Piratão: Passagem dos Carros Pede Passagem e Antecipa o Carnaval da Comunidade

Por Alcione Cavalcante. Engenheiro Florestal e Diretor de Piratas da Batucada

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Muitos não tiveram a oportunidade de participar ou mesmo conhecer a “Passagem dos Carros”. Para algumas escolas de samba, uma grande dificuldade, em função de fatores como a distância, no caso das localizadas na Zona Norte da cidade, e outras ligadas à falta de mobilização de meios, principalmente pessoal, que garantisse a condução das alegorias em tempo e condições de se apresentar dignamente ao público no sambódromo.  Para todas havia a necessidade vencer obstáculos tão mais difíceis, quanto maior o porte da alegoria. Entre estes, a rede de eletricidade e de telefonia, os galhos das árvores e as crateras que alguns prefeitos se esmeravam em deixar crescer e multiplicar no trajeto entre o barracão das agremiações e a área de armação da escola às proximidades do sambódromo. Tal situação exigia das diretorias, carnavalescos e artesãos, um esforço muito grande, excepcional criatividade e presteza no sentido de retocar o acabamento, refazer partes perdidas ou comprometidas no trajeto, ou em última alternativa frustrante e desesperada, ter que  sacrificar uma alegoria danificada para salvar a evolução da escola.

Mas o que para muitos se postava como sacrifício, para Piratas da Batucada era mais uma demonstração de unidade, capacidade de mobilização, em especial da equipe de Harmonia, a quem cabe a responsabilidade de receber as alegorias no barracão e entregá-las sãs e salvas na Ivaldo Veras, conforme o trajeto, local e horário definido pela Diretoria.

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A par dos obstáculos, o pessoal logo percebeu a possibilidade de transformar a passagem dos carros em oportunidade de catalisar simpatia, apoio e emoções para a “Escola Mais Querida”. Assim, o translado, como diziam os diretores harmonia mais sofisticados como o Baraquinha, passou a ter um caráter festivo, de congraçamento e sinergia entre os membros da escola e destes com a comunidade, que ao longo dos caminhos sempre dava uma forcinha quando alguma dificuldade emergia.

Cedo da manhã, os mais preocupados já se posicionavam nos barracões. Manoel Torres, o grande Monteiro, este no geral ainda sem dormir, Edson, Brazão, o saudoso Jeconias Araújo, Carioca, Nazir Salman, o Luiz (da CEA), Xerfan, Gilson Rocha, Lourival, Eider Pena, Bigode (com sua bandeira), França, Dias, Vinhas, Jorge e Nelson Souza, entre outros.

Ali pelas dez horas, as alegorias já postadas na pista, a turma se completava.  Logo chegava um carro-som (do Favacho, do Murilo ou de outro brincante) e começava a rodar o Samba Exaltação de Piratas da Batucada, obra-prima de Ademar Carneiro, Dio e Magé, só comparável a Sei Lá, Mangueira, de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho. Coisa capaz de tirar da rede todo e qualquer piratista, mesmo quebrado por noites insones de trabalho ou de folia.

Azevedo (não o Raimundo) e o Manoel Torres se apoderavam do microfone e dirigiam mensagens de otimismo e confiança na escola, no que eram acompanhados pelos fogos providenciados pelo Matta, o Presidente “tantas vezes campeão” e animador geral do evento.

O Jaezer (esse o nome do geizé) encarnava uma espécie puxador do cortejo, com um Jeepão da II Guerra (O Audaz, do Piratão), impondo respeito aos que mesmo de longe pensassem em se aproximar das alegorias para fins, vamos dizer assim, menos nobres.

O Nóbrega se tornou um especialista em manobras de carros alegóricos e tinha a responsabilidade de conduzir e orientar as situações mais difíceis, onde sempre obteve êxito, no que era apoiado pelo Vinhas e seus conhecimentos do funcionamento e mecânicas dos chassis das alegoria, já tratadas e reverenciadas como obras e arte pelos diretores, brincantes, simpatizantes e, porque não dizer, de alguns adversários.

