Macapá em utopias (1)

*Marco Chagas. Professor. Doutor em Gestão Ambiental

Iniciamos aqui uma série de artigos sobre o título “Macapá em utopias”. A ideia não é minha e sim da Alcilene Cavalacante que, ao contrário de mim, acredita que tenho algum talento para escrita. Este é sobre tradição, modernidade e saudade.

Eu queria terminar logo meu serviço, mas o escovão de ferro não poderia cessar os movimentos até o assoalho de madeira responder ao pôr do sol. O suor chegava aos olhos em gotas de sal e eu não reclamava. 

Essa era minha rotina doméstica há 40 anos, lá pelas bandas do Bairro Alto, na fronteira com o Formigueiro, quando as tarefas domésticas eram divididas pelo poder matriarcal e Macapá era uma comunidade de acolhimento fraterno.

Em tempos modernos, estou a deslizar um rodo umedecido com fragrância de lavanda no piso cerâmico e, apesar do menor esforço, o suor voltou a procurar meus olhos, mas em lágrimas de saudades de uma Macapá já entardecida. 

Sem a pretensão da nostálgica afirmação de que “no meu tempo era melhor” e talvez sensibilizado pelo isolamento da Pandemia, dei uma parada para pensar em conceitos que talvez não sentia pelo tempo que se foi, como tradição e modernidade. 

A introdução retrô acima é mais uma metáfora para nos transportar a refletir sobre a modernidade como uma invenção que traz saudade pela tradição perdida. Seria possível rejeitarmos a modernidade ou mesmo ressignificá-la em complementaridade a tradição? É possível voltarmos no tempo para pensar em Macapá como uma cidade de saudades restauradas? Tento refletir e formular algumas questões para provocar o consenso, sem a pretensão de respostas fáceis: 

1) É possível voltarmos a andar de bicicleta pelas ruas de Macapá, como fazíamos na adolescência? Muitas cidades no mundo estão radicalizando sua mobilidade com o uso da bicicleta. É bom para a saúde, é bom para a natureza. 

2) É possível voltarmos a “jogar conversa fora” sentados em frentes de nossas casas? Esse é uma tradição ainda presente em Macapá e nos educa para princípios comunitários. 

3) É possível restaurarmos nossas memórias urbanas? A arquitetura restaurativa tem muito a contribuir e alguns espaços de nossos encontros ainda resistem em Macapá. 

4) É possível humanizarmos nossa cidade com equidade? Essa é a tarefa mais difícil, pois existem em Macapá vários territórios que se movimentam fora das regras de Estado. Macapá tornou-se a cidade das desigualdades e das ausências. 

Resgate de memórias são estratégias de gestão de cidades. Pensemos nos lugares que visitamos em nossas viagens. São somente prédios modernos, futuristas, artificiais? Ou também são lugares afetivos que nos atraem pela cultura e pela tradição?

Minha utopia para Macapá é poder “canoar” pelo Igarapé da Fortaleza, atravessar a Lagoa dos Índios e chegar na foz do Jandiá, num típico roteiro urbano amazônico das águas… e isso é possível! É poder voltar a andar a pé pelo Trapiche Eliezer Levi em busca de inspiração, como fazia o Poeta do Cais, Alcy Araújo… e isso é possível! É poder andar pela cidade no afago da brisa do vento em sombras plantadas. Plantar árvores é possível! 

Macapá é uma cidade com 500 mil habitantes, sem saneamento e com 90% da população amontoada deselegantemente no eixo Igarapé da Fortaleza-Curiaú. Possui 100 mil pessoas, sendo 25 mil crianças, vivendo em condições subnormais, principalmente em áreas de ressaca. Acredito que a realidade é muito mais impactante. 

Proponho um recomeço a partir da transgressão à modernidade das soluções importadas. Para isso se faz necessário a inversão das políticas públicas em um esforço de inclusão a tradição para reinventar o que perdemos ou abandonamos pelo tempo do descuido e da modernidade. 

  • Somente um pessoa com tanto talento poderia trazer de volta essas memórias escondidas pelo tempo.
    Parabéns Pacha mama, Marco Chagas !

  • Mais árvores, mais sombras e andar de bicicleta .. seria um sonho!
    Sentar na calçada para papiar? Passa lá na Mendonça Furtado final da tarde que vc encontrará um senhor com muitas lembranças de uma antiga Macapá que parecia ser muito boa!!
    Acho que podemos sempre ressignificar algo!

  • Um texto que me faz pensar que não existem utopias quando podemos fazer escolhas. Parabéns grande Marcos Chagas.

  • Parabéns Marco pelo lindo texto! Veio a memória a saudade do papo da “calçada da fama”, lá no bairro Alto, capitaneada pela nossa matriarca, que se embonecava toda a espera dos assíduos requentadores!
    O texto não é saudosista, mas uma grande proposta de aplicação de verbas públicas com vistas ao bem estar da população.
    Ah, sim! Gostei muito da comparação entre o escovão e o novo brilho que estás a dar! Grande abraço!

  • Grande mestre Marco Antonio! Bom voltar a ler e sentir suas idéias e pensamentos. Infelizmente Macapá está mais para Morus, como aponta o titulo de seu escrito.
    O componente migratório jamais permitirá a organização territorial dessa nossa bela cidade.
    O ilhéu é com certeza o maior migrante para essa plagas. E trás consigo todo um “modus vivendi” em suas ilhas: palafitas, falta de aparelhamento sanitário, costumes de jogar tudo lá no final da ponte, sobre água dos rios. São séculos, assim.
    Quando aqui chegam e vem as ressacas, se sentem em casa. E com melhores apetrechos que não tem nas ilhas: aqui tem energia 24 horas, água encanada por debaixo da passarela( é só serrar o cano e ela jorra), supermercado, e etc… Todo um paraíso urbano. E como se fosse na ilha.
    Conheço centenas e centenas de pessoas que ganharam lotes urbanizadas, mas na primeira oportunidade, vendem e retornam para as baixadas e margens dos canais. É cultural. Não tem jeito.

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