O CÚMULO DA ANTIDEMOCRACIA EM UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA – O CASO UNIFAP

José Carlos Tavares Carvalho

Reitor da Universidade Federal do Amapá

Todas as universidades públicas no Brasil são compostas por colegiados decisórios, tais como conselhos departamentais e de cursos. Acima de todas as instâncias há o Conselho Universitário – CONSU – que congrega todas as classes representantes da comunidade acadêmica nessas instituições. De maneira rígida essas organizações devem ser respeitadas, ao ponto de poderem penalizar determinadas IFES no seu desenvolvimento, muitas vezes devido a existência, em determinados momentos, de atitudes fisiológicas que emperram as ações institucionais, como o caso da UNIFAP, que somente com 20 anos de existência veio a implantar o curso de Medicina, ainda com uma forte oposição interna que perdura até o momento.

Diante de toda estrutura organizacional, é ilógico aceitar que decisões institucionais sejam consideradas antidemocráticas, e ser cerceado, na ordem administrativa, por movimentações sindicais. Mas, apesar da agressividade das reivindicações, há pontos coerentes que poderiam ser resolvidos com uma boa forma de relação e comprometimento das categorias.              Sendo assim, no dia 04 de abril de 2011, das 15h00 às 18h00, no auditório multiuso da UNIFAP, o reitor e toda sua equipe participaram de uma reunião com alunos e servidores, sendo que cada categoria esteve representada por sua respectiva entidade de classe, ou seja, pelo Diretório Central dos Estudantes, pelo Sindicato dos Docentes e pelo Sindicato dos Servidores Técnico-Administrativos, contanto com a participação de aproximadamente 500 pessoas.

A metodologia para condução da reunião fora previamente acordada entre as partes e contou com três momentos. No primeiro, cada uma das partes representadas teve dois minutos para as considerações iniciais; no segundo, vinte minutos para socialização e defesa das reivindicações de cada categoria; o terceiro consistiu na composição da mesa com quatro rodadas de uma pergunta direta de cada categoria e; no quarto momento, dois minutos para as considerações finais. Entretanto, no meio de uma calorosa manifestação por parte de um grupo de estudantes, foi cerceado o direito da administração, através dos seus pró-reitores, de responderem as indagações e indignações por diversos problemas hoje vigentes na instituição, obrigando de forma coercitiva somente eu, reitor, a participar do evento.

Melhor segurança nos campi da Universidade, previsão para funcionamento do restaurante universitário, participação nas decisões e melhoria na infra-estrutura dos cursos existentes e das condições de trabalho foram reivindicações comuns às três categorias. Um ponto fortemente defendido pelo Diretório Central dos Estudantes e pelo Sindicato dos Docentes foi o de que a UNIFAP não implante nenhum novo curso até que os existentes sejam bem estruturados, inclusive com quadro docente. Dos pleitos apresentados pelos técnicos destaca-se o da liberação parcial das atividades para os aprovados em cursos locais de pós-graduação.

O orçamento geral da UNIFAP para 2011, com as emendas parlamentares foi apresentado pelo Departamento Financeiro e, em minha fala, procurei mostrar os esforços que envido no sentido de que a Universidade possa contar com mais recursos e, dessa forma, melhor estruturá-la. Informei que a equipe trabalha no sentido de que o restaurante universitário possa ser inaugurado em agosto deste ano e afirmei categoricamente que, se houver liberação de vagas para concurso de docentes cuja finalidade seja abertura de novos cursos, a UNIFAP ofertará sim, cursos novos nos próximos processos seletivos.

O evento foi finalizado, eu cercado por um grupo de estudantes com ataques agressivos, não só com palavras de ordem, mas com bolas de papel e empurrões. Ora, para um movimento que prega a existência na instituição de atitudes administrativas antidemocráticas, realmente ficou claro de que lado está essa ação, e principalmente pelo fato desse movimento ser orquestrado por pessoas que não têm nenhuma responsabilidade com a sociedade amapaense, basta analisar a grande vontade de ver a UNIFAP estagnada como em outros tempos.

A administração atual da UNIFAP conta com um plano de expansão aprovado no CONSU e no MEC, para o qual há planejamento de liberações financeiras e contratações de pessoal e obras, e até o momento vem sendo cumprido por parte do órgão mantenedor. Sendo assim, não se pode ceder à vontade política de grupos de estudantes e sindicatos que são contra o desenvolvimento do ensino público no Estado do Amapá. Ao passar em frente de um colégio na cidade, pode-se avaliar a grande necessidade de fazer essas instituições crescerem para suportarem a demanda de jovens que querem chegar até ao ensino superior.

