Macapá – Histórias que ainda não foram contadas.

Por Roberto C. Limeira de Castro*

Foi com imensa satisfação que recebi da jornalista Alcilene Cavalcanti a honrosa incumbência de escrever algumas linhas autorais sobre a história de Macapá, creio, ainda não reveladas, para este prestigioso Blog Repiquete do Meio do Mundo.

Sou um paraibano muito identificado com a história e o desenvolvimento do Estado do Amapá, de sua Capital a gloriosa Macapá e da Amazônia. Estudo o assunto desde que me envolvi com o desafio de escrever sobre o espinhoso tema da criação de novos Estados no Brasil, lá pelo início dos anos setenta, quando ainda trabalhava no grupo editorial Abril em São Paulo. Comecei timidamente rabiscando os poderosos mapas rodoviários da revista Quatro Rodas e acabei mergulhando para sempre nas histórias de todas as unidades federativas do Brasil, sobre as quais consegui amealhar uma portentosa biblioteca com livros históricos raros que conta essa história desafiadora.

Assim, acabo de completar cerca de 50 anos de estudos sistemáticos a respeito deste desafio que o país tem que enfrentar para sair do atoleiro do subdesenvolvimento e da intolerância fundiária. Quis os desígnios da história que nos anos entre 2001 e 2010 tivesse que residir em Macapá por razões familiares.

Foi exatamente através dessas extensivas pesquisas que encontrei algumas preciosas pistas ainda inéditas para a publicação sobre a sempre surpreendente cidade de Macapá.

Portanto, o filão que escolhi para pesquisar sobre a história do Amapá foi o método da leitura de autores de estudos retumbantes sobre a Amazônia e as centenas de mapas históricos antigos desde as épocas pré-cabralinas.

Esta busca renitente para provar a incongruência da repressão ao tema pelas cortes do Sudeste e de Belém me levaram a estudos de fatos históricos estupendos como a própria história da cartografia do país, iniciada pelos padres cosmógrafos Diogo Soares e Domingos Pascacci e pelo cartógrafo e arquiteto ítalo-amapaense Antonio Henrique Galluzi.

Nomeados pelo Rei de Portugal em 1729, estes verdadeiros heróis da resistência fizeram um levantamento geográfico e topográfico do Brasil, incluindo todas as rotas percorridas pelos principais estudiosos anteriores e desenharam vários mapas sobre todas as províncias existentes e seus potenciais em se tornar Capitanias do Império Luso-Brasileiro. A ordem veio do Rei de Portugal por influência do Marquês de Pombal.

O relatório da Comissão foi publicado em 1763 e encontra-se escondido em algum baú secreto de Brasília. Esses mestres da matemática foram os precursores da cartografia brasileira e da criação do IBGE. Graças ao Padre Aires de Casal que o recebeu em sigilo e ao Visconde de Porto Seguro que publicou os mapas, pude desvendar esta história secreta do futuro geopolítico e estratégico-militar do Brasil.

Não precisa ser adivinho para saber que entre esses Estados atrasados estava a desafiante Capitania do Cabo Norte já extinta por motivos não explicados, que se tornou na verve dos membros da “Comissão Geographica do Vice-Reino do Império do Brazil” a poderosa Capitania da Guiana Brasileira Oriental cantada em verso e prosa, nos mínimos detalhes, pelo secreto padre Aires de Cabral e sua famosa Corografia Brasílica.

Deste modo, o aprofundamento do tema me levou a outras descobertas para além do tema da reorganização territorial das unidades político-administrativas faltantes do país, que considero importantes do ponto de vista estratégico-militar e geopolítico e que demandam muito mais investigações e pesquisas científicas.

Entre estas, proliferam novas interpretações etnológicas e arqueológicas sobre a existência de aldeias de centenas de grupos indígenas extintos, como os índios Macapás que habitavam à cabeceira do Rio Macapá, cujas águas singravam o território coberto pela malha urbana planejada de Macapá, assim como, outros grupos que dividiam este território como os Aroubas (2 aldeias) e os Meronis (2 adeias). O Rio Macapá é citado no livro La Rivière de Vincent Pizón, página 74 na nota 1 abaixo e no texto da mesma página, como Riviêre de Macapá, Rivière de Makaba ou Makapa.

