O machismo patriarcal e estrutural na pandemia. A sobrecarga mental e física maximiza a desigualdade de gênero e gera desconforto psíquico

Renata Ferraz – Psicóloga Clínica

A sociedade nos exige, desde a mais tenra idade, o aprendizado de determinadas atitudes, normativas e diretrizes para que possamos estar imersos em seu bojo. Uma destas diretrizes está relacionada aos papéis de gênero, em que são esperados determinados comportamentos e atitudes, baseados em estereótipos pré-existentes advindos de gerações pregressas. Tais pré-conceitos, vêm significativamente construindo diversas características associadas aos papeis sociais atribuídos ao “homem” e a “mulher”. No entanto, a visão estereotipada dos papéis de gênero adota uma forma expressiva de estratificação social, na qual, observa-se uma “suposta” superioridade masculina em detrimento de uma “suposta” inferioridade feminina.

As diversas lutas travadas ao longo da história da humanidade pela garantia dos direitos fundamentais das mulheres e sua equidade vêm logrando um importante espaço no cenário social e abrindo “portas” para que gerações atuais e futuras possam compreender as relações de gênero na sociedade como um todo. Mãe, esposa, profissional, dona de casa, cidadã, mulher; inúmeros são os papéis assumidos pelo gênero feminino desde a sua emancipação. Desempenhar muitas atividades ao mesmo tempo pode desencadear sérios problemas emocionais/físicos corroborando para o comprometimento da qualidade de vida de muitas.

Vivemos em uma sociedade construída sob os alicerces do machismo patriarcal, que de tanto tempo imbuído na formação de inúmeras gerações, tornou-se estrutural e “comum” na reprodução de nossos hábitos cotidianos. Tal aspecto, observa-se inclusive no que concerne às atribuições laborais próprias de cada gênero, na qual  a maior parte do trabalho doméstico e o cuidado com os filhos são comumente delegados como exclusividade da mulher, que em várias situações assume inconscientemente esse papel, sem questionar o ambiente doméstico como um espaço de convívio coletivo, não devendo caber somente a ela a responsabilidade pelo seu gerenciamento, uma vez que todos desfrutam deste espaço. Logo, seria responsabilidade de todos mantê-lo em harmonia. Diante desse cenário, infelizmente o isolamento social ao invés equalizar a situação, agravou mais ainda, pois nesse período as mulheres têm ficado mais imersas no espaço privado do lar, se cobrando e sendo cobradas por mantê-lo o mais harmônico possível para os demais membros da família, já que ela agora não mais divide essas tarefas com as suas atividades “extra domiciliares”. 

A sobrecarga mental e física diante das múltiplas jornadas vivenciadas dentro de casa pelo confinamento mediante a pandemia, maximiza a desigualdade de gênero. Equilibrar o trabalho em home office, as tarefas de casa, os cuidados (físicos e emocionais) com os filhos e com os outros membros familiares têm sido tarefas extenuantes para muitas delas, visto que o esgotamento/exaustão vivido pela divisão desigual de responsabilidades e afazeres, refletem a dificuldade da falta de equidade, gerando sintomas psicossomáticos e/ou transtornos psiquiátricos, alterando sua funcionalidade psíquica.

O adoecimento feminino é uma realidade cada vez mais presente na vida de muitas, nos dias atuais, devido as cobranças sociais externas determinando perfis incansáveis a serem seguidos, como se fossemos “mulheres maravilhas”. Este perfil inalcançável e irreal desencadeia pensamentos negativos de inferioridade às pressões emocionais internas frente as dificuldades no cumprimento das “obrigações” a serem executadas. O sofrimento emocional fomentado pela frustação de “não ter dado conta” desmistifica o excesso das atividades, esquecendo da quantidade deliberada de tempo e energia investida para o alcance do resultado concreto. 

Assumir que o cansaço físico/emocional é o limítrofe de suas ações, sendo o primeiro passo rumo ao resgate da saúde mental, suprimindo de vez a representatividade do estereótipo social de que mulheres são incansáveis, multitarefas, guerreiras, e que nasceram para isso. As mulheres podem ser fortes e ao mesmo tempo se sentirem esgotadas com as demandas diárias, pois não darão conta de realizar tudo, portanto, não precisam de julgamentos e nem de culpabilidades subjetivas ou externas.

 É preciso descontruir o conceito e os tabus históricos, culturais e sexistas dos gêneros, ressignificando o papel da mulher e do homem no seio familiar. O convívio em tempo integral, possibilita uma participação mais ativa do homem dentro de casa, favorecendo uma divisão mais igualitária, porém deve-se levar em conta a falta de habilidade na execução de determinadas tarefas não tão corriqueiras, sendo necessário um pouco de paciência de ambas as partes. Haja vista que é um período de reajustes, tornando-se natural o cometimento de falhas. 

O diálogo é fundamental para convivência familiar saudável, assim como o compartilhamento de deveres e responsabilidades entre todos os que coabitam o mesmo espaço. As atribuições domésticas não têm gênero e nem idade, faz-se necessário compreender a importância da integração de todos, inclusive dos filhos. Distribuir tarefas de forma justa e equitativa considerando a competência e a habilidade de cada membro familiar, de modo que ninguém se sinta sobrecarregado ou estressado, promove harmonia grupal, usufruída satisfatoriamente pela vivência da parceria familiar e do aconchego do lar.      

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