Tragédia do Novo Amapá motiva visita de Randolfe Rodrigues à Capitania dos Portos

O Senador Randolfe Rodrigues (PSOL) fará, nesta quinta-feira (06), uma visita à Capitania dos Portos do Amapá, localizada no município de Santana. No dia em que o naufrágio do barco Novo Amapá completa 30 anos, o Senador quer homenagear as vítimas da tragédia comprometendo seu mandato com a segurança da navegação nos rios da Amazônia. “O 06 de janeiro é uma data triste para o Amapá, mas que nos alerta. Vou conhecer o aparato utilizado pela Capitania dos Portos, levantar suas necessidades e disponibilidade orçamentária. Levarei esse debate para o Senado”, explicou Randolfe.

Nos primeiros meses em Brasíla, como Senador, Randolfe vai agendar audiência com o Comando da Marinha, no Ministério da Defesa, para se colocar à disposição e juntar esforços em prol da fiscalização, destinação de recursos e estruturação da navegação na região. “A tragédia do Novo Amapá não é uma página virada, é uma ameaça latente. A navegação na Amazônia nos faz lembrar da recomendação bíblica ‘orai e vigiai’ sempre”, justificou ele. A visita à Capitania dos Portos acontecerá às 15 horas.

Novo Amapá
Na noite de 06 de janeiro de 1981, o barco Novo Amapá naufragou na foz do rio Cajari, próximo a Monte Dourado no Pará, com 696 pessoas a bordo. Perderam a vida 378 pessoas em um acidente que se tornou símbolo da completa insegurança da navegação na Amazônia. A embarcação tinha registrados oficialmente 150 passageiros, mas o número verdadeiro era o prenúncio do desastre.

A morte do proprietário da embarcação, Alexandre Góes da Silva, naquela noite, denunciava ainda uma cultura de descuido com a vida e com as condições exigidas para navegação segura, por parte das tripulações e da própria população ribeirinha. De lá para cá a realidade mostra que essa situação persiste.

Márcia Corrêa
Jornalista

Para que não esqueçamos daqueles irmãos mortos…

No dia 6 de janeiro de 1981, há 30 anos, foi indescritível a tristeza do povo amapaense. O barco Novo Amapá naufragara no rio Cajari e deixara um saldo de mais de 300 mortos. Aos meus 20 anos de vida testemunhei, no Porto de Santana, as imagens dantescas daqueles caixões imensos, dos corpos inchados, do trabalho de soldados, voluntários e pessoal do GTFA e o desespero de familiares. Por isso, na época escrevi o poema abaixo, publicado em livro posteriormente, onde também deixo meu testemunho poético.

O primeiro livro, na época, a registrar o fatítido episódio foi escrito por João Alberto Rodrigues CapiberibeMorte nas Águas – A tragédia do Cajari, que teve duas edições, e condensa em uma reportagem fartamente ilustrada com dezenas de fotos os fatos ocorridos, depoimentos e entrevistas. Muitas pessoas buscam esse livro, que se encontra há muito esgotado e bem merecia uma reedição aumentada.

Hermes Colares, um ex-funcionário da Icomi, também publicou um folheto de cordel- Incoerência Humana (2002) descrevendo em versos populares a sua visão do naufrágio.

Sabe-se que o advogado Pedro Petcov recolhia material para também escrever uma obra sobre o acontecimento, mas infelizemnte faleceu e não se teve mais notícia se a família ou alguém daria continuidade ao seu trabalho.

POEMA AOS MORTOS

No céu de estrelas e infinitos

maiores ainda, as noites de areia

me aprisionam como a

um alienígena incógnito.

Os navios mercantes

abocanham os portos,

guindastes, contrabandos e fiscais.

Os homens e as cargas

são dissolvidos nos portos.

As tristezas saem das águas sujas

e viajam para todos os continentes:

são a matéria-prima da humanidade.

A solidão do homem no mar

é uma porta fechada,

mas que se abre nesses portos.

Eu sei que o Porto de Santana,

mudo como as pedras,

assistiu à partida

do Barco Novo Amapá,

com centenas de passageiros

que mergulharam para uma

outra vida quando tentavam

viabilizar os sonhos

multinacionais

do Projeto Jari.

Comboios de corpos inchados

boiaram nas águas e foram mostrados

ao público através das câmeras de TV.

Soldados do 3º BEF ajudaram no resgate

e no enterro das vítimas,

entregues à terra diante dos

parentes infelizes,

consolados pelos vigários italianos

que rezavam pelas almas

daqueles afogados.

(Barros, Paulo Tarso. Poemas de Aço. Macapá,1985)

twitter:  paulotbarros

Poucos registros – Você conhece algum história do Novo Amapá? Sabe algo sobre seus mortos ou sobreviventes? Conte aí na caixinha de comentários. Vamos contar essa tragédia pras novas gerações.

As fotos anexas foram extraídas do livro “Morte nas Águas – A tragédia do Cajari”, de João Capiberibe.

ACIDENTE NO NOVO AMAPÁ 36_net