No curso da passagem muitos se agregavam. Alguns ambulantes prestavam serviços indispensáveis, como a venda de cerveja (que nunca faltou) e o churrasquinho de gato, evidentemente faturando seus trocados. Outros, voluntária e corajosamente prestavam ajudas memoráveis, como foi o caso de um cidadão que desligou as fases de energia da 4ᵃ Avenida dos Congós, no braço, e possibilitou a passagem dos carros inteiros em tempo hábil. Sorte que não teve uma de nossas co-irmãs (égua!) que fazia o mesmo trajeto.

Desta forma a Passagem dos Carros do Piratão passou a ser tratada como um evento particular e importante para escola. De tal forma que não raro a chegada ao Sambódromo era comemorada com direito a palmas, salva de fogos e contidos choros de parte de alguns Diretores. Por fim se transformando numa espécie de preparação de um tipo de magma emocional único, que bombeado pelo coração da escola e de seus brincantes e transportado por uma erupção de alegria e devoção contagiava inapelavelmente todo sambódromo na noite do desfile.

É…. O Maranhão (grande Sabrecado do Colégio Amapaense) tinha razão. Não participar da passagem dos carros é como que desfilar na Avenida com apenas a metade do corpo e da alma. Falta metade da adrenalina e de emoção.

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  • Muito boa a sua narração de como aconteciam os fatos nas “passagens dos carros”. Participei dessa passagem por duas vezes, o trabalho era muito, mas em meio as brincadeiras nem se sentia tanto, melhor ainda saber que vc esta em meio a amigos e todos em prol do grande Piratão. Parabéns pela matéria.

  • Amigo Alcione: com esse seu relato você deve imaginar o quanto aguçou tantas emoções vividas. Você abordou muito bem. Uma situação que para outras escolas (có-irmãs)se revestia numa situação estressante, na nossa querida Escola, essa transladação foi transformada num momento de festa, por sinal, muito curtida. Que diga o Maranhão, para quem a nova estrutura da cidade do samba, acabara por provocar um grande vazio. Incluo dentre as pessoas citadas por você, a do nosso saudoso amigo João Lamarão, um dos diretores de harmonia da Escola presentes nessa festa.

  • Vendo essas imagens, não pude conter as emoções. Dio, Magé, Ademar Carneiro e Ademir do Cavaco, compositores do samba exaltação da Escola, muito bem descreveram esse sentimento: “Muitos anos de paixão, no bairro do Trem nascia, a minha maior alegria, Piratas da Batucada, num 31 de março, surgia, Quando chega o grande dia, o barracão, amanhece em festa, carro som vem pra folia, num foguetório infernal, Zona Sul canta feliz, empurrando alegorias, do seu carnaval”. Chega! Não dá mais.

  • Alcione,

    Belo e interessante relato. Esse ano devo sair no Piratão, mas preciso aprender o samba com antecedência, pois do contrário, vou ter que usar aquele recurso de outras vezes: O Matta não esqueçe.

    Saudações Cruzmaltinas!

  • Bela narrativa no translado dos carros alegóricos !
    Mas também teve mortes/acidentes e muitos choros de familiares de brincantes eletrocutados empurrando as estruturas pesadas de ferro !
    E outra, após o desfile a maioria dos “carros” ficavam ali mesmos, bem na “ilharga” do sambódromo, transformando-o num verdadeiro cemitério de ferro velho!
    Parabéns para as escolas de samba que sabem zelar pela limpeza da cidade !
    Bom dia e bom carnaval.

  • Parabéns pelo artigo! Era td isso mesmo que acontecia, só quem é Piratão pôde e soube aproveitar esses momentos bem marcantes na Escola de Samba mais querida!Abs

  • Com orgulho de ser piratão, participei muitas vezes dessa grande festa, até por que também faço parte da harmonia ( de piratas da bacucada), era muito grandioso fazer o trajeto com os carros. Tempos bons.

