Kumarumã: a aldeia que ensina a viver

Por Mariléa Maciel. Jornalista
1-Indio Galibi Maruorno foto MARCIA DO CARMO
Percorrendo o rio Uaçá, segue-se o curso do rio Curipi em uma viagem onde os mitos se confundem com a realidade. Na viagem de voadeira, as inúmeras histórias dos jacarés da região não me deixaram sentir nas mãos a água jogada pela velocidade do motor ou dar uma esticada colocando as pernas para fora do barco, carregado de combustível e mantimentos.
“Não precisa ter medo, eles só ficam estirados pegando sol na beira do rio a partir de setembro”, me dizia seu Genésio. Então lembrei que agosto acabava em três dias e, por via das dúvidas me encolhi dentro do barco e tremi o corpo quando vi um bicho cascudo, que antecipou o calendário, a nos espiar. Pronto, agora ele vem por baixo e vira o barco engolindo a todos, pensei. Nada disso aconteceu e a viagem continuou entre peixes, jacarés, garças, gaviões e grupos indígenas que pescavam nas canoas encostadas nas margens. Às vezes famílias inteiras, outras só o homem, e somente as crianças se encarregam do almoço e da janta.
– Tá longe, seu Genésio?
– Não,é logo ali, dobrando aquela mata, quando passar o igarapé.
Me respondeu, mas em seguida comentou com  sinceridade:
– Índio quando diz que é perto é porque é longe, nosso tempo corre devagar, dez minutos pra vocês é uma hora pra gente.
Assim, vimos de longe as aldeias Santa Izabel e Espírito Santo e chegamos no meio da aventura, o Encruzo, onde os índios pagam suas penas junto da família, trabalhando pela natureza, em uma prisão sem celas. Onze da manhã, e as mulheres das duas únicas famílias que moram no local já assavam peixe na brasa feita no chão. Em cima de uma das grelhas, um jabuti com o casco virado pra baixo que ainda esperneava. Não dava pra matar antes? Não sei, aprendi que é assim que se cozinha jabuti, respondeu a índia. Seu Genésio me explicou que hoje os índios não vêm com muita frequência pro castigo no Encruzo,mas quando vinham, não tinha fuga.
– Fugir pra onde? De quê? A maioria dos índios quando faz algo errado, como beber muito, brigar ou mexer nas coisas dos outros, deve sentir o desprezo e valorizar o que deixa de ter. Hoje eles são castigados na aldeia, o cacique diz a pena.
Uma cena me fez voltar no tempo: duas crianças riam improvisando uma gangorra com uma tábua velha em cima de um esteio. Era o início de uma série de surpresas proporcionadas pelos povos indígenas do Baixo Oiapoque.
Depois de cinco horas de viagem fomos recebidos pelo cacique Oberto e outros indígenas. Nas faixas, mensagens de recepção e para cuidados com a limpeza da aldeia, em português e patuá. Uma curumim me fez rir com a cara que fez ao ver, pela primeira vez, seu rosto fotografado na tela da câmera. O almoço era preparado em panelões sob uma grande fogueira cavada no chão de terra. Cardápio: piranha, pirarucu, pescada e jacaré cozidos. Com vergonha, não tiramos da mala os enlatados e talheres que levamos.
A aldeia estava agitada na expectativa do grande evento que ia reunir todas as etnias, a Assembléia dos Povos Indígenas de Oiapoque. Barcos chegavam carregados de índios e eram recebidos com festa, ao modo deles, sem algazarra, nem fogos, apenas o olhar de felicidade por reencontrar alguém querido.
Em Kumarumã a comunicação é limitada. Todos assistem novela captadas pelas parabólicas, até que o motor seja desligado. Os telefones públicos estavam sem funcionar há 45 dias e voltaram a tocar naquela tarde, fora isso, só o rádio amador. Celular tem, mas só serve pra escutar música. No lanche, nada de salgados ou biscoitos, o bom é comer pão, cará ou macaxeira com café na porta da casa, enquanto faz-se farinha e tucupi, sem esquecer de separar a crueira para o mingau.
Um passeio na tarde me deu a certeza de estar em uma aldeia esquecida e perdida no tempo. Um velho cacique ensinava com paciência o neto a arte de tecer paneiros; a guitarra tocada pelo índio em sua rede, e as moças que faziam bijouterias nas salas. Como deve ser bom viver a infância naquela aldeia. Lá elas realmente aproveitam pra fazer coisas da idade. Duas adolescentes de 15 anos brincavam de bole-bole, outras competiam o cabo-de-guerra, e umas ainda menores se lambuzavam na terra.
Em Kumarumã as crianças são alfabetizadas na língua materna até a quarta série, por isso nunca esquecem o idioma. Durante a noite, dezenas delas nos seguiam admiradas, querendo se enxergar dentro da caixa misteriosa, sinalizavam e pediam foto em patuá. No outro dia os índios haviam se multiplicado e foi um desfile de roupas coloridas, penas e vários dialetos trocando boas-vindas. É o encontro para discutir políticas indígenas, mas também para confraternizar e rever amigos e parentes distantes.
Aprendi com eles que o tempo só vale se for vivido por completo, sem pressa. Compreendi que a simplicidade, humildade e sinceridade, cada um traz de berço mas podem ser colocados dentro de cada pessoa por vontade própria. Reclamar só serve se for resolver o problema, ou alimenta nossa alma de coisas estranhas e ruins. Conheci outra forma de prisão, aquela que é ao ar livre, onde o que dói não é a algema, mas sim a ausência de amigos e parentes. As novelas são pra distrair e não pra servir de exemplo. E que o turé, a dança de agradecimento, deve ser dançado com a família e amigos queridos, mesmo sem saber os passos, deve ser dançado com o coração.
Peixe a jabuti na brasa
Peixe a jabuti na brasa

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Fotos: Márcia do Carmo

Mariléia Maciel

  • trabalho na SESAI,saúde indígena ,gostei muito da reportagem , seria bom se de vez em quando saíssem noticias sobre a cultura indígena que é tão pouco divulgada em nossa cidade e ela é tão rica na forma de pensar sentir e agir dos povos indigenas

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