Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

O vinho daquela região era famoso. Todos os anos ocorria uma grande festa, durante a qual era possível saborear a vontade a bebida. A fartura vinha de um gigantesco tonel colocado na praça da cidade, do qual era possível tirar o vinho. Cada produtor despejava no tonel uma ou mais garrafas da produção das suas terras. Depois todos bebiam. Chegado o dia da cerimônia, o seu Matias pensou que se ele despejasse uma garrafa de água no tonel, ninguém iria descobrir, com tanto vinho que lá era jogado. Não queria dar de graça aos outros algo que tinha custado tanto do seu suor. Assim fez. Entrou na fila dos produtores e no meio dos aplausos derramou água. Conta a história que quando abriram a torneira do tonel da praça, para iniciar a festa, dele saiu água, somente água. Nada de vinho. Evidentemente nunca será possível saber se, naquele ano, todos os produtores tiveram a mesma idéia do seu Matias e despejaram água no tonel, ou se aconteceu algum fato extraordinário.  Se a água, isto é, o egoísmo do seu Matias, transformou o resto do vinho em água também. O Festival do Vinho acabou em nada.  A generosidade muda tudo em alegria, o egoísmo muda tudo em tristeza.

Contando essa história não quis faltar com o respeito e a seriedade com a página maravilhosa das bodas de Caná. O evangelista João quis nos transmitir muitas mensagens com aquele primeiro “sinal” de Jesus. Eu somente pensei numa festa ao contrário.

Lá Jesus fez  a festa do casamento continuar mais alegre com o vinho melhor. Um sinal, justamente, para nos lembrar que onde Jesus está presente não podemos mais ter motivos de tristeza ou de desespero. Ele é o “noivo” que realiza uma nova e definitiva aliança com a humanidade. Uma aliança de união, de amor e doação. Como deveria ser todo casamento. Do lado do noivo, o compromisso é total, sem reservas. À entrega generosa deve corresponder também uma resposta de amor. “Fazei o que ele vos disser” diz Maria aos ajudantes. Para que a aliança de amor entre Deus e a humanidade continue, para que qualquer encontro de pessoas se transforme em confiança e unidade, é necessário dar um gosto novo aos gestos e aos relacionamentos corriqueiros. É a água que pode se tornar vinho sempre. Sem amor, dedicação e entrega tudo fica cansativo, pesado e, antes ou depois, sem graça e sem alegria. Ao contrário, se à generosidade de um corresponde a bondade do outro, tudo fica mais bonito, a vida é mais sorridente e a convivência uma festa.

Maria, nossa Senhora, continua a nos convidar a fazer o que Jesus ensinou com as palavras e o exemplo. A vida poderia ser uma alegria e uma festa para todos se deixássemos que Jesus transformasse o nosso egoísmo em generosidade, o nosso orgulho em fraternidade e a nossa ambição em solidariedade. Ainda precisamos que o Senhor faça muitas transformações na nossa vida, nas nossas famílias, na sociedade inteira. Estamos muito longe de confiar nele.

Festa verdadeira não é farra; e alegria verdadeira não é loucura. Em lugar das coisas que passam e deixam ressaca ou arrependimento, precisamos colocar os bons sentimentos e as decisões que transformam a nossa vida na alegria do serviço e da doação, algo de contagiante que ajude a melhorar também a vida dos que convivem conosco, ou que encontramos no dia a dia. Festa e alegria devem ser para todos, sem excluídos ou privilegiados, e somente vêm da generosidade e do amor. Sem reservas, com fartura. Como nos ensinou Jesus nas bodas de Caná. Tudo ficou bem melhor.