Quem pensa o Amapá?

Por Marco Antonio Chagas, doutor em desenvolvimento socioambiental pelo NAEA/UFPA. Professor do Curso de Ciências Ambientais da UNIFAP.

 

Quem pensa o Amapá? Energia, floresta e mineração constituem os investimentos econômicos anunciados para o Amapá. Existem pelo menos 1200 MW de inventários hidroelétricos com viabilidade econômica nas bacias dos rios Araguari e Jari. Destes, 625 MW estão em fase de implantação pelas empresas EDP energia (UHE Santo Antonio do Jari) e Ferreira Gomes Energia (UHE Ferreira Gomes) com investimentos de R$ 1,4 bilhão e R$ 810 milhões, respectivamente.

A exploração sustentável das florestas é outro mercado promissor de investimentos para o Amapá. O Grupo Orsa apresentou ao Governo um projeto de 200 mil hectares para manejo florestal no sul do Amapá e outros podem se tonar viáveis caso o Governo defina o marco legal para o uso sustentável das florestas (regularização fundiária, elaboração do plano de manejo e regras claras para concessão florestal).

A mineração é outro setor que sempre pautou a economia do Amapá, mas se mantém com performance distante dos pressupostos da sustentabilidade praticados pela maioria das regiões mineiras do planeta.

Os investimentos que se anunciam em logística portuária, uma vantagem comparativa e possivelmente competitiva reconhecida em diversos documentos técnicos de Estado, deverá inserir o Amapá no mapa mundial de entreposto para negócios estratégicos. O escoamento da produção de commodities através do Amapá favorecerá a competitividade das empresas no mercado internacional.

Entretanto, é a na biodiversidade que o Amapá deve focar seu desenvolvimento. Não a biodiversidade da natureza selvagem intocada, mas a natureza como instrumento de educação planetária. As Áreas Protegidas do Amapá, se trabalhadas de forma integrada com os investimentos econômicos anunciados, principalmente com a logística de transporte e energia, poderá se tornar um novo destino turístico para os adeptos da conservação e da sustentabilidade ambiental.

Só para se ter uma ideia da dimensão dos negócios em áreas protegidas, os parques nacionais norte-americanos e sul-africanos recebem em média três milhões de turistas por ano, movimentando cerca de US$ 30 bilhões por ano (EUA) e US$ 10 bilhões (África do Sul).

As Áreas Protegidas do Amapá podem ancorar o desenvolvimento com sustentabilidade e o Governo Brasileiro tem uma dívida com o Amapá que pode se traduzir em projeto demonstrativo a ser anunciado para a Rio+20. Esse ano estamos comemorando 10 anos do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque. Fica a dica!

O que falta para o Amapá melhorar os indicadores econômicos e consequentemente os sociais, culturais e ambientais? A hipótese é de que não existe política pública no Amapá, pois o imediatismo e a falta de foco estratégico no desenvolvimento conduz o Estado a uma máquina de administração de problemas que se acumulam a cada quatro anos.

A definição do foco estratégico e de metas de desenvolvimento para o Amapá talvez seja a resposta que se procura para refutar a hipótese da política pública por problemas. O que nos diferencia a ponto de tornar o Amapá sustentável? O crescimento econômico é uma meta importante e os investimentos em energia, floresta, mineração e logística elevarão o PIB do Amapá, mas isso não necessariamente se traduzirá em melhoria de qualidade de vida.

O crescimento econômico é um meio para a sustentabilidade, que não se manifesta apenas pela melhoria do PIB. A sustentabilidade é uma manifestação de longo prazo que se expressa pelo “desenvolvimento com liberdade”, como comprovou o Prêmio Nobel de Economia de 1998, Amartya Sen, ao comparar a qualidade de vida entre comunidades indianas e norte-americanas.

Amartya Sen, um dos idealizadores do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, ensina que o que fazemos com a economia é determinante para o desenvolvimento sustentável. Há os que se arriscam no imediatismo da política por problemas com recomeço a cada quatro anos. Outros optam pela política de longo prazo, que no caso do Amapá, com base na metodologia do óbvio, está relacionado a implantação da logística de infraestrutura para o desenvolvimento (estradas, portos, aeroportos, ferrovias e hidrovias), ao fortalecimento do empreendedorismo endógeno para prestação de serviços e mão-de-obra para atender aos negócios anunciados, incluindo o uso da biodiversidade, e a profissionalização pública para a governança com sustentabilidade.

Optei pela geologia para aprender a lidar com o tempo e isso é muito complicado. Como entender que o tempo cronológico da vida humana, entre 70 e 80 anos, representa apenas um minuto do tempo geológico? Aproveitemos bem o nosso “minuto geológico”!

  • Ariscaria dizer que temos, ainda, o potencial pesqueiro.
    Energia, floresta, mineração, pesca e turismo ecológico constituem os potenciais econômicos viáveis para o Amapá.
    A “industria” de uniforme escolar é piada.

    • Arriscaria dizer? Tem nego que vem de Nihon pescar aqui! Daqui a pouco os chinas tomam contam da pesca no Amapá se não fizermos nada, quer dizer, nossos legais representantes.

  • Excelente artigo Dr. Marco Antonio.
    Aprecio imensamente os seus textos através de uma linguagem simples e contundente.
    Parabéns.

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