Troco Likes por sentimentos verdadeiros: O novo álbum de Tiago Iorc

(por Vinícius Luiz)

tiagoiorc

Depois de lançamentos como “Let your self” (2008), “Umbilical” (2011) e “Zeski” (2013) e covers inesquecíveis como “My Girl”, “Imagine” (John Lennon), “Creep” (Radiohead) e “What A Wonderful World” (Louis Armstrong) nas aberturas e trilhas sonoras de novelas.  O cantor Tiago Iorc se reinventa no seu atual álbum “Troco Likes” e o mais recente EP “Sigo de Volta” que irão compor o seu primeiro DVD,  gravado recentemente em Belém do Pará.

 

O cantor relata em diversas entrevistas que havia necessidade de maior interação com o público brasileiro, por este motivo que o atual trabalho é inteiramente em português. Tiago Iorc também revela que se sentia mais à vontade para compor em inglês do que português, no penúltimo trabalho “Zeski” já havia uma divisão clara entre os dois métodos de criação, depois deste momento, existiu a necessidade de um álbum somente em português com uma única canção em inglês que seria uma faixa bônus. A escolha de Belém para a gravação do DVD também faz parte dessa fase de grande relação com o público, pois foi o lugar que Tiago sentiu maior recepção na atual turnê.

 

Sem dúvidas, “Troco Likes” é a melhor fase do cantor já que as músicas românticas em português ampliaram sua popularidade (em especial com o público feminino) juntamente com o videoclipe de “Amei te ver” com a participação da atriz Bruna Marquezine que criou uma espécie de movimentação na imprensa com a vida pessoal do cantor. Mas pensando em outro aspecto, “Troco Likes” revela um ápice e uma aproximação do estilo mais pop rock para algo mais próximo da MPB. Ao poderíamos pensar na mistura dos dois gêneros e um certo amadurecimento do cantor e compositor. Frente a parceria de composições temos um veterano da MPB e do rock nacional e uma revelação muito elogiada: Humberto Gessinger do inesquecível Engenheiros do Hawaii e Dani Black apresentado no DVD Multishow de Maria Gadú. Temos também uma composição de Duca Leindecker que atualmente compõe o Pouca Vogal com Gessinger.

 

A concepção de “Troco Likes” tenta ironizar nossas relações liquidas nas redes socais como já alerta o filosofo Zigmunt Bauman: Ao mesmo tempo que estamos conectados com o mundo existe um vazio muito grande nas nossas relações, ao mesmo tempo que posso fazer milhões de amigos é a mesma relação de não ter nenhum intimamente.

 

A escolha da capa já começa a brincadeira com o tema, pois artista argentino Nestor Canavarro ilustra o retrato de Tiago Iorc com um sorriso forçado e segurado por dois pregadores. “Troco Likes” remete a tentativa de felicidade forçada e aparente que existe nas redes sociais como se todos precisassem só contar vitórias, ao está bem o tempo inteiro ou só receber (ou trocar) “likes” para se sentir importante no mundo.

 

A primeira Canção “Alexandria” que é uma parceria com Gessinger já abre o debate e atenção para o tema de haters, trolls e pessoas que travam politicamente guerras na internet de quem é a melhor opinião, como já dizia o falecido escritor Umberto Eco “ ”Redes sociais dão voz aos imbecis”. A letra diz em forma de protesto para esse grupo de pessoas: “Gente demais com tempo demais, falando demais, alto demais. Vamos lá atrás de um pouco de paz: ‘Aqui tem gente!’”. Em outro momento a mesma canção expressa em tom melancólico a tristeza da falta de riqueza nos debates como se todos os dias as redes sociais rasgassem livros e conhecimentos de estudo pelo simples achismo pessoal como podemos ver: “A gente queima todo dia mil bibliotecas de Alexandria. A gente teima, antes temia já não sabe o que sabia”.

 

Outra canção que traz essa linha de raciocínio é “Bossa”(composição do Duca) que traz a reflexão que nas redes sociais todos tentam ser iguais e todos precisam saber de todos os assuntos como podemos observar no refrão: “Hey! Você que sabe tudo me diga como perguntar se eu não sei. Você que pensa em tudo me mostre o quanto pode ama”. A música exalta nossas diferenças como pessoas e diz “Atenção, as pessoas não precisam ser iguais as outras. Aceite ou não”.  A canção muito lembra o tom de “Dia Especial” que Tiago regravou do Pouco Vogal.

 

“Sol que me faltava” é composição de Tiago e fecha o álbum. Claramente esta canção faz referências as redes sociais como a expressão “instagramear”. A canção pergunta a todo momento ao ouvinte qual foi a última vez que a pessoa se permitiu sair sem se importa com o que os outros irão pensar dela, diz também para a pessoa se importar menos com a roupa e com a necessidade de tantas fotos e exibições. “Era só o começo de uma coisa boa” acabou virando um vício para se mostrar para os outros. O refrão enfatiza a indiferença das pessoas para as coisas simples na percepção do próximo e ainda ironiza com a brincadeira “era só que me faltava” com o simples perceber a beleza do sol como vemos: “E num mar de tanta indiferença era sol que me faltava”. E depois a canção pergunta de maneira poética qual foi a última vez que a pessoa deixou o instante fotografar seu olhar mostrando que as pessoas deixam passar despercebidos muitas coisas da vida por necessidade de futilidades.

 

As outras canções têm um cunho mais romântico como “Cataflor” que com bonitas hipérboles diz a frase poética: “E se eu quiser dizer que o universo inteiro mora em você”. “De todas as coisas”, “Coisa Linda” e “Amei te ver” seguem a mesma linha mudando somente comalternância de um violino e teclado para deixar mais romântico ou uma batida com cordas para deixar mais pop. A parceria de Dani Black em “Mil Razões” mostrauma música mais madura no sentido musical e de letra.

 

Agora temos uma parte mais melancólica e reflexiva nas canções “Eu Errei” e “Liberdade Ou Solidão”, pois o tema da liberdade é muito filosófico. A música questiona a existência e a maneira de cada um viver ao som do violão e o violino criando uma atmosfera para mergulhar em nós mesmos.

 

Depois deste lançamento, Tiago lança o EP como o nome que faz a mesma referência as redes sociais que seria “Sigo de volta” pelo mesmo selo Slap, da Som Livre. São três canções que sobraram e acabaram não entrando no álbum. De certa maneira, ‘Mulher’, ‘Amor sem onde’ (outra parceria com Dani Black) e ‘Chega pra cá’ são uma extensão desta mesma concepção de trabalho e irão compor o repertório do primeiro DVD.

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