  • nossa! que saudade desse povo, todo o meu respeito e gratidão: Manoel Torres, Monteiro, Valdir Carrera, Edson, Brazão, Jeconias Araújo, Carioca, Nazir Salman,Luiz, Xerfan, Gilson Rocha, Lourival, Eider Pena, Bigode, França, Dias, Vinhas, Jorge e Nelson Souza, Cristiano, Jeconias, Mata, Walber Damasceno Duarte, Anacleto, Nobrega, Antonio Reinaldo, Alvarenga entre outros que fizeram parte da linda historia do PIRATÃO (velha guarda) “respeitem quem pode chegar onde a gente chegou”, era maravilhoso ver a comunidade participando, suando a camisa amarela. Ao ver a passagem dos carros prontos para entrarem na avenida do samba, dava um frio na barriga, pois era chegada a hora.

  • Meu Pai WALDIR CARRERA, ficava ansioso e nervoso. TVZ fosse o dia que ele mais fumasse e coçasse a cabeça. Quando o carro chegava no sambodromo(ou na Fab) ele vinha de la todo orgulhoso, como se tivesse empurrado sozinho. Muitas saudades dele e desses momentos.

  • Lindo resgate da historia de nosso querido Piratao. O samba de empolgacao retrata muito bem o significa pra nossa comunidade da passagem dos carros. Logo cedo estavamos a postos no barracao. Ali comecava o ritual final para a grande festa. Pela metade da manha os filhos chegavam e a familia Zona Sul canta feliz. Lembro do fatidico ano da pista do sambodromo pintada de chegarmos ja a noite com as alegorias. Sao muitas historias, causos. Faltou citar o Seu Coelho incansavel batalhador da escola e guerreiro na passagem dos carros.

  • Só quem é Piratão sabe oque essa Escola representa. Muito emocionante! Fiquei muito triste ano passado em não ver o verdadeiro Piratão na Avenida. Precisamos resgatar toda essa nossa essência!

  • “A Semed (Secretaria Municipal de Educação) conta com uma consultoria técnica que estuda detalhadamente a folha de pagamento, para assim priorizar o pagamento do piso salarial”, disse o secretário de Educação do Município, Saul Peloso. (Fonte: Alcineia Cavalcante). ESSA É DEMAIS. NAO DÁ NEM PARA ACREDITAR QUE A PREFEITURA DO PSOL E DO PROFESSOR CLÉCIO VAI FUGIR DO DEBATE. ENFRETEMOS O PROBLEMA COMO DEVE SER. Pode ou nao pagar nosso PISO e quando! Vamos chamar nosso SINSEPEAP. Dialogar é a saída.

  • É bonito ver a motivação que os brincantes tem para pular o carnaval, o que é feio são os papeis de alguns dirigentes que deveriam se preocupar em preparar sua escola e executar um bom trabalho na avenida e não ficar querento manipular resultados.

  • O relato do Alcione foi muito feliz e emocionante.Ser Piratão é antes de tudo um estado de espírito.Infelizmente a situação ïnterna da entidade está destruindo tudo o que se conseguiu.De qualquer maneira parabéns

  • Parabens Alcione pela homenagem a todos os fizeram esta a melhor e mais querida escola do carnaval amapaense.”orgulho Zona Sul que vem do Trem”.

  • Belas e Sabias palavras. Quanta saudade. Fui ritimista, Diretor de Harmonia, contudo, a emoção da “passagem dos carros” é inigualavel. O grande pesar que sinto, fica por conta daqueles que não respeitam a historia de Piratas da Batucada, e principalmente, os que não reconhecem, ou não querem reconhecer por simples divergencias pessoais, algumas pessoas que hoje estão “de fora” do desfile de 2013, entretanto, nunca estarão fora de Piratas da Batucada.