Mapa do Cartógrafo Francês Guillaume D’Isles de 1703 onde aparece a aldeia dos índios Macapás há poucos quilômetros da cabeceira do Rio Macapá em seu traçado natural que deu origem ao nome da cidade. Nesta época e provavelmente desde 1637 nos estertores do domínio espanhol e a posse de Bento Maciel Parente como donatário da Capitania de Cabo Norte, aparece o nome dado pelos Castelhanos de La Vera Cruz de Macapá. O nome espanhol homenageava a verdadeira Cruz de Cristo Crucificado descoberta por Santa Helena no Santo Sepulcro, após um sonho e um milagre.
Vejam a denominação francesa de Ticoutous com cinco aldeias.

Estes foram os primeiros moradores da cidade e não os índios ticunajês, conhecidos como tucujus, da etnia Macro-jê que viviam inicialmente na Ilha Grande de Gurupá e depois formaram outras aldeias em todas as mesopotâmias do sul e sudoeste do Estado. Antes dos territórios dos Ticoujous como chamavam os franceses e tisnados sob denominação dos holandeses, havia o território dos Ariuns na grande Macapá que dominavam os atuais bairros das bandas do marco zero entre o Rio Macapá e o Rio Matapi, incluindo o município de Santana. Estes também imigraram do arquipélago de Marajó, como muitos amapaenses hodiernos também o fizeram, mesmo sem canoas particulares à disposição, e por questões de sobrevivência e progresso.

Nota 1 da página 74 do Livro “La Rivière Vicent Pizón, Études cartographiques sur la Guianes,” onde o autor Paul Vidal de La Blache (1845-1918) confirma a existência do Rio Macapá ou Rivière Makaba (Makapa) e descreve o início dos estudos arquitetônicos e de engenharia estratégico-militar da Fortaleza de São José por volta de 1688 na gestão do Governador do Pará Antonio d’Alburquerque que também havia governado a Paraíba em 1634 durante a invasão holandesa ao Estado dos Tabajaras.

Exatamente, como mostram os mapas incontestáveis do cartógrafo francês Guilherme D’isles de 1700, 1703 e 1729, dos quais apresentei acima o de 1703, que inclui a cidade esquecida de La Vera Cruz de Macapá, denominação cunhada pelos espanhóis durante o Reinado de Felipe que vai de 1580 a 1640. Evidente que não haveria uma cidade criada para homenagear a verdadeira cruz do Cristo Crucificado pela a Igreja Católica Espanhola e Romana, sem pelo menos uma capela ou igreja com a proteção divina da Cruz de dupla trave de Caravaca, descoberta por Santa Helena.

Macapá já cidade com um vasto casario em mapa de João Vasco Manuel de Brau onde aparecem o canal do Jandiá ao norte e uma simples referência ao forte de Comaú destruído em 1632 ao sul da linha do Equador na foz do Igarapé da Fortaleza 1.

Guilherme D’isles mostra os dois forte separados pela linha equinocial em mapa de 1703 o que desmente a versão que um foi construído sobre a ruína do outro

A prova da existência da cidade desvendada está no Dicionário Lexicon de Hübners com direito a um verbete extenso para a época, publicado em 1787 em Leipzig, que descreve a recém reconhecida cidade de La Vera Cruz de Macapá em 1752 e não 1758, que segundo o autor já pertencia aos portugueses desde 1713 com a assinatura da paz de Ultrecht.

Verbete citando Vera Cruz de Macapá no dicionário lexicon da autoria de Hübners publicado em 1787 em Leipzig, totalmente baseado em mapas da época. Destaco em alemão a palavra Stadt que significa cidade, correspondente a Ville em francês com o mesmo significado. Portanto, Macapá foi elevada à condição de Cidade em 1752, segundo o autor, mas já existia sob o comando dos portugueses desde o tratado que celebrou a paz de Ultrecht em 1713. Como vila Macapá já existia desde o período do domínio espanhol ulterior à 1637 durante a posse de Bento Maciel Parente com Capitão Mor.

