Mulheres: Entre tantos desafios, a maternidade em meio à pandemia. Nascendo mãe em 2020

*Renata Ferraz. Psicóloga Clínica 

Desde a mais tenra idade as mulheres são “ensinadas” a cuidar, a ser mãe. Ensinamento fruto de um modelo estrutural patriarcal imposto pela socialização e pelos construtos sociais normatizados. Em sua grande maioria, tais “treinos” de cuidados começam ainda nas brincadeiras, que devem ser sempre “femininas” como: ser a mãe das bonecas, fazer comidinhas e limpar a casinha imaginária. A medida que cresce de menina a pré-adolescente os “cuidados” mudam das bonecas para os irmãos, as tarefas domésticas cotidianas, para casamento real e por fim a maternidade.

Durante toda a vida as mulheres são “cobradas” e “incentivadas” à maternidade, que surgem de qualquer segmento social: da família, do próprio casamento, do trabalho, do círculo de amizade e até de si mesma. Sempre haverá em algum momento o questionamento: “Já tem filhos?” Caso a resposta seja negativa, vem sempre acompanhada da estranheza e das frases: “como assim?”; “o tempo está passando!”; “você tem que ter!”

Então, inevitavelmente muitas mulheres ao longo da vida questionam-se sobre o tão propalado “instinto materno” e sobre a maternidade. A decisão de ser mãe ou a recusa, gera sempre um conflito emocional interno, visto que não faltam julgamentos cheios de pressões sociais e carregados de rótulos, tais como: insensível, egoísta, incompleta, cruel, sem coração, entre vários outros. Entretanto, como não existem manuais e cursos que ensinem uma mulher a ser mãe, cada uma delas vivencia solitariamente, suas angústias, anseios, desafios, dúvidas e incertezas diante da decisão da maternidade.

A reflexão sobre os estereótipos e desmitificações criados em torno da romantização ou da imposição da maternidade concede espaço para uma análise individual, regida sob uma ótica mais realista e sem tabus. Afinal, por trás de cada mãe que ama e cuida de seu filho, há uma mulher que precisa enfrentar todas as dificuldades, “perrengues”, privações, temores, julgamentos, cobranças, dores e no Brasil, em muitos casos, a violência obstétrica que uma maternidade pode desencadear.

Contudo, mesmo reconhecendo todas as adversidades e provações da maternidade, muitas mulheres optam pelo aumento da família e a continuidade de suas gerações, seja pela pressão social, por uma gravidez não planejada ou pelo desejo pessoal. Desta forma, desenvolvem habilidades e capacidades funcionais de dedicação, perseverança e resiliência para cumprir com o papel maternal que ressignifica suas vidas.

Para tornar-se mãe não há necessidade de título ou experiência, tão pouco é uma escolha que chega com normas instrucionais, por isso é uma experiência única, pessoal e incomparável. Seja esta maternidade biológica ou adotiva, pois quando nasce um filho, nasce também uma mãe. Essa equação traz a ideia que ambos vão se constituindo quase ao mesmo tempo.

A chegada do primeiro filho, normalmente é muito complicada para as mães de “primeira viagem”. Além das inseguranças sobre os cuidados com o bebê, há uma mudança total na rotina e na constituição física e hormonal da mulher que podem se tornar um entrave para os cuidados com o bebê e consigo mesma. Diante de todo esse cenário de mudanças que a chegada de um neonato provoca em situações normais, como se processa esse momento em meio a pandemia provocada pela Covid-19, quando muitas mulheres estão sem poder contar com a rede de apoio de familiares e/ou amigos, que sempre ajudam muito nesse período?

Para muitas mulheres vivenciar a maternidade sem o compartilhamento desse momento com os seus, tem gerado um comprometimento na saúde mental, devido a sensação de desamparo e solidão, intensificando os medos, ansiedades e as inseguranças, originando alguns distúrbios psíquicos e em casos mais graves, depressão. Dentro deste contexto, vale ressaltar que durante a gravidez ou no pós-parto a mulher fica mais exposta a desenvolver transtornos mentais, devido as alterações neuroquímicas e hormonais comumente associadas as fases do ciclo reprodutivo, ou seja, fora as mudanças físicas, ocorrem significativas alterações emocionais/psicológicas e mudanças de temperamento, comuns em cada período e que refletem no comportamento da mãe e no seu bem-estar.

Neste sentindo, além dos cuidados com a saúde física, as gestantes ou puérperas precisam ficar atentas as precauções com a saúde psíquica, identificando alguns sinais de alerta como: a perda de prazer em realizar atividades ligadas a maternidade, pensamentos negativos recorrentes, autocríticas excessivas quanto a autoimagem, fadiga e falta de autocuidado. Devendo então, procurar um auxilio profissional especializado visando um enfrentamento e minimização da sintomatologia vivenciada.

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