O ENIGMA DE MAIO DE 68. O ANO QUE TERMINOU EM 2013?

Wagner Gomes – Advogado

Vagner Gomes, rodeado, na Confraria Tucuju
Vagner Gomes, rodeado, na Confraria Tucuju

Dom Miguel de Unamuno, há um século, diz no seu livro “Do sentimento trágico da vida”, que a pergunta mais profunda do “Novo Testamento” é a de Pilatos: “O que é a verdade?”.

Dito isto, lembro-me das conversas que tive, com o meu amigo Afonso, no início da década de setenta, sobre o movimento estudantil francês, de maio de 68. O Afonso, filho de uma abastada família paraense, morador do “Quartier Latin”, estava lá, e sempre enfatizou que participar da “revolta” era uma verdadeira “curtição”. Era o ápice da “contracultura”, nas suas palavras.

Ontem à tarde, junto com Evaldy Motta, contemporâneo da Universidade Federal do Pará, no Bar do Pantojinha, na orla do Igarapé das Mulheres, ouvindo Osmar Junior, voltamos a lembrar do assunto e ele pediu que fizesse um texto sobre o fato.

Em casa procurei ajuda do “Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo”, de Leandro Narloch, da Editora LEYA, edição 2013.

De lá compartilhei:

“- A revolta dos estudantes franceses em maio de 1968 é considerada um momento sem precedentes da história mundial, “a maior greve geral da história” e “um levante mundial simultâneo com o qual revolucionários sonhavam desde a Revolução Russa de 1917” (Eric Hobsbawm, Era dos Extremos, Companhia das Letras, 2008, página 292). Cada vez que “o ano que não acabou” completa mais uma década, universidades organizam simpósios comemorativos, jornais imprimem cadernos especiais cheios de análises, fotos artísticas e artigos saudosistas. No entanto, passados mais de 40 anos desse festejado episódio, uma pergunta permanece no ar:

Contra ou a favor do que, afinal, os jovens franceses protestavam?

A vida nunca havia sido tão fácil para os franceses quanto em 1968. Os anos entre 1945 e 1975 ganharam o nome de les trente glorieuses, os trinta gloriosos anos em que a França passou das ruínas da guerra para uma melhoria espetacular de consumo e de padrão de vida.

O desemprego na França havia despencado, os salários tinham aumentado, as crises alimentares e racionamentos viraram conversas dos pais e avós, assim como as histórias de trabalho duro na fazenda. Os jovens já não precisavam trabalhar na lavoura: podiam estudar. A imensa maioria dos estudantes de 1968 eram os primeiros da família a sentar na cadeira de uma faculdade. Do fim da guerra até aquele ano, o número de universitários se multiplicou por seis, enquanto a população da França foi de 39 milhões para 49 milhões. E o que esses jovens de famílias remediadas fizeram quando, enfim, conquistaram o privilégio de passar boa parte da vida estudando e dormindo à tarde?

Coisas muito mais divertidas que estudar. Depois das brigas dos universitários com a polícia e com a direção da Universidade de Nanterre, começaram protestos na margem esquerda do rio Sena. No dia 10 de maio, os estudantes trocaram pedras por bombas de gás com a polícia e arrancaram placas de trânsito, lixeiras e paralelepípedos da rua para fazer barricadas…

O mistério sobre os motivos do Maio de 1968 é contemporâneo ao fato. Aqui no Brasil, numa crônica daquele mês, o escritor Nelson Rodrigues conta que percebeu a falta de motivo da revolta durante um jogo de futebol:

No intervalo de Fluminense x Madureira, um “pó de arroz”, muito aflito, veio me perguntar: – “Afinal, por que é que estão brigando na França? O que é que os estudantes querem?”. O torcedor me olha e me ouve como se eu fosse a própria Bíblia. Começo: – “Bem”. Faço um suspense insuportável. Fecho os olhos e pergunto, de mim para mim: – “O que é que os estudantes querem?”. Era perfeitamente possível que eles não quisessem nada. Por sorte minha, o jogo ia começar. Enxoto o torcedor fraternalmente: – “Vamos assistir ao jogo!”

Depois da vitória, fui para casa, na carona do Marcelo Soares de Moura (para mim, uma das poucas coisas boas do Brasil é a carona do Marcelo Soares de Moura). Quando passamos pelo Aterro, só uma coisa me fascinava, ou seja: – a hipótese de que os estudantes franceses estejam lutando por nada. Vejam bem. Hordas estudantis fazendo uma Revolução Francesa por coisa nenhuma.

Um dos poucos intelectuais franceses a ficar de fora da euforia dos jovens (e ganhar, por isso, a fama de chato de plantão) foi o filósofo Raymond Aron. Logo depois dos protestos, ele escreveu artigos e um livro afirmando que o Maio de 1968 não foi uma revolução, e sim uma encenação de revolução, uma sessão de psicodrama destinada a tratar problemas afetivos e emocionais, não políticos. “Em vez de levar os estudantes a sério, temos que entender o que eles sentem”, escreveu. Para Aron, as exigências em si não eram importantes: o principal era a renovação do sentimento de esperança numa época em que as utopias pegavam poeira. “Os homens de esquerda, privados de sua utopia desde o stalinismo, acharam ter redescoberto o que sempre sonharam, uma revolução que não acabaria em tirania e brutalidade”, ele escreveu no livro La Revolution Introuvable (“A revolução esquiva”). Aron ainda acrescenta: “Por que deveríamos admirar esses clubes pseudojacobinos onde pseudorrevolucionários discutem pseudorreformas em sessões intermináveis?”.