  • Nossa legal!! Esses carros são bem maneiros! Nossa. É como no Rio, que a base é de caminhão? Usa pneus de verdade? Eu já trabalhei montando esses carros e fazendo a manutenção aqui no Rio! =)

  • Essas lembranças fazem parte da minha infância. Lembro do meu pai que também participava disto, quando ainda dava emoção de ver o Piratão passar.
    Lembrei também que a poucos dias meus pai Beto Peixe estava lembrando que no ano passado ele e o saudoso João Lamarão chegaram cedo no barracão da Cidade do Samba e começaram a contar várias histórias antigas e ajudaram na organização dos carros também.. Foi o último carnaval do Lamarão que já não está entre nós.
    Como muitos já falaram aqui questões internas afastaram grandes nomes do Piratão. Ano passado o que vimos não avenida não é era o Piratão tanta vezes campeão.. Mas espero que este ano a emoção volte!

  • Alcione nosso amigo, ficamos emocionados com seu relato. Continuamos firme acompanhando nosso PIRATÃO O MAIS QUERIDO. O que sentimos só em ver nossa linda escola na avenida e junto toda sua torcida da ZONA SUL já valeu qualquer dificuldades. Quando o portão se abre para passarmos no sambódromo vem aquele ORGULHO de GUERREIROS TE TANTAS VITÓRIAS COM NOSSO PIRATÃO. Já nasci YPIRANGUISTA e PIRATISTA e trouxe para essa família maravilhosa o MURILO. Temos certeza que em qualquer mlmento

  • Alcione,temos certeza que essa grande família do PIRATÃO, os nomes citados por vc, estarão juntos para engrandecer muito mais a nossa escola!!Abraços MURILO e MEIRE!!

  • Dia desses, um cabra que chegou aqui “ontonte” resolveu exaltar os grandes mestres de bateria. Não falou – até porque não conheceu – do maior deles: Luiz do Apito, sempre nota 10 no Piratão, mesmo quando as fantasias se resumiam a um lenço de cetim amarrado na cabeça e um tapa-olho preto. Cristiano, Jeconias, Válver e Anacleto são desses bons tempos.

  • Alcione, já li várias vezes essa sua matéria. Amigo, e a cada vez que isso acontece, a emoção se renova. Quanta saudade desse momento. Dava-nos até a impressão, de que ele se transformava na grande mola impulsionadora ao fortalecimento da união de forças em torno da Escola, que a transformou na entidade de maior apelo popular do Amapá.

  • EMOCOES JAMAIS ESQUECIDAS, SO DE RELEMBRAR ME ARREPIO TODA!!!! COM A DIREÇÃO DE MANOEL TORRES, XERFAN, MATA ENTRE OUTROS ESSE CAMINHO ERA PERCORRIDO COMO MAIS UMA EMOCIONANTE PASSAGEM DO NOSSO LINDO PIRATAO NA AVENIDA POIS A RESPONSABILIDADE ERA A MESMA… MAIS HOJE INFELIZMENTE ESSES DIRETORES NAO SE ENCONTRAM MAIS NA ESCOLA, E COM A DIRETORIA QUE ESTA SE AINDA ACONTECESSE ESSA PASSAGEM PREFIRO NEM PENSAR O QUE PODERIA ACONTECER POIS ELES NAO TEM RESPONSABILIDADE DE PASSAR OS CARROS NA AVENIDA IMAGINE NESSE LONGO PERCURSO… VOLTE MANOEL TORRES, MATA E XERFAM NOSSA ESCOLA PRECISA DE VOCES!!!

  • Depois de dois carnavais passados e um prestes a acontecer, o saudosismo volta para o presente pensando no futuro. Que bom seria se a diretoria atual do Piratão resgatasse sua história congregando a geração do presente com a do passado e aumentar o sentimento piratão com a geração do futuro.

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