Sem dúvida, o desenvolvimento de uma IFES deve ser feito com qualidade, principalmente quando se trata de formação de cidadãos conscientes para o engajamento social. Entretanto, não dá para ficar esperando pelo ideal. Hoje a experiência mostra que o ideal numa IFES é imaterial. E ao avaliar a contribuição da UNIFAP para a sociedade amapaense, pode-se  observar os inúmeros profissionais que galgaram o grau superior e fizeram desse título o meio que os levou a uma mudança de vida com melhores condições. Imaginem se os administradores ficassem esperando que essa instituição chegasse ao ideal.

A UNIFAP precisa é de uma comunidade acadêmica comprometida com o seu papel social, que saiba valorizar o bem público como elemento essencial para a prática da sociabilidade, que desenvolva as suas funções com coerência diante daquilo que foi pactuado ao ser admitido na instituição, que compartilhe com seus conhecimentos em prol da estruturação racional como espaço de práticas inovadoras. Enfim, que considere a instituição como elemento primordial para a organização do estado em todos os níveis constitucionais para a valorização do cidadão.

 

 

  • Como mudam as coisas: Os jovens de minha época tinham que migrar para outros estados para cursar o terceiro grau; e hoje há movimento articulado, dentro da UNIFAP, para não implementação de outros cursos? Querem a letargia e o retrocesso? Vcs sabem que há contrapartida financeira para viabilização desses cursos, incluindo os docentes e a infra-estrutura necesária?
    Que a gestão dA UNIFAP ignore esse tipo de reivindicação. Ou isso é falta de: amadurecimento;informação e/ou “bandeira de luta”…att Josenildo

    • Letargia e retrocesso é aceitar o sucateamento dos cursos existentes, é se formar sem uma aula de campo decente, e em alguns casos até nenhuma, e se os estudantes de “hoje” precisam reivindicar por melhorias é porque há falhas, e não são poucas em todas as esferas da UNIFAP. Infelizmente só posso concluir a partir do seu comentário que só sabe da verdade aquele que a vivencia, e eu sou acadêmica da IFES em questão e digo que a situação não está boa para ninguém e pior ficará se nada for feito.

  • Sr. Reitor! a demonstracao dos alunos com certeza deve ser resultados do caos em que se encontra a Unifap. Estive ai em Macapa em fevereiro e fiz uma visita a essa Instituicao, acompanhando minha sobrinha em sua primeira matricula, ja me surpreendi com a falta de seguranca completa desde a entrada, passando pela reitoria para usar o caixa electronico do BB. Nao havia ninguem, nenhum vigilante. Tirei fotografias dos locais abandonados cheios de aguas, focos de dengue. Entao quando me deparo com suas palavras, acho que esses alunos fizeram muito pouco. Sua gestão nao correspondendo ao mínimo que se espera de um gestor, que e a responsabilidade com o patrimonio publico. A reacao dos estudantes deve ser reflexo do que nao esta sendo feito. Desculpe-me pelo desabafo, mas sou amapaense e gostaria de ter orgulho da minha cidade. Por enquanto fico orgulhosa em ver que esses alunos nao estão anestesiados.

  • Através da televisão fiquei sabendo dos argumentos da Sra. presitente do Sindicato os motivos dessa greve.Lamentavelmente, uma educadora vazia e bastante rancorosa que almeja se promover com o prejuízo dos outros.Estou tentando concluir meu sonhado curso superior e cada dia fica mais distante pois com a greve,os alunos são os únicos prejudicados…Sei das limitações da instituição pública, mas reconheço os avanços com a implantação de vários cursos que a UNIFAP fez,beneficiando os mais carentes .Sugiro que a presidente do Sindicato se prepare melhor para dar suas aulas ,pois foi para isso que ela prestou concurso público,ou se canditate a uma vaga em país do primeiro mundo para lecionar.

    • Se somente pela televisão vc ficou sabendo dos motivos da greve, posso imaginar do que vc não sabe ainda mais! As suas palavras demonstram tamanha alienação.. Acho que não é a greve só que prejudica um universitário, mas a falta de iniciativa para aprender e compreender o seu universo. Aproveite a greve e vá se informar sobre cortes que a nossa presidenta fez em razão do governo do nosso ex-presidente. Saiba que se há limites na educação, não é somente a inserção de alunos que inclui, mas a aprendizagem, desculpe, mas vejo que isso vc não entende também, aliás, vc é reflexo da educação brasileira… E se vc prefere o conformismo, respeite quem não quer.. Assim vc já ajudaria bastante!