Alguns traços bem conhecidos do Maio de 1968 são os grafites e os cartazes com os dizeres “É proibido proibir” ou “Seja realista: exija o impossível” “Nós não queremos um mundo onde a garantia de não morrer de fome traz o risco de morrer de tédio” “Tédio é contrarrevolucionário”…

É claro que os estudantes tinham causas e bandeiras – mas é aí que a coisa fica pior. Eles pediam o fim da proibição de casais nos dormitórios universitários, o recomeço das aulas na Universidade de Nanterre e Sorbonne (fechadas depois dos primeiros conflitos), o fim da presença da polícia nas universidades e mudanças no horário de fechamento dos prédios. Além dessas questões mundanas, faziam ataques gerais à sociedade de consumo, à Guerra do Vietnã e uma grande ode à Revolução Cultural Chinesa.
É, a China. Nos anos 60, uma desilusão com o comunismo soviético pairava na Europa. Em 1956, o líder soviético Nikita Kruschev deixou o mundo de queixo caído ao denunciar, em pleno congresso do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, as perseguições, os assassinatos e os casos de genocídio de seu antecessor, Josef Stálin.

Mao parecia aos estudantes e intelectuais franceses um líder mais zen que os colegas soviéticos. O homem escrevia poesias e dava ensinamentos políticos tão esquisitos que lembrava um mestre de filme B de kung fu, como “a ação não deve ser uma reação, mas sim uma criação” ou “viver não consiste em respirar, e sim em fazer”. Em 1966, Mao lançou no país a Revolução Cultural. Era mais um massacre bizarro de inimigos políticos que algum tipo de renovação, mas os franceses mais descolados projetaram ali a tão sonhada revolução dentro da revolução, um sistema que nunca perderia os objetivos utópicos e o ímpeto revolucionário. “A China de Mao se tornou a projeção para as superaquecidas fantasias estudantis”, conta o historiador americano Richard Wolin.

No dia 10 de maio de 1968, apareceu em Paris o grafite “É proibido proibir”, em oposição ao tradicional “É proibido colar cartazes”. Enquanto isso, na China, Mao Tsé-tung proibia a população de reclamar da educação (sob pena de morte), de se mudar para outras regiões do país, de abandonar a lavoura, de armazenar grãos e, até mesmo, de ter fogão e panela em casa.

Por sorte, o tempo passou. Muitos dos filhos do Maio de 68 seguiram o conselho de Nelson Rodrigues (“Jovens, envelheçam o mais rápido possível!”), largaram antigas crenças, pararam para pensar e, com uma tremenda cara de amnésia, se perguntaram: “Onde, afinal, estávamos com a cabeça?”. Um deles foi o filósofo Luc Ferry, ministro de Educação da França durante o governo Jacques Chirac. “Tínhamos duas grandes utopias, a pátria e a revolução, e eu sou daqueles que acordam todos os dias e se alegram quando lembram que essas coisas acabaram”, diz ele. “O maoismo matou milhões de pessoas. Qual é a nostalgia que se pode ter por isso? O que admirávamos era lixo.”

O mais impressionante é que, naquele mesmo ano, uma revolução legítima e verdadeira estava acontecendo na Europa: a Primavera de Praga. Desde o começo de 1968, os tchecoslovacos tentavam se livrar das unhas da União Soviética e cuidar da própria vida. A festa em Praga acabou quando a União Soviética mandou 2 mil tanques invadirem a cidade.

Depois de 15 dias de barricadas e choques com a polícia, os jovens, que empunharam cartazes dizendo que iriam tomar o que quisessem e que aboliriam os chefes, voltaram para casa e foram arrumar o quarto. A polícia e o governo se surpreenderam com a facilidade em debelar a multidão. No dia 30 de maio, cerca de 1 milhão de franceses marcharam pela avenida Champs-Élysées contra os estudantes e em apoio ao general De Gaulle. Nas eleições parlamentares de junho, os partidos conservadores, que o apoiavam, obtiveram uma vitória acachapante, com a esquerda perdendo 99 assentos na Assembleia Nacional Francesa. Os paralelepípedos voltaram ao chão das ruas de Paris, e as universidades reabriram. Mas houve, sim, um grande legado do Maio de 68: uma infinidade de intelectuais tentando entender o que, afinal, aqueles jovens queriam…”

– Enquanto isso no Brasil…

Em artigo publicado recentemente em revista de circulação nacional, Paulo Cesar Araújo, autor  da biografia proibida de Roberto Carlos, conclui:

“- Na introdução de 1968 – O Ano que Não Terminou, Zuenir Ventura diz que, embora aquela geração não tivesse conseguido realizar seu sonho de revolução total, havia deixado um importante legado: “Arriscando a vida pela política, ela não sabia, porém, que estava sendo salva historicamente pela ética. O conteúdo moral é a melhor herança que a geração de 68 poderia deixar para um país cada vez mais governado pela falta de memória e pela ausência de ética”. Bem, o livro de Zuenir foi publicado em 1988, quando o presidente era Sarney e a oposição do PT e do recém-fundado PSDB tinha a ética como uma de suas principais bandeiras. Hoje, após tantas e tenebrosas transações, esse legado da ética na política já não cola tanto na geração de 68. A aura de resistentes e transgressores, porém, ainda pairava em torno de figuras da cultura como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Depois do episódio das biografias, essa imagem também ficou arranhada. Nesse sentido, podemos dizer que o ano de 1968 finalmente terminou – em 2013. E, até aqui de forma melancólica.”

P.S. Dedico o texto ao professor e historiador da UNIFAP Dorival Santos (Nei).

  • …ou seja, desde Pilatos é necessário reescrever a história… ou ela se reescreve por si só… quanto ao que vem a ser a verdade, simplesmente ela não existe… tudo depende sob que ponto de vista presenciamos os fatos… e para os que não os presenciamos, resta-nos escolher em quem acreditar…

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