A Caricatura do Atraso

Por Marco Antonio Chagas. Doutor em desenvolvimento socioambiental pelo NAEA/UFPA e professor da UNIFAP/Curso de Ciências Ambientais

 

Um dos maiores desafios da ciência é explicar as diferenças de desenvolvimento entre as nações. Prevalecem as teses sobre colonização e regimes ditatoriais, mas também sobre determinismo ambiental e cultural, entre outras. Somos realmente atrasados?

O saque das colônias pelas metrópoles europeias tem forte aceitação pela ciência, incluindo argumentos favoráveis ao acúmulo de riqueza pelas nações colonizadoras em detrimento de perda de capital natural pelas colônias e a consequente afirmação das teorias “metrópole e periferia”, “ricos e pobres”. O saque continua, só que agora recebe o timbre “produto sustentável”.

Os regimes ditatoriais não somente respondem pelo atraso das nações como também pela forma mais perversa de autodestruição, pois na maioria dos casos, a disputa pelo poder político levou à chacina de pessoas de forma indiscriminada, por vezes dizimando famílias pela morte ou pela saudade. As guerras civis do Camboja, Angola, África do Sul e dos Países da Primavera Árabe”, representam essa categoria de países que ficaram para trás no desenvolvimento. No Brasil, o regime ditatorial gerou atraso e agora sobrevive camuflado pelas nomeações políticas sem concurso público.

O determinismo ambiental sustenta que o desenvolvimento de países é influenciado por causas ambientais naturais ou antrópicas, incluindo o clima, a geologia, a água. Essa tese, em alguns momentos ilustrou relatórios oficiais de agências internacionais de desenvolvimento, que faziam referência ao atraso de nações devido à condição climática, à localização em áreas de risco geológico, entre outros. Sabe aquela “leseira” que acomete os moradores dos trópicos em dias muito quentes? Pois é! Em resposta, trabalhamos dois turnos, mesmo que o segundo seja uma enganação oficial pactuada.

Entre as novas teorias para explicar o atraso das nações, o determinismo cultural aparece complementando as demais teorias e ofertando um conjunto de hipóteses para investigação pela ciência. Como determinadas sociedades conseguem se organizar para resolver problemas comuns? O que determina as transformações de uma sociedade individualista em solidária?

Preconceito ou não, o determinismo cultural aproxima a racionalidade necessária para entender e planejar os instrumentos de desenvolvimento regional, sobretudo quando se considera a miscigenação do povo brasileiro, tão bem caracterizadas em “Casa Grande e Senzala”, obra de Gilberto Freire e leitura obrigatória para aqueles que insistem em caricaturar politicas públicas baseadas em modelos exógenos e vivem se debatendo com os problemas de uma realidade que nunca está errada.

Marco Antonio Chagas é doutor em desenvolvimento socioambiental pelo NAEA/UFPA e professor da UNIFAP/Curso de Ciências Ambientais

 

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