O viés do estudiosos alemão em favor dos franceses esquece completamente a Capitania de Cabo Norte concedida ao fidalgo português Bento Maciel Parente, assumida por carta régia em 1637 que se estendia até os confins do Rio Jamundá na divisa com a antiga Guiana Portuguesa Ocidental, atual Amazonas, com a sua sede em Almeirim e os entreveros entre os lusos e os ingleses, franceses e holandeses desde a fundação de Belém ou porque não, desde a visita de Vincente Iañes Pizón (1500) e Orellana (1542)

Página frontal do Dicionário Lexicon de Johann Hübners de 1787 em escrita gótica, que contém todos os acidentes geográficos, cidades e outros tópicos em 1581 páginas, editado em Leipzig no antigo Império Alemão.

Temos que levar em consideração que a palavra Ville em francês não é vila, mas cidade e que o Lexicon foi feito com base nos mapas e relatos dos navegadores da época, com as suas preferências e origens nacionais.

Há muitos temas a serem discutidos, para os quais cabem pesquisas e documentos comprobatórios conclusivos e incontestáveis sobre a decisão da igreja católica de nomear a cidade como La Vera Cruz de Macapá, a antiga igreja, o cruzeiro da cruz verdadeira, o trajeto do rio Macapá, as aldeias existentes e principalmente, a Capitania da Guiana Portuguesa Oriental descrita na Corografia Brasílica nos mínimos detalhes.

Tenho esperanças que os pesquisadores da Unifap – Universidade Federal do Amapá, bem como, da Universidade Estadual e historiadores laboriosos como o Dr. Nilson Montoril decifrem de uma vez por todas esses mistérios quase insondáveis da história deste povo de mais de 500 anos.

O arqueólogo holandês Martijn Van den Bel lançou as suas mais recentes investigações arqueológicos sobre a forma de livro, em que descreve marcantes fatos sobre os índios da Ilha de Caiena até o Rio Meroni, onde descreve a minha tese sobre a primeira denominação do Amapá como Tisnada ou Província dos Tisnados, feita há mais de 7 anos atrás, descritas nos mapas holandeses da época, em referência à poderosa etnia Ticuju dos índios escuros com tintura de Jenipapo verde do seu rio preferido. Tive acesso apenas ao capítulo 10 que fala sobre o tema na página 470 do Evento Colonial do seu livro. Os Meronis tinham duas aldeia em Macapá, à margem direita do Rio Jandiá e três na margem esquerda do Rio Araguari, além de outras no próprio Rio Meroni. Esses estudos arqueológicos de importantes sítios em escavação levarão à preciosos estudos genéticos sobre a origem e deslocamentos desses ameríndios do sul asiático para as florestas amazônicas. Um enorme filão de pesquisas para os mestres e doutores das Universidade amapaenses – Arqueologia, Etnologia e Genética dos grupos indígenas que povoaram o Estado.

Voltarei ao assunto em breve.

* O autor é bacharel em Ciências Econômicas pela UFPB, tendo exercido funções administrativas em grande grupos empresariais de São Paulo e na Universidade Federal da Paraíba. Como pesquisador, desde o início dos anos setenta tem se dedicado ao estudo da história de todas as unidades de federação no palpitante tema da Reorganização Territorial do Brasil. Esteve residindo em Macapá entre 2001 a 2010.

