Uma crônica de Renivaldo Costa

“São tantas e boas (lembranças), mas quero homenagear meu amigo Babá que já se foi lembrando as noitadas no meio de semana no bar Suvaco de Cobra, próximo ao Hotel Macapá. Babá resmungava contra alguns políticos e amigos, enquanto entornava uma pinginha pura sem fazer cara feia. Depois, ele trocava o resmungo para cantarolar maravilhas de sua discoteca como Chico Buarque, Paulinho Pedra Azul, Louis Armstrong…”

O texto acima é um trecho da entrevista que o jornalista Elson Martins concedeu à Alcilene Cavalcante no blog alcilene.zip.net. Elson faz menção a Babá, uma figura simples e marcante que conheci em rodadas etílicas no antigo Xodó e que também faz parte das minhas lembranças.
Acho que sou jornalista (apesar de meu amigo Fernando Canto, por extremada bondade, também dizer que sou poeta). Escrevo todos os dias. Diariamente, quando leio a pequena biografia que escrevi embaixo do meu nome neste perfil do Facebook (Jornalista, professor, evangélico e maçom), lembro-me das críticas de um professor que dizia que todo jornalista se acha poeta, romancista, cronista e D’us, tudo ao mesmo tempo.

A verdade é que, mesmo depois de anos de universidade (de Ciências Sociais, não Jornalismo) e alguns textos publicados em jornal, nunca me senti um jornalista de fato. Os telejornais me enfadam, gosto deles menos até do que quando era criança e meu pai os via na hora do desenho animado. Leio o jornal de trás para frente, como um leigo, e só passo das manchetes quando as fotos me chamam atenção e me dizem que aquela reportagem tem relação direta com o meu cotidiano. O mesmo se aplica às revistas semanais que, diferente de meus colegas, não tenho fetiche em colecionar.

Para mim, os jornalistas e aqueles que acompanham seu trabalho são sádicos de plantão. Notícias ruins, como a tragédia do Novo Amapá, que não só comoveu o Amapá como o Brasil, são publicadas somente quando ainda não perderam suas dimensões catastróficas e comovedoras. As notícias boas, estas nem são publicadas: tem status de clichê e, quando uma exceção é aberta, a matéria foi paga para mascarar uma realidade bem menos positiva.

Nunca me senti um jornalista de fato. Poucos fatos, aliás, renderam-me colunas. Quando escrevi a primeira, há alguns anos, e me questionei se uma crônica caberia numa coluna, não suspeitava que escreveria tantas crônicas nesse espaço. Talvez seja para justificar o título de poeta (que me impôs o Fernando Canto) imitando o estilo desses poetas do cotidiano que são os cronistas. Tanto que quase sempre volto meu olhar para fatos banais, corriqueiros, fugindo das catástrofes que assolam nossos jornais diariamente.

Tal atitude já foi mal interpretada por alguns leitores. Poucos escreveram comentando a respeito de algum assunto, mas os que o fizeram trataram de concordar em um ponto crucial: minha coluna é amena. Descobri que sou um jornalista ameno. Fica a dica para meu biógrafo: “Renivaldo Costa é jornalista de amenidades, poeta, evangélico e maçom”.

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