Moraes Moreira ecoou o suingue elegante de um Brasil possível

* Sergio Rodrigues, na Folha de São Paulo 

 

Nunca troquei uma palavra com Moraes Moreira. Tive muitas chances de fazer isso: vizinhos no bairro carioca da Gávea, nossos caminhos se cruzavam com frequência. Sempre sozinho ou acompanhado do cachorro, com ar triste, o senhor Novos Baianos me fazia recuar, por timidez ou outro sentimento pateta, da abordagem tantas vezes cogitada.

Como seria a abordagem? Salve, Moraes. Queria te agradecer por tudo. Tudo o quê? Tudo, ué. Um dos melhores discos da música brasileira de todos os tempos (há quem escale “Acabou Chorare” no alto do pódio sem titubear). A marcante voz anasalada, melodiosa, precisa. O suingue malandro, a elegância artística. O maior talento de uma turma talentosíssima.

O agradecimento se estenderia para além dos Novos Baianos. Os frevos irresistíveis da carreira solo também entrariam. Como entraria o lamento do fundo da alma rubro-negra pela partida de Zico para a Itália em 1983. “E agora como é que eu fico/ Nas tardes de domingo/ Sem Zico no Maracanã?”

A associação é fácil, mas inevitável: e agora como é que eu fico, neste triste Brasil governado por malandros otários, sem a alegria e a malandragem de Moraes Moreira? E agora como é que eu me vingo de tanta deselegância sem a elegância daquele cabeludo?

Claro que minha abordagem na rua, se tivesse existido, seria bem menos prolixa. Acho que eu ia me limitar a agradecer por tudo e seguir caminho. Mas nunca fiz isso. A gente tende a acreditar que tem tempo, até o dia em que não tem mais.

Não duvido que tenha sido por cruzar com o Moraes tantas vezes na rua, anos a fio, que eu desenvolvi a desfaçatez necessária para transformá-lo em personagem. Não o consultei, como não consultei ninguém: o que eu queria fazer era ficção pura, ainda que com personagens reais da cultura pop-popular. Com sorte, nem tudo é mentira.

O livro “A Visita de João Gilberto aos Novos Baianos” (Companhia das Letras, 152 págs., R$ 44,90) saiu em junho do ano passado, quando eu já tinha me mudado da Gávea para o Jardim Botânico. Vizinhança interrompida, não vi mais o Moraes.

Imperdoavelmente, também não lhe enviei pelo correio um exemplar autografado com o agradecimento que àquela altura teria mais substância do que uma declaração de fã aleatório na rua.

Há um ano, por ocasião do Festival da Língua Portuguesa, em Salvador, vi um show do Moraes na praça. As pessoas pulavam, mas sua voz capaz de fazer zunzum e mel o tinha abandonado de vez. Entendi o ar triste dos encontros na Gávea.

Não ter procurado Moraes Moreira depois de publicar um conto em que ele é personagem, encarregado de projetar ao lado de João Gilberto a ideia de um Brasil possível, genial e doce, tudo ao contrário deste, é um arrependimento agora irremediável.

Claro que minha abordagem na rua, se tivesse existido, seria bem menos prolixa. Acho que eu ia me limitar a agradecer por tudo e seguir caminho. Mas nunca fiz isso. A gente tende a acreditar que tem tempo, até o dia em que não tem mais.

Não duvido que tenha sido por cruzar com o Moraes tantas vezes na rua, anos a fio, que eu desenvolvi a desfaçatez necessária para transformá-lo em personagem. Não o consultei, como não consultei ninguém: o que eu queria fazer era ficção pura, ainda que com personagens reais da cultura pop-popular. Com sorte, nem tudo é mentira.

O livro “A Visita de João Gilberto aos Novos Baianos” (Companhia das Letras, 152 págs., R$ 44,90) saiu em junho do ano passado, quando eu já tinha me mudado da Gávea para o Jardim Botânico. Vizinhança interrompida, não vi mais o Moraes.

Imperdoavelmente, também não lhe enviei pelo correio um exemplar autografado com o agradecimento que àquela altura teria mais substância do que uma declaração de fã aleatório na rua.

Há um ano, por ocasião do Festival da Língua Portuguesa, em Salvador, vi um show do Moraes na praça. As pessoas pulavam, mas sua voz capaz de fazer zunzum e mel o tinha abandonado de vez. Entendi o ar triste dos encontros na Gávea.

Não ter procurado Moraes Moreira depois de publicar um conto em que ele é personagem, encarregado de projetar ao lado de João Gilberto a ideia de um Brasil possível, genial e doce, tudo ao contrário deste, é um arrependimento agora irremediável.

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