    • Maria Rodrigues, lamentável é vc só saber dos motivos da greve pela televisão! Imagino do que mais vc não sabe.. Suas palavras demonstram tamanha que é a sua alienação. Compreendo que o que mais prejudica um universitário não é uma ou duas greves, mas a sua falta de iniciativa em aprender e conhecer o seu universo. E já que vc não participou, deveria ter aproveitado para se interar mais sobre os cortes na educação que nossa presidenta fez em razão do governo do nosso ex-presidente (do mesmo partido dela). Saiba tb que não é a inserção que inclui, mas a aprendizagem. Mas isso vc também não deve entender! E se vc prefere o conformismo, respeite quem pensa diferente… e vá estudar, quem sabe vc consegue chegar pelo menos próximo do que a Drª Marinalva é!

  • É muito simples comentar algo ignorando os FATOS .. é fato que os cursos estao muito mal estruturados .. existem cursos que so deveriam funcionar com laboratórios .. nao tem nem professores .. temos que contar com a boa vontade de professores voluntarios .. porque a universidade nao contrata os professores que os cursos estao precisando .. o amapa esta formando péssimos profissionais, alunos vivenciam situações que sao típicas de escolas de 2º grau .. ou ate pior .. “contrapartida financeira” .. creio que está se referindo aos gastos necessários para implementar novos cursos .. e por que nao usar esse dinheiro para fazer funcionar os cursos que existem? é .. “funcionar” porque a situação em que se encontram esses cursos .. nao podem ser chamados de superiores .. sao no minimo cursos técnicos de 5 anos .. vc contrataria um mau profissional que a unica experiência que ja teve foram fotografias em livros ..? vivencie e nao fique ai de fora .. a nao implementação de um curso nao significa retrocesso .. retrocesso é um aluno entrar num curso de duração de 4 anos e sair apos 5 anos .. nao porque ele é incapaz e sim porque nao existem professores .. nenhum estado surgiu com uma universidade ‘prontinha’ todo estado em um momento nao tinha nenhuma universidade .. nosso estado nao é diferente .. em algum momento a unifap foi criada .. PROGRESSO É QUALIDADE E NAO NUMEROS .. a universidade esta no mesmo caminho do ensino fundamental .. onde escola é punida com perda de verba se alunos forem reprovados .. onde a mediçao da qualidade no ensino é medida pelo numero de alunos matriculados e nao pelo aprendizado .. “estudo na unifap, ela oferece xx cursos” .. “caramba, tudo isso, que bom que tu te formas esse ano” .. “kkk .. deveria .. ” .. um exemplo da realidade e da imagem que a sociedade tem da universidade .. quem nao quer cursos novos na unifap? eu e toda a sociedade queremos .. mas nunca aceitaremos que nossa universidade continue “””o progresso””” dos pessimos cursos .. vamos estruturar o administrativo e o fisico para podermos receber esses novos cursos e nao o contrario .. nao aos novos cursos ate que os existentes possam ser chamados de SUPERIORES.

  • Sei do compromisso e da seriedade da presidente do Sindicato na busca por ensino público de qualidade. Por sua luta, foi merecedora de prêmio na Câmara de Vereadores de Macapá. Não é possível que em meio a tantos manifestos apoiado por inúmeros atores que militam na UNIFAP, a reitoria tenha a razão ao seu favor.

  • Um texto bem escrito pode convencer pessoas de coisas absurdas.
    Alguém em sã conciência leva alguém para a sua casa se a mesma não suporta mais ninguém? Creio que não. Não podemos institucionalizar o “jeitinho”. Coisas do tipo: “bota pra dentro que a gente dá um jeito”; “é só apertar que cabe mais gente”; “a UNIFAP é igual coração de mãe”; são alguns dos absurdos que ouvi quando fui conselheiro estudantil na UNIFAP.
    Se quisesse democracia de fato, o Reitor Tavares utilizava-se do Art. 205 da C.F que garante autonomia às IFES (Instituições Federais de Ensino Superior) e mudava a correlação de forças no CONSU. Na minha época era 1 estudante para 35 professores, aproximadamente.
    Para ser justo, não se pode colocar tudo na conta do Tavares. A UNIFAP tem anos e anos de administrações desastrosas. Para completar, só em 2011 a Dilma cortou 50 bilhões das áreas sociais do Orçamento Geral da União. Só a educação perdeu 3,1 bilhões, o terceiro maior corte. É só vermos o que está ocorrendo na UnB e em outras universidades de renome nacional.
    Infelizmente, problemas na educação não são um “privilégio” do Amapá.
    De qualquer forma, devo parabenizar a mobilização dos estudantes, técnicos e professores. Tenho certeza que sem isso a situação estaria pior.