  • Excelente documentário, o início de uma história que poucos conhecem ou já leram; Bento Maciel Parente deixou sua história aqui pelo nosso Município de
    Almeirim desde 1636 quando das invasões dos Holandeses pelos nossos rios; história que deve ser continuada, pois, temos falta dum documentário completo que inicie desde 1636 até a criação do Território do Amapá; a história da doação do Cabo Norte que envolveu toda uma imensa região e como terminou esta doação; muitas curiosidades históricas ainda estão no anonimato; por favor, não pare com este documentário. Heraldo Amoras_Monte Dourado_Almeirim-Pará-PA

  • Agradeço ao Heraldo Amoras por confirmar a informação sobre a sede em Almeirim e seria muito importante que descobrisse provas efetivas do fato como monumentos e escritos feitos pelo Bento Maciel Parente, enviando fotos e possíveis cópias à Alcilene ou para o meu e-mail – [email protected]. Por exemplo, existe alguma ruina do forte de Desterro ou qualquer monumento e edifício construídos pelo Capitão Mor em Almeirim? Na rede mundial não existe quase nada sobre a Capitania de Cabo Norte. A donatária existiu por cerca de 15 anos que é muito tempo para deixar fortes vestígios históricos de sua existência.

  • Parabéns Alcilene por esse preciosidade histórica. O texto já faz parte dos meus favoritos. Parabéns ao autor Roberto castro. Continue nos brindando com essas pérolas, principalmente sobre Mazagão Velho.

  • Caro Autor, muito enriquecedora sua pesquisa, porém me deixou uma enorme duvida. O antigo Rio Macapa é o hoje chamado canal das pedrinhas/beirol??? Grato pela atenção

    • Caro Santiago. Pelo traçado do Rio Macapá como se encontra no mapa de Guilherme D’Isles de 1703, o rio tinha a sua nascente na parte alta do bairro de Santa Rita descia por uma rua paralela à Av. Procópio Rola ( sentido oeste-leste) e cruzava toda a malha de avenidas da cidade numa derivação Norte-Sul, cruzando a Av. Fab e todas as seguintes, retomando o curso oeste-leste em direção ao Rio Amazonas onde, antes de formar uma grande ressaca nas imediações da Cora de Carvalho e arredores, seguia pelo centro até o velho Igarapé do Igapó (aterrado). A impressão que dá é que durante as obras de drenagem da cidade o rio foi desviado parte para o Canal da Mendonça Júnior e parte para o canal das Pedrinhas. São canais subterrâneos que somente serão possíveis de indicação pela Caesa – Companhia de Águas e Esgotos do Amapá ou por algum historiador muito conhecedor dos canais ocultos de Macapá. O trajeto antigo do Rio Macapá é ponto crucial para entender a história da cidade, devido as aldeias indígenas existentes na sua margem direita (1 dos índios Macapás e 2 dos índios Aroubas). Esses indígenas começaram o pequeno entreposto comercial com os forasteiros que navegavam pelo Rio Amazonas na foz do Igarapé, dando origem à cidade. O entreposto já se chamava Macapá ou Makaba, que foi crescendo com a chegada das grandes caravelas dos franceses, ingleses, holandeses, portugueses e espanhóis. Os lusos não permitiam a navegação no Rio Amazonas e os reprimiam com armas, soldados e centenas de índios armados com flechas, tacapes, bordunas e lanças. O Rio foi liberado à livre navegação após a abertura dos portos em 1808. A prova que o entreposto já se chamava Macapá é que os espanhóis a denominaram de La Vera Cruz de Macapá durante o domínio castelhano do Rei Felipe no período entre 1580 e 1640.

      • Uma correção na resposta ao Sr. Santiago. Os índios Macapás e Aroubas tinham aldeias na margem esquerda do rio, em vez de direita como escrevi. São as aldeias 15 e 8 do mapa maravilhoso do geógrafo francês François Froger do final do século XVII (1695-1698).

  • Por favor Alcilene. Se tiver o e-mail do Sr. Santiago, informe-o que a sua premissa estava correta. O Rio Macapá era mesmo o Canal das Pedrinhas. Encontrei dois ou três mapas que confirmam a ideia dele, os quais comparei com as imagens do Google Terra que confirmam o traçado do Rio Macapá a partir da Rua Hildemar Maia onde desponta da parte subterrânea. Macapá nasceu ao sul do Equador no lado esquerdo da foz do Rio Macapá, onde fica a comunidade das Pedrinhas/Araxá. Se me enviar o seu e-mail enviarei os mapas para o mesmo. Obrigado

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