aventuranças dos “perseguidos”? Será possível ser “felizes” e pagar com o sofrimento a própria fidelidade e coerência? Mais uma vez devemos lembrar que se pensamos a felicidade como algo exclusivamente individual, fica muito difícil entender essa bem-aventurança, mas se acreditamos e confiamos que seja possível doar a própria vida por amor aos irmãos, à causa da justiça e da paz, à causa de Jesus Cristo, podemos ser felizes, não pelo sofrimento em si, obviamente, mas pela inestimável motivação que nos faz sofrer: a busca  do Reino de Deus acima de tudo, até da nossa própria vida.

Com as bem-aventuranças Jesus nos aponta um caminho de felicidade, muito diferente daqueles que o mundo nos apresenta. Cabe a nós decidir em quem confiar. Ele, simplesmente, foi fiel até o fim à sua missão. Teve medo de morrer, mas não recuou. O amor ao Pai e a nós, pecadores, falou mais alto. Porque Deus é amor e a felicidade consiste em amar, buscar e fazer o bem sempre. Custe o que custar.