  • Muito bom que o debate ficou aberto, finalmente. Acredito ser possível criarmos mecanismos de planejamento participativo na UNIFAP. De todo modo, a reflexao mais importante hoje na Academia parece ser a dicotomia Crescimento X Desenvolvimento. O título do artigo do Mag. Reitor é igual a frase dele de entrada no dia da audiencia pública: “vamos parar com os devaneios”. De todo modo seu artigo é um bom sinal, certamente. É hora de avaliar a “reunicizaçao” do ensino superior. Caloroso, mas com respeito, o debate deve ser sempre bem vindo. Ele ajuda na depuraçao das instituiçoes sociais. Saudaçoes. Adalberto – prof. UNIFAP.

  • O sucateamento da universidades públicas não é uma exclusividade da Unifap. O Reitor fez a Unifap ter um reconhecimento inegável na sociedade científica. Fato.
    A Unifap tinha um quadro com graduados e especialistas, a titulação é fudamental no meio acadêmico,e como forma de credibilizar e acesso aos recursos do MEC e aos fundos externos de fomento a pesquisa, ele formatou a idéia de que tinhamos que ter mestres e doutores urgentemente. Reconhecimento de um bom trabalho, ele prima pela qualidade dos integrantes da comunidade acadêmica. Acho dedicado ao fundamento da base sólida educacional, questões de falhas estruturais podem ser recorrentes, mas desqualificar a essência do trabalho é leviano. O que era Unifap antes do José Carlos Tavares?! Sejamos justos, nem parecia uma universidade. Não significa que sou contra o direito de reivindicar melhorias, mas reconhecer os progressos no fortalecimento é justo.

  • Sou da terceira turma de História da Unifap. Gostaria de sugerir que alguém fosse até Roraima e ao Tocantins ver como nossas co-irmãs estão, e um detalhe preocupante: Elas foram criadas na mesma época. Gostemos ou não temos sim uma Universidade mequetrefe, meia boca, e culpa disso tudo não é dos Professores muito menos dos discentes.

  • Reconheço os avanços da Universidade, porém não podemos fechar os olhos para os problemas existentes na instituição. Entremente, não basta ampliar os cursos e necessário investir na estrutura dos cursos, pois criar curso pelo curso não adianta. Contudo, sou a favor de todo e qualquer ato, reivindicações, manifestações construída com responsabilidade e seriedade, principalmente em se tratando da UNIFAP. Indubitavelmente os anos que passei pela universidade posso falar com propriedade, que Infelizmente esses atos só acontece próximos aos pleitos eleitoral do DCE, CONUNE (Encontro nacional dos Estudantes), Sindicato dos técnicos, eleições para prefeito…..Por isso, ta passando da hora dos acadêmicos se ligarei nesse joguinho político feito dentro da UNIFAP, pois depois que a classe interessada alcançar seus objetivos,os problemas vão continuar e nada mais vai ser feito,pois isso é típico de quem quer apenas o poder.

  • Algumas pessoas estão entendendo a frase “não queremos novos cursos” como “somos contra o crescimento da UNIFAP”. Não entendam desse modo, mas assim: “não queremos novos cursos até que haja qualificação nos já existentes e depois disso, novos cursos”

    O ensino superior deve continuar sempre se expandindo, mas de forma organizada.

    No blog o trecho “A administração atual da UNIFAP conta com um plano de expansão aprovado no CONSU e no MEC, para o qual há planejamento de liberações financeiras e contratações de pessoal e obras” isso sim é um devaneio. Obras como o Restaurante Universitário e algo que chamamos de Elefante Branco estão paralizadas ou a passo de quelônio. Contratação de pessoal? Como? se diminuiram o contingente de seguranças e pessoal de limpeza?

    Não há crescimento sem qualidade!

    Só quem vive a UNIFAP sabe a realidade falida daquela instituição.

    Yuri Breno da Silva
    Ciências Biológicas 2010

  • Baiúca, era assim que um amigo meu chamava a UNIFAP, em 2002, parece que nada mudou te lá pra cá. Ação magnífico, ação.

  • ..Independente do resultado nas urnas esse processo eleitoral ja pode ser considerado dos mais positivos gratificantes para nos trabalhadores que estivemos nas portas de fabricas pracas publicas ruas e avenidas…..A receptividade a campanha Dilma Presidente indica que o Brasil esta dando valiosos passos em sua consciencia politica…..Sem medo de ser feliz o povo diz nao ao retrocesso e vota pela continuidade das mudancas no progresso com desenvolvimento social e valorizacao do trabalho. ..Na ultima quinta-feira os trabalhadores ocuparam o predio da prefeitura.

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